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Ressonância Amarga

O barulho matinal dos corredores da Pine Academy parecia amplificado por dez naquela quarta-feira cinzenta. O chão de linóleo ainda brilhava com a cera recém-passada, e o vapor da respiração dos alunos que entravam pelo saguão denunciava o vento gelado do lado de fora.

Perto da fileira de armários do bloco C, o grupo de cinco estava reunido, mas a atmosfera habitual de zoeira simplesmente não existia.

Ivan estava encostado na porta de metal com as mãos enfiadas nos bolsos da calça preta. Pela primeira vez em semanas, ele não tinha um pirulito na boca, nem estava implicando com o corte de cabelo de Till. Seus olhos escuros, geralmente cheios de um deboche calculado, desviavam com frequência para a garota encolhida ao seu lado. Ele não tinha dito uma palavra sobre a noite anterior. Não comentara nada sobre a porta entreaberta, o choro sufocado ou os desenhos frenéticos de Mizi espalhados pelo quarto dela. Mas Ivan sabia. E aquilo pesava em seus ombros como uma âncora.

Ao lado dele, Sua parecia um fantasma. Seus cabelos pretos retos caíam como uma cortina ao redor do rosto excessivamente pálido. Os olhos roxos, habitualmente frios e melancólicos, estavam pesados, com olheiras sutis que ela tentara em vão disfarçar com água fria antes de sair de casa. Ela mantinha os dedos finos cravados na alça da mochila, os nós dos dedos quase sem circulação.

— Você tá muito quieta hoje — comentou Till, a voz rouca cortando o silêncio desconfortável. Ele estava com a jaqueta jeans jogada sobre os ombros e a gola da camisa social meio amassada. — Mais do que o normal. Tá passando mal?

— Tô bem — Sua respondeu em um fiapo de voz, sem erguer os olhos do chão.

Hyuna, que estava encostada no armário ao lado, cruzou os braços e lançou um olhar pontiagudo para Ivan, como se cobrasse uma postura que nem ela mesma sabia qual deveria ser. Luka apenas ajeitou os óculos na ponte do nariz, sentindo a tensão palpável entre os irmãos, mas preferindo não se meter.

Foi quando um escândalo no início do corredor chamou a atenção de metade dos alunos que passavam.

— AI! Puta que pariu, Nuxy, me solta! Caralho, você tá arrancando a porra da minha cartilagem!

A voz esganiçada e furiosa de Mizi ecoou pelo espaço, acompanhada pelo barulho de passos descompassados e solas de tênis derrapando no chão.

Quem olhasse para a cena não conseguia decidir se ria ou se saía da frente. Nuxy, que tinha descoberto logo cedo a barbaridade que Mizi fizera na véspera com Sua, estava com os dentes cerrados, marchando decidida pelo corredor enquanto segurava firmemente a orelha esquerda de Mizi.

Mizi, muito mais alta que a amiga, vinha sendo arrastada em uma postura ridícula: inclinada de lado, tropeçando nas próprias pernas compridas, com o rabo de cavalo rosa e azul caindo sobre os olhos e as duas mãos tentando, sem sucesso, descolar os dedos de ferro de Nuxy de sua cabeça.

— Você vai pedir desculpas nem que eu tenha que te quebrar no meio, sua desmiolada! — esbravejava Nuxy, com o blazer preto balançando enquanto ela puxava a garota sem o menor pingo de piedade. — Eu passei vergonha com o irmão dela, a gente pediu desculpa, e no dia seguinte você vai lá e esbarra na garota e ainda xinga ela?! Você não tem educação não, porra?!

— Me larga, caralho! Eu não vou pedir porra nenhuma! — berrava Mizi de volta, a cara vermelha de dor e indignação pura. — Ela que entrou na minha frente! Diana, manda essa maluca me soltar!

Atrás das duas vinham Diana e Anne. Diana tentava manter uma postura impassível, mas cobria a boca para não gargalhar alto da cena bizarra, enquanto Anne caminhava com os olhos arregalados de puro constrangimento, olhando para os lados e querendo se enfiar no primeiro bueiro que encontrasse.

