Violence
O Batismo de Sangue na Estrada de Ferro
O silêncio da noite foi estuprado pelo som que todos temiam. Não era um rugido constante, mas o engasgo metálico de uma ignição sendo forçada. *Vrum... vrum... VRUMMMMM!* A motosserra ressuscitou, e com ela, o pavor.
— Ele não morreu... — sussurrou Hyuna, o rosto empalidecendo sob a luz da lua. — Ele não morreu!
Vindo da direção da clareira, a silhueta do gigante emergiu entre os troncos. Ele corria com uma claudicação pesada, a cabeça banhada em sangue que escorria por cima do olho esquerdo, dando-lhe a aparência de um demônio recém-saído do abismo. O brilho da corrente giratória lançava faíscas contra os galhos baixos.
— Pro mato! Agora! — berrou Till, ajustando o corpo de Mizi em suas costas.
O grupo se dispersou como folhas ao vento. O pânico, aliado à escuridão, destruiu qualquer chance de formação organizada. Luka, Ivan e Hyuna, que já estavam apoiando o herdeiro da fazenda, mergulharam para o lado esquerdo, sumindo entre as samambaias gigantes e o emaranhado de trepadeiras.
Sua, em seu silêncio habitual que beirava o invisível, acabou sendo empurrada para uma direção oposta. Ela se viu vagando sozinha por entre árvores que pareciam todas iguais, o som da serra abafado pela vegetação, mas ainda presente, como um batimento cardíaco mecânico.
Till, carregando o peso morto de Mizi, não olhou para trás. Seus pulmões ardiam e o suor frio turvava sua visão. Ele corria em linha reta, ou o que ele acreditava ser uma linha reta, em direção ao que esperava ser a rodovia. O peso de Mizi era sua âncora e sua motivação; ele sentia o sangue morno dela empapando sua camisa, um lembrete constante de que o tempo estava acabando.
Após o que pareceram horas de agonia, Till deu de cara com uma barreira intransponível: uma cerca alta de ferro, com pontas afiadas, que delimitava o final da propriedade mas impedia o acesso direto à estrada.
— Merda! — ele rugiu, encostando Mizi suavemente contra a base da cerca.
Ele percebeu que precisavam voltar para a trilha principal. Só por lá haveria um portão ou uma brecha. Do outro lado da mata, Luka, Ivan e Hyuna chegaram à mesma conclusão ao baterem contra a grade metálica. Eles se reencontraram na orla da trilha, onde Sua apareceu como um fantasma, surgindo das sombras com os olhos roxos fixos no nada.
— Onde está o Till? — perguntou Luka, a voz embargada enquanto se apoiava pesadamente em Ivan.
— Ali! — Hyuna apontou.
Till saiu do mato, tropeçando, ainda com Mizi nos braços.
— Corram! — ele gritou, o rosto vermelho pelo esforço. — Ele está logo atrás!
Como se fosse invocado pelo grito, o assassino rompeu a folhagem. Ele estava a menos de dez metros. O grupo forçou as pernas ao máximo, mas a desvantagem era óbvia. Luka mal conseguia pular em uma perna, e Ivan já estava no limite de suas forças físicas.
O inevitável aconteceu. Ivan tropeçou em uma raiz exposta, levando Luka junto com ele. Os dois caíram pesadamente no cascalho da trilha. Hyuna parou para ajudá-los, mas o gigante foi mais rápido. Com uma mão imensa, ele agarrou Hyuna pelos cabelos, puxando-a para cima com uma violência que a fez soltar um grito agudo.
Ele desligou a motosserra por um segundo, o silêncio sendo preenchido apenas pelo som da corrente estalando e pela respiração pesada do monstro. Ele posicionou a lâmina fria contra o estômago de Hyuna.
— Um passo... — o homem rosnou, a voz saindo como brita moída — ...e eu parto ela ao meio.
Till parou, largando Mizi com cuidado no chão. Ele apertou o cabo da faca que ainda carregava, os olhos verdes injetados de fúria. Ivan e Luka, caídos, olhavam para a cena com um horror paralisante.
— Solta ela, seu desgraçado! — Till deu um passo à frente.
O homem rosnou e apertou o gatilho da serra. O motor tossiu, pronto para girar.
Foi então que o "fantasma" agiu.
Sua, que sempre fora a mais quieta, a que quase ninguém notava, estava posicionada exatamente atrás do homem. Enquanto todos os olhos estavam focados na lâmina, ela se moveu com a leveza de uma sombra. Ela não era forte; era magra e seus braços tremiam, mas ela sabia onde bater.
Com um chute seco e preciso, ela atingiu a parte de trás do joelho do gigante. Não foi a força, mas o ponto de articulação que cedeu. O homem soltou um urro de surpresa e caiu de joelhos no cascalho, soltando Hyuna no processo.
— Agora! — gritou Sua, a voz saindo mais alta do que qualquer um já ouvira.
Till não desperdiçou o segundo de vantagem. Ele avançou e desferiu um chute brutal no rosto do homem. A cabeça do assassino voou para trás e a motosserra escapou de suas mãos, caindo ruidosamente no chão.
Ivan, movido por um surto de adrenalina, rastejou e pegou a máquina. Ele tentou puxar a corda de ignição, mas o motor estava afogado.
— Liga essa droga, Ivan! — berrou Luka.
— Não liga! — Ivan rugiu de volta.
O gigante, recuperando-se do chute, investiu contra Ivan. Mesmo de joelhos, ele era uma força da natureza. Ele agarrou a carcaça da motosserra desligada, tentando arrancá-la das mãos de Ivan. Começou uma disputa de força bruta. Ivan empurrava a lâmina para baixo, tentando esmagar o peito do homem, enquanto o assassino a empurrava para cima, em direção ao pescoço de Ivan.
