Violence
O Renascer das Sombras e o Gosto do Pecado
As luzes azuis e vermelhas das viaturas de polícia cortavam a neblina da madrugada na rodovia, transformando o asfalto em uma tela de cores frenéticas. O som das sirenes, que antes parecia um sinal de salvação, agora era apenas um ruído incômodo para os seis sobreviventes amontoados no acostamento. Mizi, ainda coberta pelo sangue seco que começava a craquelar em sua pele, estava sentada na traseira de uma ambulância, enrolada em um cobertor térmico prateado. Seus olhos dourados estavam fixos no horizonte, onde o sol lutava para nascer.
A investigação foi exaustiva. Foram semanas de depoimentos, perícias técnicas na fazenda e a descoberta de um cemitério clandestino que guardava os restos de décadas de "sacrifícios" orquestrados pelo avô de Luka e pelo clã de Silas. A polícia encontrou provas irrefutáveis de que os jovens agiram em legítima defesa contra uma linhagem de psicopatas. No fim, foram liberados. Luka e Mizi, como herdeiros legítimos, não hesitaram um segundo: venderam a propriedade para uma empresa de reflorestamento por uma quantia astronômica. O dinheiro nunca apagaria as cicatrizes, mas garantia que eles nunca mais precisariam olhar para trás.
Dois meses se passaram. O grupo, que antes era inseparável, havia se fragmentado pelo trauma. Mizi, que nunca fora realmente parte do círculo de amigos de Luka, desapareceu em sua própria rotina de recuperação, vivendo em um apartamento longe de tudo. Até que Luka, em uma tentativa de retomar a normalidade, decidiu organizar uma festa íntima em sua nova e luxuosa casa na cidade.
A sala estava iluminada por luzes quentes, e o som de um rock alternativo baixo preenchia o ambiente. Till estava encostado no balcão da cozinha, girando um copo de bebida, com Ivan a poucos centímetros dele, observando-o com uma intensidade que beirava o insuportável. Hyuna e Luka conversavam perto da varanda, as risadas agora um pouco menos nervosas do que há dois meses. Sua estava sentada em uma poltrona, um livro aberto no colo, mas seus olhos roxos não liam uma única palavra; ela olhava para a porta.
A campainha tocou. Luka abriu a porta e um silêncio súbito caiu sobre a sala.
Mizi entrou. Ela não parecia mais a deusa de sangue daquela noite. Usava um vestido preto justo que realçava suas curvas e deixava à mostra a cicatriz agora clara em seu ombro. Seus cabelos rosa e azul estavam sedosos, e o perfume doce que exalava parecia apagar o cheiro de gasolina e morte que todos ainda guardavam na memória olfativa.
— Você veio — disse Luka, abraçando a irmã. — Achei que ia nos dar um bolo.
— Eu não perderia a chance de ver se vocês ainda estão inteiros — respondeu Mizi, sua voz aveludada causando o habitual arrepio coletivo.
Ela caminhou pela sala, cumprimentando a todos com um aceno, mas seu olhar parou em Sua. A garota de cabelos pretos sentiu o coração falhar uma batida. Mizi não desviou o olhar; ela sorriu, um sorriso que carregava uma promessa perigosa e sedutora.
A festa prosseguiu entre drinques e memórias evitadas. A atmosfera, no entanto, estava carregada de verdades não ditas. Ivan, que já havia bebido o suficiente para ignorar sua própria máscara de indiferença, aproximou-se de Till, encurralando-o perto da estante de discos.
— Você vai continuar fingindo que nada mudou, Till? — Ivan perguntou, a voz baixa e rouca. — Depois de quase morrermos naquele lugar, você ainda vai agir como se eu fosse só o cara que te irrita?
Till olhou para o copo, depois para os olhos pretos de Ivan. O estresse habitual parecia ter dado lugar a uma exaustão emocional.
— Eu não sei o que você quer que eu diga, Ivan — murmurou Till.
— Eu quero que você admita — Ivan deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Eu gosto de você, porra. E eu sei que você sentiu algo quando achou que eu ia morrer naquela clareira.
Till suspirou, um som que pareceu carregar o peso do mundo. Ele não disse "eu também". Ele não era de palavras doces. Em vez disso, ele deu um passo à frente e envolveu Ivan em um abraço apertado, enterrando o rosto no ombro do moreno. Ivan congelou por um segundo, surpreso pela rendição, antes de retribuir o abraço com uma força possessiva. Era um começo. Um começo torto e silencioso, mas era deles.