Nuxy não parou até chegar exatamente na frente do grupo dos cinco. Com um empurrão final, ela forçou a cabeça de Mizi para baixo na direção de Sua, quase fazendo a mais alta bater de queixo no armário.

— Pede desculpa agora, Mizi! — ordenou Nuxy, bufando de ódio e apontando o dedo indicador para a cara dela. — Fala: "Desculpa, Sua, eu sou uma jumenta sem cérebro que não sabe andar sem trombar nos outros"! Fala!

— Vai pro inferno, Nuxy! Me solta dessa porra!

O espetáculo era quase cômico, do tipo que normalmente arrancaria risadas de Till ou faria Ivan soltar algum comentário debochado. Mas o ambiente não permitia.

Sua não riu. Pelo contrário. Ela parecia estar vivendo seu pior pesadelo. Ao ver Mizi sendo forçada daquela forma a interagir com ela, o peito de Sua afundou. A humilhação a queimava de dentro para fora. Ela não queria um pedido de desculpas forçado, não queria aquela palhaçada barulhenta que só deixava ainda mais evidente o quanto Mizi a detestava.

— CHEGA DESSA MERDA!

Com um movimento brusco e violento, Mizi usou os dois antebraços para bater nas mãos de Nuxy, livrando a orelha avermelhada com um estalo seco. Ela respirava fundo, o peito subindo e descendo com raiva, o cabelo cobrindo metade do rosto em desalinho total.

A paciência de Mizi tinha se esgotado completamente. Ela estava farta daquela cobrança, farta de se sentir culpada, farta de ser pintada como a vilã do colégio por causa de uma garota que ela sequer conhecia. Ela cerrou os punhos compridos ao lado do corpo, ajeitou a coluna e virou o rosto na direção de Sua, pronta para disparar o veneno definitivo. Queria acabar com aquilo ali mesmo. Queria humilhar, gritar, falar na cara daquela sonsa de uma vez por todas para que ela sumisse da sua frente para o resto da vida e parasse de assombrar seus pensamentos.

— Olha aqui, ô sua—

As palavras travaram na garganta de Mizi como vidro moído.

O ar simplesmente sumiu de seus pulmões.

Pela primeira vez, a expressão azeda e sarcástica de Mizi não se formou. Não houve canto de boca retorcido, não houve sobrancelha arqueada em nojo. Seus olhos dourados apenas arregalaram, paralisados na figura à sua frente.

Ao redor, Diana, Anne e Nuxy congelaram, trocando olhares de espanto. Até mesmo Ivan e Till deram meio passo para trás, chocados com a repentina mudança no ar. Mizi parecia ter levado um golpe físico no peito.

Sua estava com a cabeça completamente baixa. A franja fina e as mechas pretas curtas cobriam a maior parte do seu rosto, mas a postura da garota era devastadora. Ela estava prendendo a respiração, os lábios pálidos tão pressionados um contra o outro que haviam perdido a cor, lutando desesperadamente para que nenhum som escapasse. Seus ombros estreitos tremiam em espasmos miúdos e quase invisíveis, mas as mãos, cravadas no tecido da saia preta, não conseguiam disfarçar o pânico de estar sendo exposta.

Ela estava fazendo de tudo para não chorar na frente de todo mundo.

Mas o esforço foi inútil.

Mizi viu.

Entre as mechas pretas de cabelo, uma gota cristalina e pesada escorreu pela bochecha de Sua, hesitou na ponta do queixo fino e caiu. A lágrima atingiu o chão de linóleo com um impacto silencioso, quebrando-se bem diante da ponta dos sapatos pretos de Mizi.

Aquilo foi a gota d'água.

Um frio violento percorreu a espinha de Mizi, estilhaçando qualquer barreira de orgulho, birra ou ranço injustificado que ela vinha construindo há meses. Ver aquela lágrima cair foi como levar um soco no estômago.

Num impulso cego, antes que qualquer pessoa pudesse intervir, Mizi deu um passo à frente.

