Wandinha x Tyler
O Peso da Humanidade em Carne Viva
A noite em Jericho parecia ter se solidificado em um breu impenetrável. Wandinha Addams caminhava pela floresta com a precisão de um espectro, ignorando o frio que tentava morder sua pele pálida. Mãozinha seguia em seu ombro, inquieto, batendo os dedos nervosamente contra o tecido de seu sobretudo. Havia algo errado no ar. O silêncio não era o habitual vazio pacífico que ela tanto prezava; era um silêncio tenso, como a corda de um violino prestes a se romper sob a pressão de um arco desafinado.
Ao chegar ao esconderijo de Tyler, Wandinha não encontrou a porta trancada, mas sim entreaberta, batendo suavemente contra o batente com o vento. Ela entrou sem ruído, seus olhos escuros escaneando o ambiente em busca de qualquer ameaça imediata. O cheiro de café torrado, que antes era a assinatura de Tyler, havia sido completamente substituído pelo odor acre de suor frio e desespero.
Tyler não estava na cama, nem na mesa onde costumavam trocar farpas e curativos. Ele estava encolhido no canto mais escuro do quarto, onde as sombras pareciam engoli-lo. Seus joelhos estavam pressionados contra o peito e suas mãos enterravam-se em seus cabelos castanhos, puxando os fios com uma força que beirava a automutilação.
— Tyler — chamou Wandinha, sua voz mantendo a cadência monótona, embora seus olhos observassem a tremedeira violenta que sacudia o corpo dele. — Eu trouxe o ungüento de mandrágora. Se você decidiu se tornar um eremita catatônico, avise-me agora para que eu não desperdice meus ingredientes.
Ele não respondeu. Um som baixo e gutural escapou de sua garganta — não era o rosnado do Hyde, mas algo muito mais aterrorizante para Wandinha: um soluço humano.
Ela deu um passo à frente, a expressão imperturbável, embora o Mãozinha tivesse saltado para o chão, movendo-se cautelosamente em direção ao rapaz.
— Tyler, levante-se — ordenou ela. — A autocompaixão é um vício que não combina com a sua estrutura óssea.
Desta vez, Tyler levantou o rosto. Seus olhos estavam vermelhos e inchados, e a pele, geralmente bronzeada, estava cinzenta. Ele tentou falar, mas o som que saiu foi um arquejo seco, como se o ar tivesse se tornado sólido em seus pulmões.
— Eu... eu não consigo — ele finalmente conseguiu sibilar, antes que o primeiro soluço real explodisse de seu peito.
E então, o dique rompeu. Tyler começou a chorar. Não era o choro contido de alguém que busca consolo, mas um pranto desesperado, feio e violento. Ele abraçou as próprias pernas com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. O som era excruciante; cada soluço parecia arrancar um pedaço de sua sanidade.
Wandinha permaneceu imóvel por um momento. Emoções extremas sempre a deixavam desconfortável, como se estivesse observando uma reação química instável sem o equipamento de proteção adequado. No entanto, ela não recuou.
— Respire, Tyler — disse ela, aproximando-se e ajoelhando-se a uma distância segura, mas próxima o suficiente para sentir o calor febril que emanava dele. — Você está tendo uma crise de ansiedade. É uma resposta fisiológica irritante, mas raramente fatal.
— Eu não... consigo... respirar — ele engasgou, a voz falhando enquanto ele lutava por oxigênio. Seu peito subia e descia em espasmos irregulares. O pânico em seus olhos era genuíno. Ele estava se afogando em terra firme.
— Mãozinha, traga água — comandou Wandinha, sem desviar o olhar de Tyler.
Ela estendeu a mão, hesitando por uma fração de segundo antes de colocá-la firmemente sobre o ombro dele. O contato fez Tyler sobressaltar-se, mas ele não a empurrou. Em vez disso, ele se inclinou para frente, desabando contra ela.
Wandinha sentiu o peso dele — o peso de um garoto quebrado que carregava um monstro nas costas e o fantasma de uma mãe ausente no coração. O choro dele agora era abafado pelo tecido de seu casaco preto.