Perto da varanda, Luka observava Hyuna. Ela estava linda sob a luz da lua urbana, longe das árvores sombrias da fazenda.
— Hyuna — disse Luka, chamando a atenção dela —, eu nunca te contei, mas... eu sempre admirei o jeito que você encara o mundo. Naquela noite, se não fosse por você...
— Luka — ela o interrompeu, sorrindo de um jeito que não era apenas brincadeira dessa vez —, eu já sabia. Você é péssimo em esconder as coisas.
Luka corou, mas não recuou. Antes que ele pudesse gaguejar uma resposta, Hyuna segurou seu rosto com as duas mãos e o puxou para um beijo rápido e estalado, que logo se tornou mais profundo. Luka relaxou, finalmente deixando o papel de "irmão protetor" e "herdeiro nerd" de lado para apenas sentir o momento.
No centro da sala, Mizi observava os casais com um brilho divertido nos olhos. Ela se virou para o grupo, elevando um pouco a voz para que todos pudessem ouvir.
— É lindo ver que o amor floresce no trauma — disse ela, caminhando até Sua, que se levantara da poltrona. — Mas eu não sou muito de sutilezas. Luka, espero que não se importe, mas desde o momento em que vi a Sua no meio daquele inferno... desde que senti o cheiro dela naquela cabana... eu decidi que queria algo com ela.
O grupo ficou em choque, as conversas parando instantaneamente. Luka arregalou os olhos, Ivan e Till se separaram ligeiramente para olhar, e Hyuna soltou um assobio baixo.
— Mizi... — Luka começou, mas a irmã o calou com um gesto de mão.
Mizi parou na frente de Sua. A diferença de altura era pequena, mas a presença de Mizi era esmagadora. Sua estava hesitante, seus olhos roxos brilhando com uma mistura de medo e um desejo que ela vinha reprimindo desde que Mizi se jogara na frente da faca por ela.
— Você ainda está com medo, Sua? — perguntou Mizi, inclinando a cabeça, uma mecha de cabelo rosa caindo sobre o rosto.
Sua não respondeu com palavras. Em vez disso, ela fez algo que surpreendeu a todos, inclusive a Mizi. Ela deu um passo à frente e entrelaçou os braços ao redor do pescoço de Mizi, puxando-a para perto. O contato físico pareceu quebrar a última barreira de gelo de Sua.
Mizi não perdeu tempo. Suas mãos desceram com firmeza para a cintura de Sua, apertando-a contra seu corpo com uma posse absoluta.
— Finalmente — sussurrou Mizi contra os lábios de Sua.
Mizi a beijou. Não foi um beijo de conforto, nem um beijo de exploração cautelosa como o de Luka e Hyuna. Foi um ataque. Mizi invadiu a boca de Sua com uma fome voraz, sua língua encontrando a dela em um ritmo urgente e exigente. Sua soltou um suspiro abafado, entregando-se completamente ao domínio de Mizi, apertando os dedos nos cabelos coloridos da outra.
O beijo era carregado de tudo o que haviam passado: a violência, a sobrevivência e a estranha conexão de sangue que as unira naquela fazenda maldita. Mizi beijava como se estivesse devorando a alma de Sua, e Sua recebia cada movimento com uma intensidade que ninguém sabia que ela possuía.
Quando finalmente se separaram, ambas estavam ofegantes, os lábios vermelhos e inchados. Mizi sorriu, um brilho predatório e satisfeito em seus olhos dourados.
— Eu disse que queria você — afirmou Mizi, acariciando o rosto de Sua com o polegar.
Sua apenas encostou a testa na de Mizi, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios pela primeira vez em meses.
O grupo voltou a se acomodar, a tensão finalmente se dissipando para dar lugar a algo novo. Eles eram sobreviventes, sim. Eram marcados, sim. Mas naquela sala, cercados pelo luxo que o sangue do passado lhes comprara, eles estavam aprendendo que a vida, por mais violenta que fosse, sempre encontrava um jeito de reivindicar o prazer em meio às cinzas.
A noite estava longe de acabar, e para Mizi e Sua, era apenas o primeiro capítulo de uma história que prometia ser tão intensa quanto a noite em que se salvaram.