Ela esticou o braço comprido e fechou a mão destra no maxilar de Sua.

Não foi um toque delicado ou romântico; foi um aperto firme, um pouco desajeitado e abrupto, os dedos compridos segurando a pele fria com força o suficiente para forçar o rosto de Sua para cima.

— Desculpa — soltou Mizi, a voz saindo rápida, quase como um reflexo desesperado para estancar um sangramento.

Mas assim que os olhos dourados de Mizi finalmente encontraram a face de Sua por inteiro, o chão sob os pés da garota de cabelo rosa pareceu desaparecer.

Sua não estava apenas marejada. Ela estava em pedaços. Os olhos roxos, profundos e escuros, estavam afogados em lágrimas que transbordavam silenciosamente, manchando a pele branca como porcelana trincada. A dor no olhar de Sua era tão crua, tão desprovida de qualquer raiva ou defesa, que parecia um abismo. Ela olhava para Mizi como quem aceitava a própria ruína.

Mizi sentiu o estômago despencar até o inferno.

*Puta que pariu...* O pensamento ecoou em sua mente, pesado e sufocante. *Eu sou um monstro. O capeta em pessoa.*

A culpa bateu nela com a força de um caminhão desgovernado. A frieza habitual de Mizi desmoronou em mil pedaços sob o calor daquelas lágrimas que escorriam entre seus próprios dedos. Ela não sabia o que fazer, não sabia o que falar, mas precisava consertar aquilo. Precisava limpar aquela expressão do rosto de Sua antes que enlouquecesse de vez.

Mizi abriu a boca, o peito apertado, buscando desesperadamente palavras que soassem humanas:

— E-eu... Sua, eu não—

— Mizi?

Uma voz suave, doce e estranhamente melodiosa cortou o ar do corredor.

Mizi parou.

O som daquela voz bateu nela como uma rajada de água congelada. As palavras morreram em sua língua instantaneamente. Seus músculos travaram de uma forma tão violenta que os dedos ao redor do maxilar de Sua perderam a força, caindo inertes ao lado do próprio corpo.

A cor fugiu do rosto de Mizi num piscar de olhos. Ela não apenas empalideceu; ela ficou cadavérica.

Diana, que conhecia Mizi há anos e sempre a vira peitar qualquer um com sarcasmo e arrogância, franziu o cenho ao notar a postura da amiga. Nem Anne, nem Nuxy jamais tinham visto aquela expressão em Mizi. Era pânico puro. Terror primal.

Lentamente, como se temesse que o menor movimento pudesse quebrar o próprio pescoço, Mizi virou o rosto na direção da voz.

Parada a poucos metros de distância, no centro do corredor, estava uma garota que ninguém ali reconheceu.

Ela era baixa, de pele alva e feições tão simétricas que pareciam esculpidas. Tinha cabelos loiros brilhantes caindo em ondas perfeitas sobre os ombros e olhos azuis cristalinos, de um tom gélido e hipnótico. Ela usava o uniforme padrão da Pine Academy perfeitamente alinhado, segurando uma pasta escolar contra o peito com a graça calculada de uma boneca de porcelana.

Roxanne.

A loira inclinou a cabeça ligeiramente para o lado, um sorriso doce, quase infantil, desenhando-se em seus lábios avermelhados. Mas o tom com que ela pronunciara o nome de Mizi carregava algo subterrâneo, uma doçura ácida e possessiva que fez o estômago de Mizi revirar em pura náusea.

— É você mesma — disse Roxanne, dando dois passos delicados na direção delas. — Que surpresa maravilhosa te encontrar aqui.

O corredor parecia ter entrado em vácuo.

Till olhou de Roxanne para Mizi, confuso com a atmosfera pesada que tinha se instalado de repente. Luka ajustou os óculos, observando a linguagem corporal de Mizi com atenção clínica. Hyuna franziu os olhos azuis, instintivamente dando um passo protetor para mais perto de Sua, que ainda secava o rosto às pressas com as costas da manga da camisa, atordoada pela mudança repentina de foco.