— Por que... por que eu continuei? — Tyler soluçou, as palavras saindo truncadas entre os arquejos de falta de ar. — Eu lembro de cada segundo, Wandinha. Eu lembro da sensação de rasgar a carne... e eu lembro que, no fundo, eu não queria parar. Eu sou um monstro. Mesmo sem a Laurel, eu sou um monstro.
— Você é um Hyde — corrigiu ela, sua mão subindo para a nuca dele, um gesto que ela pretendia ser clínico, mas que saiu estranhamente protetor. — A dualidade faz parte da sua natureza. Tentar separar o homem da besta é como tentar separar a tinta do papel depois que a carta foi escrita.
— Mas dói! — ele gritou, afastando-se o suficiente para olhar nos olhos dela, o rosto banhado em lágrimas. — Dói o tempo todo! Cada vez que eu te vejo, eu lembro que eu deveria ter te matado. E cada vez que eu sinto que estou começando a gostar de ser humano, o Hyde arranha por dentro, me lembrando que eu pertenço à escuridão. Eu não sei quem eu sou, Wandinha! Eu não sei!
Ele começou a hiperventilar novamente. Suas mãos agarraram os braços de Wandinha com uma força que certamente deixaria hematomas, mas ela não emitiu um som.
— Olhe para mim, Tyler Galpin — disse ela, sua voz cortando o pânico dele como uma navalha fria. — Foque na minha voz.
Ele tentou, mas seus olhos reviravam, o pânico tomando conta de seu sistema nervoso central. O ar entrava em seus pulmões em silvos curtos e ineficazes.
— Você não vai morrer aqui — continuou ela, aproximando o rosto do dele até que suas testas quase se tocassem. — Não permitirei que um colapso nervoso medíocre encerre sua existência. Respire comigo. Agora.
Wandinha inspirou profundamente e expirou de forma audível, exagerando o movimento dos pulmões. Tyler tentou imitá-la, mas falhou, sufocando em um novo soluço.
— De novo — ordenou ela.
Levou minutos que pareceram horas. Mãozinha voltou com um copo de água, batendo levemente na perna de Tyler para chamar sua atenção. Lentamente, o ritmo cardíaco do rapaz começou a desacelerar. O choro violento transformou-se em tremores residuais e respirações curtas.
Tyler soltou os braços dela, parecendo subitamente exausto, como se a tempestade emocional tivesse drenado toda a sua energia vital. Ele encostou a cabeça na parede, fechando os olhos enquanto as últimas lágrimas escorriam.
— Desculpe — murmurou ele, a voz quase inaudível. — Você deve me odiar ainda mais agora. Ver o Hyde é uma coisa... ver isso é patético.
— O ódio exige um investimento emocional que eu não estou disposta a fazer no momento — respondeu Wandinha, ajeitando as mangas de seu casaco. — E a vulnerabilidade não é patética, Tyler. É perigosa. Você acabou de me mostrar exatamente onde estão as suas rachaduras. Se eu fosse sua inimiga, você estaria morto.
Tyler abriu os olhos e deu um sorriso triste e sem vida.
— Você é minha inimiga, Wandinha. Ou pelo menos deveria ser.
— Eu sou a pessoa que está costurando seus pedaços — disse ela, pegando o copo de água das mãos de Mãozinha e entregando a ele. — Beba. Seus níveis de eletrólitos devem estar deploráveis após esse espetáculo histriônico.
Ele bebeu a água com as mãos ainda tremendo. O silêncio que se seguiu foi pesado, mas não mais carregado de pânico. Era o silêncio de um campo de batalha após o cessar-fogo.
— Por que você não me pergunta? — Tyler perguntou subitamente, olhando para o copo vazio. — Por que não pergunta o que me fez quebrar hoje?
— Porque eu já sei — respondeu Wandinha, levantando-se e limpando a poeira de sua saia. — Hoje é o aniversário da morte de sua mãe. Eu vi a data no prontuário médico que "peguei emprestado" do gabinete do xerife meses atrás.
Tyler ficou em silêncio, a surpresa cruzando seu rosto por um breve segundo antes de ser substituída por uma aceitação sombria.
