Violence
O Silêncio das Sombras e o Caminho do Medo
A escuridão na fazenda não era apenas a ausência de luz; era uma presença física, densa e sufocante, que parecia observar cada movimento de Till e Ivan. Escondidos entre os arbustos de azeviche, eles mal ousavam respirar. O som metálico de uma pá batendo contra a terra seca vinha de algum lugar atrás do chalé, acompanhado pelo zumbido baixo e intermitente do motor da motosserra sendo testado.
Finalmente, a porta do chalé rangeu. O homem gigante emergiu das sombras, uma silhueta grotesca sob a luz pálida da lua. Ele carregava o corpo de Eustáquio sobre um dos ombros como se fosse um fardo de feno, e na outra mão empunhava a motosserra desligada. Ele caminhou em direção à mata fechada, com passos pesados que faziam os gravetos estalarem, provavelmente para enterrar o pai e a impostora antes de retornar para terminar o serviço com os sobreviventes.
— Agora — sussurrou Ivan, a voz quase inaudível. — Ele se afastou. É a nossa chance.
Eles se moveram como sombras, contornando o chalé até a parte traseira. Ali, uma pequena porta de madeira apodrecida dava acesso ao porão. Estava trancada com um cadeado velho, mas a madeira ao redor das dobradiças era tão frágil que, com um puxão coordenado e silencioso, a estrutura cedeu com um estalo seco.
Lá dentro, o cenário era de puro desespero.
Luka estava caído de lado, o rosto vermelho e suado, debatendo-se contra as cordas que prendiam seus pulsos e tornozelos. A dor em seu joelho destruído era evidente em cada espasmo. Hyuna estava encostada em uma viga de sustentação, a cabeça pendida, ainda inconsciente pelo golpe que sofrera.
E havia Sua. Ela estava sentada no chão úmido, as costas contra a parede de pedra. Seus olhos roxos estavam abertos, mas pareciam olhar para um lugar muito distante. Ela não se debatia. Em sua mente, um redemoinho de culpa e confusão a consumia. Acorn morrera por ela — um sacrifício por alguém que nem sequer o amava de volta. Mas, estranhamente, sua mente voltava para a garota que aparecera com o rifle. A verdadeira Mizi. O modo como ela se lançara na frente da faca de Eustáquio para salvá-la... Sua sentia algo novo, uma inquietação que não era medo, mas uma preocupação profunda por alguém que mal conhecia, mas que já havia dado o sangue por ela.
O som da porta do porão sendo arrombada fez Luka congelar, os olhos arregalados de pavor. Mas quando as silhuetas de Till e Ivan surgiram na penumbra, o alívio foi tão intenso que ele quase desmaiou.
— Shhh! — Till colocou o dedo sobre os lábios, aproximando-se rapidamente. — Estamos aqui. Vamos tirar vocês daqui.
Ivan foi direto para Luka, usando um canivete para cortar as cordas.
— Consegue andar? — perguntou Ivan, preocupado ao ver o estado do joelho do amigo.
— Eu... eu não sei — Luka tentou falar, mas a voz saiu rouca quando Till removeu a fita de sua boca. — Meu joelho... acho que quebrou.
Till moveu-se para Sua, cortando suas amarras com mãos trêmulas. Ela apenas assentiu, levantando-se com dificuldade, os olhos buscando os de Till.
— Onde ela está? — Sua perguntou, a voz falhando. — A Mizi... ele levou ela.
— Nós vamos achá-la — prometeu Till, embora seu coração estivesse apertado de incerteza.
Hyuna começou a despertar com um gemido baixo. Ivan e Till a ajudaram a se sentar enquanto Luka era levantado. O grupo estava em frangalhos. Ivan e Hyuna se posicionaram um de cada lado de Luka, servindo de apoio humano. Luka, com o rosto retorcido de dor, tentava manter o peso apenas em uma perna, pulando desajeitadamente.
— Temos que sair deste chalé agora — disse Till, assumindo a liderança com o pé de cabra em punho. — Se ele voltar e nos pegar aqui, estamos mortos.
Eles saíram do porão e entraram na floresta, tentando seguir a trilha de volta para a fazenda principal, na esperança de que pudessem encontrar alguma saída ou um lugar melhor para se esconder. O progresso era lento. O som da respiração pesada de Luka e o arrastar de pés no mato pareciam altos demais no silêncio da noite.
Após alguns minutos de caminhada tensa, eles chegaram a uma clareira onde as árvores se abriam ligeiramente. Till parou bruscamente, fazendo o resto do grupo estancar.
— Olhem ali — sussurrou ele, apontando para um carvalho imenso.
Mizi estava lá. Mas não da forma que esperavam. Seus pulsos estavam amarrados por uma corda grossa que passava por um galho alto, mantendo seus braços esticados acima da cabeça. Ela estava nas pontas dos pés, o corpo pendendo sem forças. Além do ferimento no ombro, havia um corte profundo e sangrento em seu flanco, sujando seu moletom de um carmesim escuro. Sua cabeça estava caída sobre o peito, os cabelos rosa e azul tapando seu rosto.