Mizi engoliu em seco. O som da própria saliva descendo pela garganta seca parecia ensurdecedor.

Ela não olhou para Nuxy. Não olhou para Diana, nem para Ivan, e muito menos teve coragem de voltar a encarar Sua. Seu cérebro estava em pane total, emitindo um único e urgente sinal de fuga.

Sem dizer uma única sílaba, Mizi deu meia-volta bruscamente, empurrou a alça da própria mochila para cima e começou a andar a passos rápidos e largos em direção à saída de emergência do bloco de música, no fim do corredor.

— Ei, Mizi! Aonde você vai?! — gritou Nuxy, confusa com a debandada repentina.

Roxanne apenas riu baixo, um som cristalino que parecia um sino distante.

— Não se preocupem, gente — disse a loira para as amigas de Mizi, com uma simpatia impecável e um sorriso reluzente. — Eu sou novata aqui, me transferi hoje. A gente se conhece de muito tempo. Eu cuido dela.

Com passos tranquilos, Roxanne virou-se e foi atrás de Mizi, sumindo pela mesma porta corta-fogo.

No corredor, Diana olhou para Anne com os olhos semicerrados em desconfiança total.

— Que porra acabou de acontecer aqui? — soltou Diana, ajeitando as mechas verde-azuladas com irritação. — A Mizi parecia que tinha visto um demônio.

Sua continuava parada, a mão trêmula ainda tocando o próprio maxilar no ponto exato onde a pressão firme dos dedos compridos de Mizi havia deixado um calor residual. Ela olhava para a porta por onde as duas tinham sumido, o choro finalmente contido pelo choque da cena, mas o peito ainda mais apertado e confuso do que antes.

***

A escadaria de serviço dos fundos do prédio de música estava quase sempre vazia àquela hora da manhã. O cheiro de concreto úmido e ferro enferrujado dominava o espaço mal iluminado pelas lâmpadas fluorescentes que zumbiam no teto.

Mizi desceu os degraus aos tropeços, parando no patamar intermediário entre o primeiro andar e o subsolo. Ela apoiou as duas mãos na parede fria, abaixando a cabeça e tentando puxar o ar que insistia em faltar em seus pulmões. Suas mãos tremiam incontrolavelmente.

*Não pode ser. Não pode ser ela. Aqui não.*

O som metálico da porta de incêndio se abrindo no topo da escada ecoou alto, seguido pelo estalo cadenciado e calmo de sapatos femininos descendo os degraus de concreto.

Mizi fechou os olhos com força, os dentes cravados no lábio inferior até sentir o gosto ferroso de sangue.

— Fugindo de mim, Mizi? — a voz desceu a escada, mansa, suave, carregada daquela familiaridade doentia que fazia os pelos dos braços de Mizi se arrepiearem. — Pensei que você fosse ficar mais feliz em me ver. Afinal, a gente não se via desde o verão passado.

Mizi empurrou a parede e se virou devagar, encostando as costas nas grades do corrimão.

Roxanne parou a três degraus de distância, de pé em uma posição ligeiramente mais alta. Ela mantinha as mãos cruzadas atrás das costas, o uniforme impecável e aquele maldito sorriso angelical nos lábios que costumava enganar qualquer um que não a conhecesse por baixo da casca.

Ninguém na Pine Academy sabia. Nem Diana, nem Nuxy, nem Anne. Ninguém sabia que Mizi gostava de garotas, e muito menos sabiam que ela tinha passado um ano e meio presa num inferno particular com aquela garota à sua frente. Roxanne fora sua primeira namorada, seu primeiro amor e a maior desgraça psicológica que já cruzara seu caminho: um ciclo infindável de chantagens emocionais, humilhações privadas disfarçadas de cuidado e um controle sufocante que quase destruíra Mizi por dentro antes de ela conseguir cortar os laços e se mudar de bairro.

— O que você tá fazendo aqui, Roxanne? — a voz de Mizi saiu mais áspera do que ela pretendia, mas a falha no tom denunciou o tremor em sua garganta. — O que você quer?

