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Fantasmas, Máscaras e Vidro Quebrado

A porta corta-fogo estalou no topo da escadaria de concreto.

Mizi continuava sentada no degrau frio, com os dedos enfiados nos cabelos rosa e azuis, tentando sufocar as batidas descompassadas do próprio coração. O ar parecia ter virado cimento em seus pulmões.

— Anda, Mizi. Levanta logo daí.

A voz de Roxanne veio do vão da porta aberta. Não havia agressividade aparente no tom; era uma ordem mansa, doce, daquele tipo que vinha embrulhada em papel de presente, mas que carregava o peso de uma corrente de ferro. A loira mantinha a porta entreaberta com a ponta do sapato engraxado, esperando.

Mizi fechou os olhos por um segundo. A mandíbula trincou tão forte que a têmpora latejou. Ela conhecia aquele tom. Sabia exatamente o que acontecia se teimasse, sabia o inferno que Roxanne era capaz de criar com apenas meia dúzia de sussurros envenenados no lugar certo.

Sem dizer uma única palavra, Mizi levantou-se devagar. Bateu a poeira da saia preta com a mão trêmula, ajeitou a gola da camisa de qualquer jeito e subiu os degraus, engolindo o orgulho como se engolisse pregos.

No corredor principal do bloco C, a confusão ainda estava armada. Diana, Anne e Nuxy tinham se juntado aos cinco veteranos perto dos armários verdes, tentando decifrar o mistério.

— Eu nunca vi aquela menina na vida — dizia Hyuna, os braços cruzados sobre o peito e a testa franzida. — E olha que eu conheço quase todo mundo do terceiro ano.

— Ela é transferida, porra — retrucou Diana, ajeitando as mechas verde-azuladas com evidente impaciência. — Mas o que me deixou encanada foi a cara da Mizi. Aquela garota não tem medo nem da diretora. Ela ficou parecendo um defunto.

— Vai ver era dívida de jogo — soltou Ivan com o deboche de sempre, embora mantivesse os olhos atentos no corredor e uma postura estranhamente alerta ao lado da irmã.

— Cala a boca, Ivan, ninguém aposta nessa porra de escola não — resmungou Till, chutando a base de um armário, com a mente um turbilhão. A lembrança das lágrimas de Sua e a reação bizarra de Mizi tinham deixado seu estômago em nós.

Sua permanecia calada, encostada na parede fria. A ponta dos dedos ainda formigava no lugar exato onde Mizi a havia segurado minutos atrás.

— Olha lá — murmurou Anne, apontando com o queixo.

O corredor pareceu silenciar. Mizi vinha caminhando com passos pesados, a cabeça ligeiramente baixa e uma expressão tão vazia e lívida que parecia dopada. Ao lado dela, caminhando quase colada em seu ombro, vinha Roxanne. A novata exibia um sorriso angelical, radiante, segurando a pasta escolar junto ao corpo como a personificação da aluna perfeita.

— Oi, gente! — cumprimentou Roxanne assim que pararam diante do grupo, a voz cristalina transbordando uma simpatia imaculada. Ela olhou para Nuxy, inclinando a cabeça. — Menina, você que tava puxando a Mizi pela orelha mais cedo, né? O que é que tava rolando antes de eu chegar? Fiquei curiosa.

Nuxy, que nunca conseguia segurar a língua dentro da boca, abriu os braços indignada.

— Ela foi uma grossa sem tamanho com a Sua ontem! Trombaram no corredor e a Mizi xingou a menina de graça, aí hoje eu trouxe essa jumenta pelo rabo pra aprender a ter modos e pedir desculpa!

Roxanne arregalou os olhos azuis em uma encenação perfeita de choque e pesar. Levou a mão delicada aos lábios e virou-se para Mizi, fazendo um biquinho de falsa reprovação.

— Poxa, Mizi... Que coisa feia. Você continua com essa mania boba de descontar o mau humor nos outros? — Roxanne deu uma risadinha suave, tocando de leve no antebraço de Mizi. O toque fez o corpo inteiro da mais alta enrijecer como pedra. — Tem que pedir desculpas direito. Não custa nada ser educada, meu amor.

Mizi engoliu em seco. O olhar dourado dela nem sequer conseguia fitar Roxanne de volta; fixava-se no chão.

— Eu já pedi desculpa — murmurou Mizi, com a voz tão baixa e sem vida que parecia outra pessoa falando.

— Pediu nada, você mal abriu a boca antes de eu te chamar — retrucou Roxanne, com uma doçura aveludada e asfixiante, dando um leve empurrãozinho nas costas de Mizi. — Vai lá. Pede desculpas direito pra garota. Como você realmente devia ter pedido.

