voce e meu
O Fruto do Silêncio e da Devoção
A luz da manhã em Mônaco tinha uma tonalidade específica, um dourado pálido que refletia nas águas do Mediterrâneo e entrava pelas enormes janelas de vidro da suíte principal, banhando o quarto em uma serenidade quase irreal. O silêncio era absoluto, interrompido apenas pelo som rítmico da respiração de Oscar.
Ele estava acordado há alguns minutos, apenas observando Lily. Para o mundo, Oscar Piastri era uma máquina de eficiência, um homem cujos olhos claros eram capazes de dissecar um balanço financeiro em segundos e cujas decisões moldavam indústrias. Mas ali, naquele santuário de lençóis de algodão egípcio, ele era apenas um homem profundamente grato.
Lily dormia com a cabeça aninhada em seu peito, um braço jogado suavemente sobre o abdômen dele. A pele dela parecia brilhar sob a claridade matinal. Oscar passou a ponta dos dedos pelos cabelos castanhos dela, tomando cuidado para não despertá-la. Ele se lembrou da noite anterior, e de todas as noites das últimas duas semanas. Havia uma intensidade nova entre eles, uma urgência carinhosa que parecia selar a promessa que haviam feito no terraço do restaurante.
Ele não sabia, e nem ela, mas naquela dança de afetos e entrega, a vida havia decidido florescer.
Oscar olhou para o relógio de pulso sobre a mesa de cabeceira. O dever o chamava. Uma fusão importante em Londres exigia sua atenção via videoconferência logo cedo, seguida por uma série de reuniões presenciais em seu escritório central. Com um suspiro contido, ele começou a se desvencilhar dela com a delicadeza de quem manipula um cristal raro.
Lily murmurou algo incompreensível e se mexeu, apoiando-se no travesseiro. Seus olhos se abriram devagar, mas não tinham o brilho habitual. Havia uma névoa de cansaço e algo mais que Oscar não conseguiu identificar de imediato.
— Bom dia, querida — sussurrou ele, inclinando-se para beijar a testa dela. — Sinto muito por ter que sair tão cedo.
— Bom dia... — a voz de Lily saiu fraca, quase um fio. Ela forçou um sorriso, mas sua mão apertou o lençol com força. — Tudo bem. O dever chama o grande CEO.
Oscar riu baixo, terminando de abotoar a camisa branca impecável.
— Eu preferiria mil vezes ficar aqui e ver você fotografar o nascer do sol da varanda. Você está bem? Parece um pouco pálida.
Lily sentiu uma onda súbita de náusea subir pela garganta. O cheiro do perfume de sândalo de Oscar, que ela normalmente adorava, pareceu subitamente intenso demais, quase sufocante. Ela engoliu em seco, lutando contra o mal-estar.
— Estou apenas com um pouco de sono, Oscar. A festa do Antonio me cansou mais do que eu pensava. Vá, não se atrase por minha causa.
Oscar franziu a testa, aproximando-se novamente da cama. Ele colocou a mão no rosto dela, verificando a temperatura.
— Não está com febre. Mas se sentir qualquer coisa, me ligue na mesma hora. Eu cancelo tudo.
— Não seja bobo, Oscar Jack Piastri — ela brincou, embora seu estômago estivesse dando voltas. — É apenas cansaço. Vá dominar o mundo. Eu vou ficar aqui mais um pouco com a Agatha.
Ele a beijou nos lábios — um beijo casto, mas carregado de promessa — e pegou seu paletó.
— Eu volto para o almoço se conseguir escapar. Eu te amo, Lily.
— Eu também te amo.
Assim que a porta da suíte se fechou e Lily ouviu o som distante do elevador privativo descendo, a máscara de tranquilidade caiu. Ela se sentou abruptamente, mas o movimento fez o quarto girar. A náusea, que vinha sendo uma companhia persistente e misteriosa nas últimas manhãs, atingiu-a como uma onda avassaladora.
— Oh, não... — sussurrou ela, cobrindo a boca com a mão.
Lily tentou levantar-se, mas suas pernas pareciam de gelatina. Ela conseguiu alcançar o botão do interfone interno, o que ligava diretamente à cozinha e aos aposentos da governanta.