— Meus pais mudaram de cidade de novo — respondeu Roxanne com naturalidade, descendo mais um degrau e reduzindo o espaço entre elas. Seus olhos azuis examinaram Mizi de cima a baixo, notando cada detalhe: a gravata solta, a gola aberta, o rabo de cavalo torto. — Quando soube que você estudava aqui, fiz questão de pedir transferência pra Pine. Você não imagina a saudade que eu senti de você.

— Eu não sinto porra nenhuma de você — cuspiu Mizi, tentando desesperadamente recuperar sua casca de ferro, mas recuando meio passo contra o corrimão. — Vai embora. Fica longe de mim. A gente terminou. Acabou tudo lá atrás, você lembra muito bem.

Roxanne soltou uma risadinha abafada, balançando a cabeça loira em uma falsa reprovação maternal.

— Você continua tão rebelde... tão esquentadinha — Roxanne deu o último passo, parando a menos de meio metro de Mizi. O cheiro adocicado e enjoativo do perfume dela invadiu o ar, fazendo o estômago de Mizi embrulhar. Roxanne esticou a mão delicada, as unhas bem feitas roçando levemente na gola desalinhada da camisa branca de Mizi. — E pelo visto continua sem contar pras suas amiguinhas quem você é de verdade, né? Nenhuma delas sabe sobre a gente? Nem sobre você gostar de beijar meninas?

Mizi deu um tapa seco na mão de Roxanne, afastando o toque como se tivesse sido queimada por brasa viva.

— Tira a mão de mim, caralho! Não encosta em mim!

Roxanne recolheu a mão sem se abalar, os olhos azuis faiscando com aquele brilho perverso e manipulador que Mizi conhecia bem demais.

— Cuidado com a grosseria, meu amor — murmurou a loira, a voz baixando para um sussurro aveludado e perigoso. — Eu vi você lá no corredor. Segurando o rostinho daquela garota de cabelo preto. Quem era ela, hm? Sua nova obsessão?

O ar pareceu congelar nos pulmões de Mizi. A menção a Sua fez seu coração disparar de um jeito completamente diferente, uma pontada aguda de pânico e impotência atravessando seu peito.

— Ela não tem nada a ver com isso — rebateu Mizi entre dentes, a respiração pesada. — Não se mete nisso.

— Não precisa ficar tão na defensiva — Roxanne sorriu, ajeitando uma mecha loira atrás da orelha com uma tranquilidade assustadora. — Eu acabei de chegar. Temos o ano inteiro pela frente pra conversar sobre o nosso passado... e sobre o quanto você me deve, Mizi. Você sabe que a gente não terminou de verdade. Você só fugiu.

O primeiro sinal estridente da manhã soou pelo sistema de som da escola, reverberando pelas paredes de concreto da escadaria e quebrando a bolha claustrofóbica entre as duas.

Roxanne deu um passo para trás, piscando os olhos azuis com inocência refinada.

— Melhor irmos pra aula. Eu caí na mesma turma que você, sabia? — Roxanne deu uma piscadela charmosa, virando-se nos calcanhares e começando a subir os degraus com passos leves. Antes de alcançar a porta, ela parou e olhou por cima do ombro. — Foi muito bom te reencontrar, Mizi. De verdade.

A porta de metal fechou-se com um baque pesado, deixando Mizi sozinha no patamar cinzento.

Ela escorregou pelas grades do corrimão até o chão, caindo sentada nos degraus frios. Suas pernas não aguentavam mais o próprio peso. Mizi enterrou o rosto nas mãos trêmulas, puxando os fios rosa e azuis com força, sentindo o mundo ao seu redor girar em um turbilhão caótico.

A lembrança do rosto de Sua, desfeito em lágrimas silenciosas e feridas que ela mesma causara, misturava-se ao sorriso venenoso de Roxanne em sua mente, deixando-a sem ar, sem chão e, pela primeira vez em toda a sua vida, completamente aterrorizada.

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