O silêncio no corredor tornou-se sepulcral.

Till piscou, chocado. Ivan cerrou os olhos escuros, farejando algo terrivelmente errado naquela dinâmica. Diana travou a mandíbula, achando aquela submissão um absurdo sem tamanho.

Mizi deu dois passos arrastados para a frente. Parou diante de Sua.

A garota de cabelos pretos curtos ergueu os olhos roxos, ainda úmidos e vermelhos pelo choro recente. O coração de Sua batia na garganta.

Mizi respirou fundo, os punhos fechados com tanta força ao lado do quadril que os nós dos dedos estavam brancos.

— Desculpa, Sua — disse Mizi, a voz rouca, sem o menor traço daquele veneno ácido habitual. — Eu fui uma idiota ontem. Não tinha nada que ter descontado a minha irritação em você só porque a gente esbarrou. Você não teve culpa de nada, eu que fui estúpida e sem paciência. Me perdoa de verdade.

As palavras caíram pesadas no chão. Não soavam sarcásticas. Não soavam como a Mizi debochada de sempre. Soavam vazias, cruas, arrancadas à força de um peito esmagado.

Sua ficou paralisada, presa em um transe de pura confusão. Ela esperava insultos, esperava desprezo, esperava qualquer coisa, menos uma rendição tão humilhante e formal.

— E-eu... — Sua hesitou, a voz falhando antes de conseguir assentir de leve com a cabeça. — Tá... tá tudo bem. Eu desculpo.

Mizi soltou o ar devagar, sem erguer os olhos para sustentar a troca.

Diana, que assistia àquilo sem acreditar em um único segundo do espetáculo, soltou uma risada nasalada e cética, cruzando os braços e encarando Roxanne.

— Caralho... Que mágica você fez, garota? — perguntou Diana, meio em tom de piada, meio em desafio. — A Mizi não abaixa a cabeça nem se o papa mandar. De onde caralhos você conhece ela pra fazer ela virar um cachorrinho adestrado desse jeito?

Roxanne abriu um sorriso triunfante, daqueles que brilhavam com a satisfação doentia de quem joga uma granada em uma sala cheia só para ver os estilhaços voarem.

— Ah, é que eu sou a ex dela — soltou a loira, com uma naturalidade desconcertante. — Namoramos quase dois anos na nossa antiga escola.

A bomba explodiu com estalo seco no ar.

Till arregalou os olhos verdes, a boca entreaberta em choque puro. As engrenagens na cabeça do garoto rodavam em pane total: Mizi... gostava de garotas? A garota inalcançável por quem ele suspirava era lésbica? E namorava aquela criatura?

Luka franziu o cenho por trás dos óculos, surpreso. Hyuna arregalou os olhos azuis e deu uma olhada rápida e instintiva para Sua.

Sua, por sua vez, sentiu o chão sumir de vez sob seus pés. Se antes ela estava em um buraco de tristeza e rejeição, agora parecia ter despencado em uma cratera abissal. Mizi gostava de mulheres. Mizi tinha uma ex. Mas, acima de tudo, o fato de Mizi ser gay não mudava a única certeza dolorosa que Sua carregava no peito: Mizi não a suportava. O ranço não era por Sua ser mulher; era por ser quem ela era.

Nuxy e Anne engasgaram com a própria saliva ao mesmo tempo, encarando Mizi como se ela tivesse criado duas cabeças. Mizi nunca, em momento algum, tinha comentado que se relacionava com garotas.

A humilhação ardeu na nuca de Mizi como óleo fervente. Ela sentiu os olhares de todos os lados a despindo, quebrando o segredo que ela passara o último ano inteiro enterrando a sete chaves.

— Precisava disso, Roxy? — soltou Mizi, a voz falhando em um tom miserável de súplica e exaustão.

Roxanne se virou para ela num instante, e por um breve milésimo de segundo a máscara de anjo vacilou, revelando olhos tão frios quanto gelo ártico.

— "Roxy" não — corrigiu a loira, a voz doce voltando como um disfarce mal costurado enquanto ela enlaçava o braço ao redor do cotovelo de Mizi com uma firmeza doentia, puxando-a para andar. — A gente vai ter que treinar isso aí, linda. Você pode me chamar de "meu bem", "princesa", "amor"... Menos Roxy. Vamos pra aula, anda.

Mizi não reagiu. Apenas deixou-se ser arrastada pelo corredor em direção à sala, os ombros caídos, parecendo uma casca oca.

Para trás, os dois grupos ficaram estáticos.