— Ajuda aqui! — Ivan gritou, as veias de seu pescoço saltando.
Till e Sua saltaram sobre a máquina, usando todo o peso de seus corpos para ajudar Ivan a pressionar a motosserra contra o gigante. O homem era assustadoramente forte; mesmo com três pessoas empurrando contra ele, ele mantinha a lâmina a centímetros de seu próprio rosto, os músculos de seus braços tremendo como cordas de aço prestes a romper.
Enquanto a luta de vida ou morte acontecia, Mizi abriu os olhos.
A visão estava turva. O cheiro de gasolina, sangue e terra molhada inundou seus sentidos. Ela viu Till, Ivan e Sua em uma luta desesperada contra o monstro. Ela viu a faca de caça caída a poucos centímetros de sua mão.
Mizi não disse nada. Não houve grito de guerra ou aviso. Ela apenas estendeu os dedos trêmulos, fechou-os em volta do cabo da faca e se levantou. Cada movimento era uma agonia; seu ombro latejava e o corte em sua barriga parecia queimar com fogo líquido. Mas ela se moveu.
Ela surgiu ao lado do gigante como um vulto rosa manchado de trevas. Antes que o homem pudesse processar sua presença, Mizi cravou a faca com toda a força remanescente em sua bochecha.
O metal atravessou a carne, rasgando o músculo facial. O homem soltou um grunhido de dor e surpresa, o sangue espirrando diretamente no rosto de Mizi. Ela puxou a faca para fora, pronta para enterrá-la na garganta dele e acabar com o pesadelo.
Mas o gigante, em um último esforço de sobrevivência, largou a motosserra que o trio empurrava. Com um braço livre, ele desferiu um soco violento no peito de Till, jogando-o para longe.
— Till! — Ivan gritou, abandonando a motosserra por um segundo para amparar o amigo que caía.
Sua perdeu o equilíbrio e caiu no chão. O homem aproveitou o vácuo de poder e agarrou o pulso de Mizi antes que o golpe fatal descesse. Ele apertou o braço dela com tanta força que os ossos estalaram, e com a outra mão, ele pressionou o ferimento aberto na barriga de Mizi.
— Aaaaah! — Mizi gritou, as lágrimas de dor finalmente vencendo sua resistência.
— Morre... sua cadela... — o homem sibilou.
Mizi, mesmo vendo estrelas de dor, reuniu o último resto de dignidade. Ela cuspiu sangue no rosto dele e desferiu um chute certeiro entre as pernas do gigante.
O aperto afrouxou. O homem recuou, mas ainda segurava a faca que tomara de Mizi.
Hyuna, que se recuperara do susto, viu a abertura. Ela correu e se lançou contra as costas do homem, derrubando-o novamente.
— Sai de cima dele, Hyuna! — Mizi comandou, a voz saindo rouca e autoritária.
Hyuna rolou para o lado. O assassino tentou se levantar, apoiando as mãos no chão, o rosto desfigurado pelo corte da faca e pelo ódio. Ele olhou para cima e viu Mizi em pé, segurando a motosserra pesada com as duas mãos.
Ele não teve tempo de reagir. Ele não teve tempo de implorar.
Mizi não tentou ligar o motor. Ela usou a ferramenta como um machado de carrasco. Com um grito que parecia vir das profundezas de sua alma, ela desceu a lâmina de aço desligada com toda a força e peso de seu corpo diretamente no pescoço do homem.
O impacto foi seco. A corrente dentada, mesmo imóvel, agiu como uma serra de pressão. O peso e a força do golpe foram tamanhos que a cabeça do gigante foi separada do tronco em um movimento grotesco e irregular.
Um repuxo de sangue arterial jorrou para cima, como uma fonte macabra, batizando Mizi da cabeça aos pés. O líquido quente e ferroso cobriu seu rosto, seus cabelos rosa, e escorreu por suas roupas.
O corpo do homem caiu para frente, inerte. A cabeça rolou pelo cascalho da trilha, parando perto dos pés de Sua.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Apenas o som do sangue pingando da lâmina da motosserra quebrava a quietude da madrugada.
Mizi soltou a ferramenta, que caiu com um baque metálico. Ela ficou ali, em pé, tremendo, os olhos dourados fixos no vazio, a pele agora tingida de um vermelho profundo. Ela parecia uma deusa da guerra caída em um pesadelo de carne.
Till foi o primeiro a se aproximar. Ele tocou o ombro dela suavemente.
— Mizi... acabou. Acabou.
Ela se virou para ele, e por um momento, Till viu algo naqueles olhos que o assustou — uma frieza que não pertencia à garota gente boa que ele conhecera. Mas então, o brilho desapareceu, e Mizi desabou nos braços dele, chorando silenciosamente enquanto o sangue do assassino começava a esfriar em sua pele.
Ivan ajudou Luka a se levantar, enquanto Hyuna abraçava Sua, que ainda olhava para a cabeça no chão com uma expressão indecifrável.
Eles estavam vivos. A fazenda, com seus segredos e sua herança de sangue, ficava para trás, envolta na névoa da manhã que começava a surgir. Eles caminharam em direção à rodovia, um grupo de amigos que entrara naquela mata como jovens e saía como sobreviventes marcados pela violência.
Mizi, apoiada em Till, olhou para trás uma última vez. A fazenda parecia menor agora, menos imponente. O mal fora cortado pela raiz, mas o preço fora pago em carne e inocência. O sol finalmente rompeu o horizonte, mas para eles, a luz nunca mais seria a mesma. O batismo de sangue estava completo.