— Agatha... por favor... — ela conseguiu dizer antes de desligar e correr, cambaleando, em direção ao banheiro de mármore.
Ela mal teve tempo de cair de joelhos diante do vaso sanitário antes que o seu corpo se revoltasse. Foi um acesso violento, doloroso, que a deixou trêmula e sem fôlego.
Segundos depois, passos rápidos ecoaram pelo quarto e a porta do banheiro foi aberta. Agatha, com seu avental impecável e uma expressão de preocupação maternal, correu para o lado de Lily, segurando seus cabelos e passando a mão em suas costas.
— Calma, minha querida. Respire. Eu estou aqui.
Lily teve outro espasmo, e depois outro, até que finalmente seu corpo relaxou, exausto. Agatha pegou uma toalha pequena, molhou-a com água morna e começou a limpar o rosto de Lily com uma delicadeza infinita.
— Beba um pouco de água, dona Lily. Bem devagar.
— Obrigada, Agatha — Lily murmurou, aceitando o copo com as mãos trêmulas. — Eu não sei o que está acontecendo comigo. Já faz quase uma semana que acordo assim, mas hoje... hoje foi muito pior.
Agatha ajudou-a a se levantar e a conduziu de volta para a cama, ajeitando os travesseiros para que ela ficasse reclinada. A governanta observou a palidez da patroa, o suor frio na testa e a maneira como Lily levava a mão ao ventre de forma inconsciente. Um brilho de compreensão surgiu nos olhos experientes da mulher mais velha.
— Há quanto tempo a senhora não se sente bem, querida? E não me diga que é apenas cansaço da festa.
Lily suspirou, fechando os olhos.
— Dez dias, talvez? No começo era apenas uma tontura leve. Achei que fosse a pressão, ou talvez algo que comi. Mas tem sido todas as manhãs, Agatha. E eu me sinto tão... sensível. Ontem chorei vendo um comercial de margarina.
Agatha sentou-se na beirada da cama, pegando as mãos de Lily.
— O senhor Oscar sabe disso?
— Não! — Lily abriu os olhos rapidamente, alarmada. — E, por favor, não conte a ele. Ele tem tantas responsabilidades, tantas pessoas dependendo dele... Eu não quero que ele fique preocupado no meio de uma fusão importante por causa de um mal-estar bobo. Ele já faz tanto por mim, Agatha. Ele me protege de tudo. Eu quero poder ser forte por ele também.
Agatha deu um sorriso triste e sábio.
— Minha querida, o senhor Oscar vive para cuidar da senhora. Ele não veria isso como um fardo. Mas... eu tenho uma suspeita. E se eu estiver certa, isso não é um "mal-estar bobo". É a melhor notícia que esta casa já recebeu.
Lily franziu a testa, confusa por um segundo, até que as palavras de Oscar no restaurante voltaram à sua mente: *"Eu quero um filho com você... eu quero construir uma família que tenha a sua luz."*
O coração de Lily deu um salto violento. Suas mãos subiram para o próprio ventre, e ela olhou para Agatha com os olhos arregalados.
— Agatha... você acha que...?
— Os sintomas são clássicos, dona Lily. O enjoo matinal, a sensibilidade, o cansaço. E a senhora está com um brilho diferente, mesmo estando pálida.
— Mas faz tão pouco tempo que decidimos tentar... — Lily sussurrou, a voz carregada de uma esperança temerosa.
— Às vezes a vida não espera por planejamentos milimétricos, querida. Às vezes ela simplesmente acontece quando o amor é grande demais para ficar guardado apenas em duas pessoas.
Lily sentiu uma lágrima solitária escorrer. A ideia de que um pequeno ser, fruto daquela lealdade inabalável que compartilhava com Oscar, pudesse estar crescendo dentro dela era quase demais para processar.
— Eu preciso ter certeza — disse Lily, tentando se levantar novamente. — Eu não posso contar nada a ele se for apenas um alarme falso. Eu não suportaria ver a decepção nos olhos dele se eu estiver errada.
— Eu vou providenciar tudo — disse Agatha firmemente. — Vou pedir a um dos motoristas que vá à farmácia agora mesmo. Ninguém saberá. Direi que são produtos de higiene pessoal para mim. E depois, se o resultado for o que eu penso, chamaremos o médico da família para os exames de sangue.