— Mas que porra acabou de acontecer aqui? — soltou Till, passando a mão pelos cabelos cinzas e olhando para Ivan, que continuava em silêncio absoluto, a expressão fechada e perigosa.

Sua baixou o rosto, os cabelos pretos escondendo o nó que voltava a sufocar sua garganta, sem entender em qual pesadelo tinha acabado de se meter.

***

A noite na casa de Mizi foi um borrão de desespero.

Ela andava de um lado para o outro no carpete do quarto, com o celular prensado contra o ouvido, puxando as pontas azuis do cabelo com força. A voz dela saía entrecortada, sufocada por uma ansiedade que beirava o pânico.

— Eu não posso passar por isso de novo, Diana — disse Mizi, a voz embargada enquanto tentava respirar. — Você não sabe como foi lá atrás. Ela... a Roxanne acaba com a minha cabeça. Ela me controla, ela me faz sentir a pior pessoa da face da Terra. Ela me chantageava com fotos, com segredos, com tudo! Eu me mudei pra cá pra fugir daquela desgraçada!

Do outro lado da linha, Diana ouvia em silêncio antes de soltar um palavrão pesado.

— Relaxa, porra. Respira fundo — ordenou Diana, a voz firme e protetora. — Eu não vou falar nada pra Anne nem pra Nuxy se você não quiser. Guarda essa merda no peito por enquanto. Amanhã eu fico grudada em você o dia inteiro, tá me ouvindo? Aquela loira oxigenada não vai dar um passo na sua direção sem eu estar no meio. Ela não vai encostar um dedo em você.

— Promete? — pediu Mizi, soando como uma criança assustada, algo que jamais admitiria em sã consciência.

— Prometo, caralho. Agora vai dormir.

No dia seguinte, Diana cumpriu o prometido à risca. Durante todas as aulas da manhã, sentou-se na carteira em frente à de Mizi, servindo de muralha humana contra qualquer tentativa de aproximação de Roxanne. Toda vez que a novata tentava puxar assunto com seu sorriso dissimulado, Diana respondia com grosserias tão secas e olhares tão assassinos que até o professor de história pediu calma.

Mizi passou o dia em silêncio absoluto, sobrevivendo sob a proteção da amiga.

O problema veio exatamente no último sinal da tarde.

O estrondo da sirene ecoou pela Pine Academy, e Diana olhou desesperada para o relógio de pulso.

— Puta que o pariu! — berrou Diana, jogando os cadernos na mochila de qualquer jeito. — O ônibus das três e quinze! Se eu perder essa bosta, minha mãe me mata!

— Vai logo, sua doida! — gritou Nuxy da porta da sala.

Diana disparou pelo corredor como um raio, deixando Mizi, Nuxy e Anne para trás.

Mizi sentiu o pânico subir pela garganta, mas respirou fundo, tentando manter a calma. Juntou-se a Anne e Nuxy, caminhando pelo pátio lotado em direção aos portões externos.

Elas estavam a menos de dez metros da calçada quando uma mão fina e de unhas impecáveis agarrou o braço esquerdo de Mizi com força cirúrgica.

Mizi estancou no lugar.

O cheiro adocicado e enjoativo de baunilha invadiu suas narinas. Ela não precisou olhar para saber quem era. Num reflexo quase condicionado de puro trauma, o corpo de Mizi simplesmente desligou. A postura ereta e rebelde desmoronou; os ombros caíram, os olhos dourados perderam o brilho e ela virou um nada, aceitando passivamente o aperto de Roxanne em sua carne.

— Achei você — sussurrou Roxanne, com um sorriso angelical, começando a puxá-la na direção oposta. — Vamos conversar agora, Mizi. Sem suas amiguinhas pra atrapalhar.

Nuxy e Anne pararam, confusas, sem saber exatamente o que fazer.

De repente, passos apressados ecoaram no asfalto da entrada.

— ANNE! Puta que pariu, Anne, meu carregador! — gritava Diana, voltando correndo esbaforida pelo portão, os cabelos verde-azulados bagunçados pelo vento. Ela tinha esquecido o cabo dentro da bolsa da amiga e quase perdera a condução por isso.

Mas as palavras morreram na garganta de Diana no instante em que seus olhos bateram na cena.

Mizi estava parada como uma estátua sem alma, o braço preso pela loira, os olhos fitando o chão com um desespero mudo.

Diana não pensou. Não respirou.

Ela avançou como uma fúria desgovernada, enfiou a mão no meio do aperto e arrancou o braço de Mizi de Roxanne com um puxão tão violento que fez a loira cambalear de lado.

— TIRA A PORRA DA SUA MÃO DELA! — berrou Diana, posicionando-se na frente de Mizi e fuzilando Roxanne com um olhar carregado de puro ódio homicida.

