Violence
O Último Refúgio da Insanidade
A floresta parecia não ter fim, mas a visão de um chalé de madeira, escondido em uma depressão do terreno entre pinheiros densos, surgiu como uma miragem para o grupo exausto. Não era a casa principal da fazenda; era algo mais antigo, com paredes de troncos escuros e uma chaminé que soltava um fio de fumaça preguiçosa.
— Ali! — Luka apontou, a voz falhando. — Alguém está lá. Tem que ser ajuda.
Eles tropeçaram até a varanda. Till apoiava o braço ferido, o rosto pálido pela perda de sangue, enquanto Ivan o segurava pela cintura. Hyuna e Sua vinham logo atrás, os olhos injetados de terror. Luka esmurrou a porta com o que restava de suas forças.
— Por favor! Socorro! — gritou ele.
A porta se abriu lentamente, revelando um homem muito idoso. Ele tinha cabelos brancos ralos e usava um cardigã de lã sobre uma camisa xadrez. Seus olhos eram pequenos e pareciam gentis, embora estivessem cercados por rugas profundas.
— Mas o que é isso? — o velho exclamou, olhando para os jovens ensanguentados. — Entrem, entrem rápido!
O interior do chalé era quente e cheirava a ervas secas e tabaco. O grupo desabou nos sofás de couro puído. Luka, em meio a soluços e frases desconexas, tentou explicar sobre o assassino, a impostora e o Silas morto no celeiro.
— Calma, meu rapaz — disse o velho, servindo copos de água com mãos trêmulas. — Eu sou o avô da garota que você mencionou... e pai daquele homem. Meu nome é Eustáquio. Eu sabia que ele estava instável, mas não achei que chegaria a esse ponto.
— O senhor tem um telefone? Um rádio? — Ivan perguntou, a voz ríspida pela adrenalina. — Precisamos da polícia agora!
— O sinal não chega aqui, filho — Eustáquio respondeu, balançando a cabeça com pesar. — Mas eu tenho um jipe no galpão dos fundos. O problema é que a estrada está bloqueada por árvores caídas devido à tempestade de ontem. É melhor esperarmos aqui. Eu vou até a vila a pé buscar ajuda assim que a névoa baixar.
— Não! — gritou Hyuna. — O senhor não pode nos deixar sozinhos! Aquele monstro está lá fora!
— É perigoso demais para vocês se moverem agora — o velho insistiu, o tom de voz tornando-se estranhamente monótono. — Ele conhece cada centímetro desta mata. Se vocês saírem, ele os pegará em minutos. Aqui, as paredes são grossas. Fiquem calmos. Vou preparar um chá para os nervos.
Eustáquio começou a mexer em bules na cozinha, mas o clima no chalé mudou. Till, que estava encostado na parede, sentiu um calafrio que não vinha do ferimento. Ele olhou para o velho e depois para a porta.
— Tem algo errado — sussurrou Till para Ivan. — Ele está calmo demais para quem acabou de saber que o filho é um maníaco com uma motosserra.
Antes que Ivan pudesse responder, o som que todos temiam rasgou o ar. O rugido da motosserra ecoou logo atrás do chalé, crescendo em um crescendo ensurdecedor.
A porta lateral da cozinha foi escancarada e Mizi entrou correndo, ofegante, as roupas rasgadas por espinhos. Ela parou ao ver o grupo, os olhos amarelos brilhando de pânico.
— Ele está aqui! Ele está logo atrás de mim! — ela gritou.
Segundos depois, a figura massiva do assassino bloqueou a entrada. Ele não usava mais a máscara, revelando o rosto retorcido de dor pela morte da filha impostora. Ele entrou no chalé, a motosserra fumegando, os olhos fixos em Mizi.
— Pai... — o assassino rosnou, olhando para Eustáquio.
O velho, que até então parecia um avô frágil, deixou o bule de chá cair. O som da porcelana quebrando foi o sinal para a mudança. O rosto de Eustáquio se contorceu em um sorriso gélido e cruel, uma máscara de sanidade caindo para revelar a mesma loucura que habitava o filho.
— Você demorou para encurralá-los, meu filho — disse Eustáquio, a voz agora firme e desprovida de qualquer compaixão. — Eu tive que entretê-los com mentiras sobre jipes e vilas.
O grupo recuou em choque. Eles estavam no covil do inimigo original.
— O senhor... o senhor planejou isso? — Luka perguntou, a voz quebrada.
— A fazenda exige sacrifício, Luka — o velho respondeu, puxando uma faca de caça longa debaixo do balcão. — Seu avô Arthur e eu tínhamos um pacto. Mas ele amoleceu. Ele queria deixar a terra para vocês, os "puros". Eu não podia permitir.
O assassino avançou com um rugido. Luka, vendo o monstro se aproximar de Hyuna, lançou-se à frente para protegê-la. O assassino não usou a serra; ele desferiu um chute brutal no joelho de Luka. O som do osso quebrando ecoou pela sala, e Luka caiu com um grito de agonia lancinante.
— Luka! — Hyuna gritou, tentando socorrê-lo.
— Agora, a garota melancólica — Eustáquio murmurou, caminhando em direção a Sua com a faca em riste. — Você tem olhos que pedem pelo fim, não tem?
Sua ficou paralisada, o medo travando seus músculos. O velho ergueu a faca para desferir o golpe mortal no peito dela, mas um vulto rosa e azul se lançou no meio.
Mizi se jogou na frente de Sua. O som da lâmina entrando na carne foi abafado pelo grito de horror de Till. A faca de Eustáquio afundou profundamente no ombro de Mizi.