A alguns metros de distância, de costas para eles, o assassino estava curvado sobre uma vala rasa, terminando de cobrir os corpos de sua família. O som da pá atingindo a terra era o único ruído na clareira.
— Eu vou pegá-la — sussurrou Till, os olhos fixos em uma faca de caça que estava fincada no tronco da árvore, logo abaixo de onde Mizi estava pendurada.
— Till, é perigoso demais — Ivan tentou segurá-lo, mas Till já estava se movendo.
Ele deslizou pela grama alta com uma agilidade nascida do desespero. Seus olhos não saíam do gigante que cavava a terra. Till alcançou a árvore, agarrou a faca e começou a cortar as cordas que prendiam os pulsos de Mizi. Ele estava focado demais no trabalho, sem perceber que Mizi estava completamente desacordada, um peso morto.
No momento em que a última fibra da corda cedeu, Mizi escorregou. Till tentou segurá-la, mas o peso dela o pegou de surpresa. O corpo da garota caiu no chão com um baque surdo sobre as folhas secas.
O som da pá parou instantaneamente.
O assassino girou o corpo com uma velocidade assustadora. Ao ver Till junto à garota, ele soltou um urro de fúria puramente animal. Ele largou a pá e correu na direção deles, os passos fazendo o solo vibrar.
Till mal teve tempo de se levantar antes que as mãos imensas do homem se fechassem em volta de seu pescoço. Ele foi erguido do chão e prensado contra o tronco áspero da árvore. O ar fugiu de seus pulmões; sua visão começou a escurecer enquanto ele chutava as pernas do gigante em vão.
— Solta ele! — gritou Ivan.
Em um ato de lealdade instintiva, Ivan correu e saltou nas costas do assassino, envolvendo seus braços em volta do pescoço do homem e puxando-o para trás com todo o seu peso. O gigante cambaleou, mas não soltou Till.
Hyuna, vendo a cena, largou o braço de Luka, deixando-o encostado em uma árvore próxima.
— Fica aí, Luka! — ela comandou, antes de disparar como uma flecha.
Ela não parou para pensar. Hyuna saltou, usando o impulso da corrida para chutar as costas do gigante ao mesmo tempo em que Ivan o puxava. O equilíbrio do homem foi quebrado. Ele tropeçou para frente, soltando Till, que caiu no chão tossindo e arquejando.
O assassino caiu de cara no chão, mas o destino foi cruel com ele. Sua testa atingiu uma pedra pontiaguda que sobressaía da terra. O som do impacto foi seco e final. O corpo do gigante relaxou, e ele ficou imóvel, o sangue começando a empoçar sob seu rosto.
— Ele... ele morreu? — perguntou Hyuna, ofegante, olhando para o homem caído.
— Não importa, ele está apagado — disse Ivan, ajudando Till a se levantar. — Temos que ir, agora!
Till ignorou a dor na garganta e se ajoelhou ao lado de Mizi. Ela estava pálida, a respiração fraca e superficial. Ele a ajeitou com cuidado, colocando os braços dela por cima de seus ombros e levantando-a em suas costas. Mizi estava mole como gelatina, sua cabeça pendendo sobre o ombro de Till, o calor do sangue dela atravessando a camisa dele.
— Eu peguei ela — murmurou Till, a determinação brilhando em seus olhos verdes. — Vamos sair deste inferno.
Hyuna e Ivan voltaram para Luka, que assistia a tudo com os olhos marejados de dor e alívio. Eles voltaram a apoiá-lo, formando novamente aquela procissão dolorosa. Sua vinha por último, olhando para trás uma última vez para o homem caído e para a cova aberta, antes de fixar os olhos nas costas de Mizi, que era carregada por Till. Um sentimento de proteção que ela nunca experimentara antes começou a se enraizar em seu peito gelado.
Eles chegaram à estrada de terra que levava para fora da propriedade. A noite ainda era profunda, e as árvores ao longo do caminho pareciam mãos esqueléticas tentando alcançá-los. O silêncio da fazenda voltara, mas agora era preenchido pelo som rítmico de seus passos e pelo esforço da respiração coletiva.
— Quanto tempo até a rodovia? — perguntou Hyuna, sua voz quebrando o silêncio.
— Muito tempo — respondeu Ivan, olhando para o horizonte escuro. — Mas não vamos parar.
Eles continuaram andando pela estrada deserta. Luka pulava em uma perna só, gemendo baixo a cada impacto; Till carregava o peso de Mizi como se fosse o tesouro mais precioso do mundo; e Sua caminhava em silêncio, uma sentinela nas sombras. Eles eram apenas vultos na imensidão da noite, caminhando para longe dos horrores da herança de Luka, sem saber o que o amanhecer lhes reservaria, mas sabendo que, pela primeira vez naquela noite longa, eles ainda estavam juntos.