A poucos metros de distância, perto da mureta do estacionamento, o grupo dos cinco assistia ao início do tumulto.

— Olha lá a treta começando de novo — comentou Till, ajeitando a mochila nas costas.

— Aquela novata é muito esquisita — Hyuna estreitou os olhos azuis, notando a postura acuada de Mizi atrás de Diana.

— Isso aí já virou novela mexicana — zombou Ivan, mas seus olhos pretos estavam atentos, acompanhando cada movimento tenso no portão. Ao lado dele, Sua apertava a alça da própria mochila, o peito apertado ao ver Mizi daquele jeito.

No centro da confusão, a máscara de santa de Roxanne quase caiu por um segundo, os olhos azuis faiscando de fúria antes de ela recuperar o sorriso sonso.

— O que é isso? — disse a loira, com a voz mansa, fingindo estar assustada para os alunos que começavam a formar uma roda ao redor. — Eu só ia conversar com ela. Qual é o seu problema, garota?

— O meu problema é você, sua cobra do caralho! — cuspiu Diana, dando um passo ameaçador para a frente. — Eu já te avisei hoje de manhã: não quero você perto da Mizi! Fica longe dela, porra!

— A Mizi sabe se defender sozinha, querida — rebateu Roxanne, com um tom de deboche que fez o sangue de Diana ferver. — Ou vai me dizer que você é a cadelinha de guarda dela agora?

A discussão explodiu em um segundo. Os insultos de Diana ecoavam pelo pátio, enquanto Roxanne rebatia com ironias ácidas disfarçadas de educação. A aglomeração cresceu num piscar de olhos, dezenas de adolescentes gritando e instigando a briga como se estivessem num coliseu.

No meio do bate-boca, Diana percebeu que Mizi continuava em choque atrás dela, vulnerável demais.

Num movimento rápido e completamente impulsivo, sem nem raciocinar sobre quem estava ali, Diana puxou Mizi pela manga da camisa e a empurrou na direção de quem estava mais perto na calçada.

— Segura ela aí, porra! Cuida dela! — gritou Diana.

O empurrão desajeitado fez Mizi tropeçar para o lado, caindo diretamente contra o corpo de Sua.

Sua deu dois passos para trás com o impacto, os braços finos se erguendo por puro reflexo para amparar a garota mais alta pelos ombros. Por um segundo minúsculo, o mundo pareceu parar para as duas. O perfume cítrico de Mizi, misturado ao cheiro metálico de energético, invadiu os sentidos de Sua. Mizi estava fria, tremendo como uma folha seca.

Mas a confusão não deu tempo para pausas.

Diana avançou decidida para cima de Roxanne com os punhos cerrados. Nuxy se jogou no meio, tentando segurar Roxanne pelos braços para impedir o pior, enquanto Anne corria para tentar travar os ombros de Diana.

— Diana, para com essa merda! — gritava Anne.

— Me solta, Anne! Eu vou arrebentar a cara dessa sonsa!

No meio do puxa-empurra caótico, Roxanne aproveitou a distração de Diana e, com um movimento sujo e disfarçado, empurrou a garota de cabelo verde com força total no peito.

Diana perdeu o equilíbrio no meio-fio e caiu de lado no asfalto com um baque seco. A palma da mão raspou na brita solta, abrindo um arranhão feio que começou a sangrar imediatamente, acompanhado por um corte leve no joelho.

— Puta que pariu! — praguejou Diana no chão, segurando a mão ferida de dor.

Aquilo foi o ponto de ruptura.

Algo dentro de Mizi estalou. O som do baque da amiga no chão quebrou a redoma de vidro do pânico e da apatia que a sufocava desde a manhã anterior. A imagem de Diana sangrando por sua causa, misturada à lembrança de tudo o que Roxanne já havia destruído em sua vida, transformou o medo em puro veneno vulcânico.

Ela não ia viver aquilo de novo. Nem fodendo.

Num movimento rápido e violento como um raio, Mizi desvencilhou-se do apoio de Sua. Seus passos largos cortaram a multidão antes que qualquer um pudesse piscar.

Antes que Roxanne pudesse sequer sorrir com a queda da rival, Mizi avançou, agarrou a loira pela gola do blazer e a prensou contra a parede de tijolos do colégio com um impacto estrondoso que fez as costas de Roxanne estalarem.

— Aaargh! — arfou Roxanne, o ar sendo expulso de seus pulmões.

A roda de alunos prendeu a respiração em uníssono. Till deu um passo à frente, boquiaberto. Ivan parou de mastigar o chiclete. Hyuna arregalou os olhos.