— Obrigada, Agatha. Eu não sei o que faria sem você.
— A senhora faria o que sempre faz: seria forte. Agora, tente descansar. Vou trazer um chá de gengibre, ajuda com o enjoo.
Enquanto Agatha saía do quarto, Lily ficou sozinha com seus pensamentos. Ela olhou para o lado da cama de Oscar, ainda desarrumado. Imaginou-o ali, recebendo a notícia. Oscar, o CEO implacável, provavelmente cairia de joelhos. Ele, que tinha tudo o que o dinheiro podia comprar, descobriria que o seu maior tesouro não vinha de um investimento, mas de um momento de entrega total.
Duas horas depois, o silêncio da suíte era quase ensurdecedor. Lily estava no banheiro, sentada na beirada da banheira de hidromassagem, os olhos fixos no pequeno objeto de plástico sobre a bancada de mármore.
O tempo parecia ter parado. Cada segundo era uma eternidade.
Quando o cronômetro do seu celular finalmente apitou, Lily sentiu que não conseguia respirar. Ela se aproximou do teste com as mãos trêmulas.
Duas linhas. Fortes. Inquestionáveis.
Lily soltou um soluço que era metade riso, metade choro. Ela caiu de joelhos no chão frio, abraçando a si mesma.
— Oh, meu Deus... Oscar... — ela sussurrou para o vazio do banheiro luxuoso.
Ela era Lily Zneimer Piastri. A mulher que a família dizia que terminaria sozinha. A mulher que muitos consideravam apenas um acessório na vida de um bilionário. E agora, ela carregava o herdeiro de um império, mas, acima de tudo, o fruto de um amor que a resgatara das sombras.
Ela passou o restante da manhã em um estado de transe feliz. O enjoo parecia ter diminuído, substituído por uma adrenalina doce. Agatha voltou ao quarto e, ao ver o rosto de Lily, não precisou de palavras. As duas se abraçaram em um silêncio cúmplice.
— O que eu faço agora, Agatha? Como eu conto para ele?
— Do jeito que a senhora achar melhor, querida. Mas conhecendo o senhor Oscar, qualquer forma será perfeita, desde que venha da senhora.
Lily passou a tarde planejando. Ela queria que fosse especial, mas também queria que fosse íntimo. Ela pegou sua câmera e saiu para o jardim da mansão. Tirou fotos dos sapatos de Oscar na entrada, da vista do mar, e depois, posicionou a câmera no temporizador e tirou uma foto de si mesma, com a mão sobre o ventre e um sorriso que irradiava uma paz absoluta.
Ela imprimiu a foto na pequena impressora de alta qualidade que mantinha em seu escritório e a colocou dentro de um envelope de seda, junto com o teste de gravidez.
Por volta das seis da tarde, o som do carro de Oscar ecoou no pátio. Lily sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela se olhou no espelho, retocando levemente o batom, tentando esconder o fato de que passara a manhã passando mal.
Oscar entrou na suíte parecendo exausto. Ele havia afrouxado a gravata e desabotoado os primeiros botões da camisa. Mas, no momento em que viu Lily, seu cansaço pareceu evaporar.
— Oi, querida — disse ele, caminhando até ela e envolvendo-a em um abraço apertado. — Como você está? O mal-estar passou? Passei o dia pensando em você. Quase abandonei a reunião de Londres três vezes.
Lily riu, escondendo o rosto no pescoço dele, aspirando aquele perfume que agora, curiosamente, não a incomodava mais.
— Estou muito melhor, Oscar. Agatha cuidou bem de mim.
— Que bom — ele suspirou, relaxando o peso do corpo. — O dia foi produtivo, mas tudo o que eu queria era voltar para cá. Para você.
Ele se afastou um pouco, olhando-a nos olhos. Sua expressão mudou. Oscar era um homem treinado para ler pessoas, e ele percebeu algo diferente em Lily. Havia uma vibração nela, uma luz que parecia emanar de dentro.
— Lily? O que foi? Você está com uma cara... estranha. Aconteceu alguma coisa?