— Ela também quebrou, sabia? — ele disse, a voz distante. — Meu pai dizia que ela era instável, mas agora eu entendo. Ela não era instável. Ela estava apenas cansada de lutar contra o que estava dentro dela. Eu sinto que estou seguindo o mesmo caminho, Wandinha. E eu tenho medo de onde ele termina.
Wandinha caminhou até a janela, observando a chuva que começava a diminuir lá fora.
— O destino é uma construção para aqueles que têm preguiça de forjar o próprio caminho — disse ela, sem se virar. — Sua mãe sucumbiu porque estava sozinha em uma cidade que teme o que não entende. Você, por outro lado, tem a infelicidade de ter a minha atenção. E eu não permito que meus projetos terminem em tragédias clichês.
Tyler olhou para as costas dela, para a silhueta pequena e rígida que exalava uma força desproporcional ao seu tamanho.
— Você me considera um projeto? — perguntou ele, um tom de diversão voltando à sua voz, embora ainda estivesse tingido de dor.
— Um experimento social com tendências homicidas — corrigiu ela, virando-se para encará-lo. — Agora, deite-se. O esgotamento adrenal vai te atingir em breve e eu não pretendo carregar seu corpo inconsciente se você desmaiar no chão.
Tyler obedeceu, arrastando-se para a cama com movimentos lentos. Ele parecia ter envelhecido dez anos na última hora. Quando ele se cobriu com o cobertor áspero, Wandinha aproximou-se e deixou o frasco de ungüento na mesa de cabeceira.
— Use isso nas cicatrizes — disse ela. — E Tyler...
Ele abriu os olhos, observando-a sob a luz fraca.
— Se você sentir que o ar está faltando novamente, não tente lutar sozinho. O Hyde gosta de espaços vazios para crescer. Não dê a ele esse privilégio.
— Você vai voltar amanhã? — perguntou ele, a vulnerabilidade ainda presente em seu tom.
Wandinha caminhou até a porta, parando com a mão na maçaneta.
— Tenho uma exumação planejada para o meio-dia e um recital de violoncelo às seis. — Ela fez uma pausa deliberada. — Estarei aqui às oito. Não se atrase para o seu chá de ervas amargas.
Ela saiu antes que ele pudesse responder. Mãozinha deu um último aceno para Tyler antes de segui-la para a escuridão da floresta.
Enquanto caminhava de volta para Nevermore, Wandinha sentiu a umidade da chuva em seu rosto. Suas mãos, que raramente demonstravam qualquer sinal de fraqueza, ainda guardavam a memória do calor da pele de Tyler e da forma como ele se agarrou a ela no auge do pânico.
Ela sabia que Tyler Galpin era uma bomba-relógio. O lado humano dele era tão perigoso quanto o Hyde, pois era o lado que sentia, que sofria e que poderia, eventualmente, levá-lo à autodestruição. E, por algum motivo que ela se recusava a analisar profundamente, a ideia de Tyler se extinguir por causa de algo tão banal quanto a tristeza a incomodava profundamente.
— Mãozinha — disse ela, quando as torres de Nevermore surgiram no horizonte. — Amanhã, adicione um pouco de raiz de valeriana à mistura. Ele precisa dormir. E eu preciso de silêncio para pensar.
Mãozinha gesticulou, parecendo concordar.
Wandinha Addams entrou na escola, as sombras a acolhendo como velhas amigas. Ela sabia que a Ordem do Sangue Puro ainda era uma ameaça, que o mistério de Goody Addams ainda não estava totalmente resolvido e que o garoto na garagem de barcos era um enigma que poderia destruí-la.
Mas, enquanto subia para seu quarto, ela sentiu uma estranha satisfação. A humanidade de Tyler era crua, sangrenta e caótica. E Wandinha sempre teve um gosto especial por coisas que se recusam a ser curadas sem deixar uma marca permanente.
O choro de Tyler ainda ecoava em sua mente, um lembrete de que, sob a pele do monstro e a máscara do manipulador, havia algo que valia a pena observar. E ela observaria até o fim, fosse ele um renascimento ou um funeral.