Mizi inclinou a cabeça para a frente, colando os lábios no ouvido de Roxanne. Seus dedos compridos apertavam o tecido da camisa com tanta força que as costuras gemiam.

— Se você encostar um dedo de novo em qualquer uma das pessoas que andam comigo... — sussurrou Mizi, a voz tão baixa, gutural e aterradora que apenas a loira pôde escutar —, eu juro pelo que restou da minha sanidade que eu pego aquele teu segredinho sujo do ano passado e esfrego na cara da diretoria e dos teus pais hoje mesmo. Você não manda mais em mim, Roxanne. Tenta foder a minha vida de novo e eu quebro a sua em pedacinhos.

Mizi recuou a cabeça devagar.

Quando o rosto dela se afastou, todos puderam ver.

Não havia mais traço algum da garota assustada ou submissa. A face de Mizi estava retorcida na mais pura e assustadora expressão de ódio e desprezo. O veneno que ela costumava guardar sob controle agora escorria livremente; os olhos dourados ardiam como ácido puro, a boca curvada em uma frieza tão cortante e implacável que até Roxanne, pela primeira vez na vida, arregalou os olhos azuis em terror genuíno. A loira empalideceu, engolindo em seco, encolhendo-se contra a parede como um rato encurralado.

Mizi deu um passo para trás com nojo, largando a gola da loira como se estivesse soltando um pedaço de lixo podre.

— Sai da minha frente antes que eu perca a paciência de vez — soltou Mizi, com uma voz tão cortante que fez a espinha de metade dos alunos presentes gelar.

Sem esperar resposta e ignorando o silêncio atordoado da multidão, Mizi virou-se nos calcanhares. Caminhou com passos firmes até Diana, agachando-se ao lado da amiga no asfalto.

— Vem — disse Mizi, a voz suavizando levemente enquanto passava o braço de Diana por cima de seus ombros compridos e a ajudava a se levantar com cuidado. — Vamos na farmácia limpar isso aí.

Diana apoiou o peso nela, resmungando palavrões baixos, ainda com a adrenalina no teto. Anne e Nuxy se aproximaram rápido, flanqueando as duas e encarando Roxanne com desprezo aberto antes de começarem a andar em direção à saída.

O caminho até o portão principal, no entanto, passava exatamente por onde o grupo dos cinco estava parado.

Sua continuava ali, na beirada da calçada.

Ao ver Mizi se aproximando com aquela mesma aura pesada e a expressão azeda e perigosa ainda cravada no rosto, o corpo de Sua reagiu pelo instinto construído nos últimos dias: ela encolheu os ombros, baixou a cabeça e deu um passo para trás, preparando-se internamente para levar mais uma patada brutal e humilhante na frente de todo mundo.

Mizi parou diante dela.

Sua fechou os olhos com força, esperando o golpe verbal.

Mas o golpe não veio.

Mizi olhou para a garota de cabelos pretos. A acidez ainda queimava nos traços de seu rosto, mas, ao fitar o jeito acuado de Sua, o olhar dourado amoleceu por uma fração de segundo. Não havia ódio ali. Havia exaustão e uma seriedade crua.

— Com licença, Sua — disse Mizi, a voz saindo baixa, firme e surpreendentemente educada.

Sua abriu os olhos roxos em choque, piscando atordoada.

Mizi deu mais um passo para passar por ela amparando Diana, mas hesitou por um milésimo de segundo, virando ligeiramente o rosto por cima do ombro.

— Depois... eu quero conversar com você — avisou Mizi, sem tom de ameaça, apenas com uma seriedade cansada. — A sós.

E, sem esperar confirmação ou resposta, Mizi continuou caminhando a passos largos com Diana, Anne e Nuxy, sumindo pela esquina da avenida em meio ao burburinho dos alunos que começavam a se dispersar.

Na calçada da Pine Academy, o silêncio caiu pesado sobre os cinco veteranos.

Till soltou o ar dos pulmões com um assobio trêmulo.

— Caralho... — disse o garoto de cabelo cinza, passando a mão pelo rosto suado. — Ela é completamente maluca. Mas aquela loira merecia ter levado um soco.

Ivan não fez nenhuma piada. Apenas olhou para a irmã, vendo a confusão monumental desenhada no rosto pálido dela.

Sua permaneceu imóvel na calçada, o vento frio da tarde balançando sua franja fina. O peito dela subia e descia rápido. O toque dos braços de Mizi segurando-a minutos antes ainda ardia em sua pele, e aquela última frase continuava ecoando em sua mente como um tambor distante, deixando-a sem chão, sem defesas e com o coração batendo mais forte do que nunca.

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