O tempo pareceu congelar. O sangue jorrou sobre o vestido de Sua, que olhava para Mizi em choque absoluto. Mizi, no entanto, não caiu. Um rosnado animal saiu de sua garganta. Ela agarrou o pulso do velho com uma força que ninguém imaginava que ela possuísse e, com um movimento violento, arrancou a faca do próprio ombro.
— Mizi, não! — Till tentou avançar.
Mizi pulou sobre Eustáquio com a fúria de quem já não tinha nada a perder. Ambos caíram no chão, rolando entre os cacos de porcelana. Mizi montou sobre o velho e começou a esfaqueá-lo repetidamente. Um, dois, três... seis golpes frenéticos no peito e no pescoço do homem. O sangue espirrava em seu rosto, misturando-se às lágrimas e à sujeira, enquanto o velho gungia de dor e surpresa antes de seu corpo amolecer sob ela.
Enquanto isso, o assassino investiu contra Till. Ele prensou o garoto de cabelos cinza contra a parede de madeira, as mãos imensas apertando seu pescoço enquanto tentava posicionar a motosserra para rasgá-lo ao meio.
— Larga ele! — Hyuna gritou. Em um ato de coragem desesperada, ela pegou um pesado castiçal de ferro da mesa e golpeou a cabeça do assassino.
O homem cambaleou, o motor da serra falhando. Hyuna tentou bater novamente, mas o assassino girou o braço e a atingiu com as costas da mão. O impacto foi tão forte que Hyuna voou contra a quina de um móvel pesado e desabou no chão, inconsciente.
— Hyuna! — Luka tentou se arrastar com o joelho destruído, mas o assassino desferiu um soco em sua têmpora, apagando-o instantaneamente.
Ivan, vendo que a situação era perdida, agarrou o braço de Till enquanto o assassino ainda estava atordoado pelo golpe de Hyuna.
— Till, agora! Se ficarmos, morremos! — Ivan puxou o amigo com uma força desesperada.
Eles saíram pela porta dos fundos, correndo para a escuridão da floresta enquanto ouviam os gritos furiosos do assassino dentro do chalé.
Lá dentro, Sua tentou rastejar para longe, mas o assassino, ignorando o cadáver do pai e a fúria de Mizi, a encurralou contra o canto da sala. Ele desferiu um golpe seco na nuca da garota, e o mundo de Sua mergulhou no escuro. Mizi, exausta e perdendo sangue pelo ombro, tentou se levantar para lutar, mas o gigante a atingiu com o cabo da motosserra. O silêncio finalmente caiu sobre o chalé de Eustáquio.
***
Horas depois.
A consciência voltou para Luka como uma onda de dor insuportável. Ele tentou mover as mãos, mas elas estavam presas por cordas grossas atrás de suas costas. Ele tentou falar, mas uma fita adesiva forte cobria sua boca, sufocando seus gritos.
Ele abriu os olhos e viu que estava em um porão escuro e úmido. O cheiro de terra e podridão era sufocante. Ao seu lado, amarrados da mesma forma, estavam Hyuna e Sua. Hyuna tinha um corte profundo na testa e parecia estar começando a acordar, soltando gemidos abafados pela fita. Sua estava imóvel, os olhos abertos mas vazios, olhando para o teto de vigas baixas.
Mizi não estava lá.
Luka começou a se debater, a dor no joelho enviando choques elétricos por todo o seu corpo. Ele olhou ao redor, procurando por uma saída, mas as paredes eram de pedra bruta e a única porta de madeira parecia reforçada com ferro. Eles estavam sozinhos. Prisioneiros no coração da insanidade que herdaram.
A cerca de quinhentos metros dali, escondidos atrás de arbustos de azeviche que cercavam a parte externa do chalé, Till e Ivan observavam a construção em silêncio. A luz da lua minguante dava à casa uma aparência espectral.
— Temos que entrar lá — sussurrou Till, apertando o ferimento no braço, que Ivan havia enfaixado com uma tira de sua própria camisa. — Eles estão lá dentro. Eu não vou embora sem a Mizi e os outros.
— Till, olha o tamanho daquele cara — Ivan respondeu, a voz tremendo apesar de seus esforços para parecer calmo. — Ele matou o próprio pai e não piscou. Se entrarmos lá sem um plano, só vamos aumentar a contagem de corpos.
— Eu não me importo! — Till rosnou, os olhos verdes brilhando com uma intensidade perigosa. — Ele está com ela, Ivan.
Ivan olhou para o amigo e depois para o chalé. Ele estava apavorado. Cada instinto em seu corpo gritava para ele correr até a rodovia e nunca mais olhar para trás. Mas ele olhou para Till e soube que, se o deixasse ali, nunca se perdoaria. A relação deles era feita de brigas e provocações, mas no fundo, havia uma lealdade distorcida que o impedia de partir.
— Escuta — Ivan sussurrou, aproximando-se mais de Till. — O cara é movido pela rotina. Ele vai ter que sair do chalé em algum momento, seja para descartar o corpo do velho ou para verificar o perímetro. Vamos esperar até a noite fechar de vez. Quando as luzes se apagarem, nós entramos por baixo, pelo acesso do porão que eu vi nos fundos.
Till respirou fundo, tentando controlar a raiva e o medo.
— Tudo bem. Mas se ouvirmos um grito lá dentro, eu entro com plano ou sem plano.
— Combinado — assentiu Ivan.
Os dois se encolheram entre as sombras frias da floresta, observando o chalé como predadores que esperam a vez de se tornarem presas. O vento soprava entre as árvores, trazendo o som distante de um metal sendo afiado. A noite na fazenda estava apenas começando, e o porão guardava segredos que nenhum deles estava preparado para descobrir. Eles ficariam ali, imóveis, até que a escuridão fosse total, rezando para que, quando voltassem, ainda houvesse alguém vivo para salvar.