— Aconteceu — ela disse, a voz falhando levemente. — Eu tenho um presente para você. Um presente que não pude esperar até o jantar para entregar.
Ela caminhou até a mesa de cabeceira e pegou o envelope de seda. Suas mãos ainda tremiam um pouco.
— Oscar, você me disse que eu era o seu maior império. E que queria construir algo comigo que o dinheiro não pudesse comprar.
Oscar pegou o envelope, sua expressão tornando-se séria e atenta. Ele olhou para Lily, depois para o envelope, e começou a abri-lo com cuidado deliberado.
Primeiro, ele viu a foto. Lily no jardim, a luz do sol a envolvendo, a mão protegendo o ventre. Ele franziu a testa por um segundo, processando a imagem, e então seus olhos caíram sobre o teste de plástico logo abaixo.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Oscar Piastri, o homem que nunca perdia a compostura, o CEO que tinha resposta para tudo, ficou completamente estático. Ele olhava para o teste, para as duas linhas rosas, como se estivesse tentando decifrar um código complexo.
— Lily... — a voz dele saiu rouca, quase um sussurro quebrado.
Ele levantou os olhos para ela. Havia uma umidade brilhando naquelas íris claras que Lily nunca tinha visto antes. Oscar largou o envelope sobre a cama e deu um passo em direção a ela, suas mãos subindo para tocar o rosto de Lily com uma reverência quase religiosa.
— É verdade? — perguntou ele, a voz falhando. — Nós... você está...?
— Sim, Oscar — Lily respondeu, as lágrimas começando a cair livremente agora. — Nós vamos ter um bebê. Eu estou grávida.
Oscar não disse nada. Ele simplesmente a puxou para si, escondendo o rosto em seu pescoço, e Lily sentiu os ombros dele tremerem. Pela primeira vez, o grande bilionário estava chorando. Eram lágrimas de um alívio e de uma alegria tão profundos que transcendiam qualquer fortuna que ele possuísse.
Ele se afastou apenas o suficiente para olhar para o ventre dela, ainda perfeitamente plano sob o vestido de seda. Ele se ajoelhou no tapete felpudo, ficando na altura da barriga dela, e encostou a testa ali, fechando os olhos.
— Oi, pequeno — sussurrou ele, a voz embargada. — Eu nem te conheço ainda, mas prometo que você terá o mundo inteiro. E você terá a mãe mais incrível que já existiu.
Lily acariciou os cabelos de Oscar, sentindo uma plenitude que nunca imaginou ser possível.
— Você vai ser um pai maravilhoso, Oscar.
Ele se levantou, limpando o rosto com as costas da mão, mas sem conseguir parar de sorrir. Era um sorriso radiante, jovem, desprovido de qualquer preocupação empresarial.
— Eu vou cuidar de vocês dois com a minha vida, Lily. Nada nem ninguém vai chegar perto de vocês. Eu vou contratar os melhores médicos, vou reorganizar minha agenda, eu...
— Oscar, calma — ela riu, puxando-o para um beijo. — Nós temos tempo. Oito meses, pelo menos.
— Não importa — ele disse, segurando-a pela cintura e girando-a levemente no ar. — Eu sou o homem mais rico do mundo, Lily. Não pelas empresas, não pelos carros... mas porque você me deu isso. Você me deu uma família.
Naquela noite, a mansão em Mônaco não era apenas um monumento ao luxo. Era um lar preenchido por uma promessa. Oscar não saiu do lado de Lily nem por um segundo. Ele insistiu em trazer o jantar para o quarto, em cobri-la com mantas, em fazer mil perguntas sobre como ela estava se sentindo.
E enquanto a lua subia sobre o Mediterrâneo, iluminando o quarto onde o futuro império Piastri começava a se formar, Lily adormeceu nos braços de seu marido, sabendo que a náusea da manhã e as críticas da família eram apenas sombras pequenas diante do sol que acabara de nascer em suas vidas.
Para o mundo, Oscar Piastri continuaria sendo o CEO bilionário. Mas para o pequeno ser que agora crescia sob o coração de Lily, ele seria simplesmente o pai. E para Lily, ele continuaria sendo o homem que provou que ela era, e sempre seria, suficiente.