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Wandinha x Tyler

O Labirinto de Vidro e a Amnésia do Sangue

A luz do sol era uma intrusa. Ela atravessava as frestas da janela do apartamento acima da garagem de barcos com uma agressividade que Wandinha Addams considerava pessoalmente ofensiva. O cheiro de café torrado, geralmente reconfortante em sua amargura, estava misturado a um odor doce e enjoativo de licor de cereja barato e algo que cheirava a pólvora queimada.

Wandinha abriu os olhos lentamente. Sua primeira observação foi que o teto estava no lugar errado. Sua segunda observação, muito mais alarmante, foi a sensação de pele contra pele. O calor que emanava ao seu lado não era o de um cobertor elétrico, mas o calor febril e pulsante de um corpo humano.

Ela tentou se sentar, mas uma pontada aguda e desconhecida em seu baixo ventre a fez soltar um suspiro curto de dor. Era uma sensação de estiramento, um latejar que parecia ecoar em seus ossos.

Ao virar a cabeça com a rigidez de uma boneca de porcelana quebrada, ela encontrou Tyler Galpin. Ele estava dormindo, com o rosto enterrado no travesseiro, os cabelos castanhos bagunçados e uma expressão de paz que não condizia com a devastação que os cercava. E ele estava nu.

Wandinha olhou para baixo. O lençol cinza cobria apenas metade de seu corpo, revelando que ela também estava desprovida de qualquer vestimenta.

— Mãozinha — sussurrou ela, sua voz saindo mais rouca do que o normal.

Não houve resposta. O apêndice fiel não estava à vista.

Wandinha fechou os olhos, tentando forçar sua mente a acessar os arquivos da noite anterior. Memórias fragmentadas surgiram como slides de um projetor quebrado: o brilho das chamas esmeraldas no covil dos últimos remanescentes da Ordem do Sangue Puro; o som de ossos quebrando enquanto Tyler, em sua forma de Hyde, a protegia de um ataque lateral; o grito de vitória quando o artefato final foi reduzido a cinzas.

E depois... a comemoração.

Ela se lembrava de Tyler tirando uma garrafa de rótulo duvidoso de algum esconderijo sob as tábuas do piso. Ela se lembrava de rir — um som que raramente saía de seus lábios e que soava como o ranger de uma dobradiça enferrujada. Eles haviam bebido para esquecer o sangue, mas pareciam ter esquecido todo o resto.

— Tyler — disse ela, desta vez mais alto, cutucando o ombro dele com uma rigidez letal.

Ele resmungou, movendo-se sob o lençol. Quando seus olhos se abriram e focaram na figura pálida e gélida de Wandinha ao seu lado, o reconhecimento não foi imediato, mas quando veio, foi como um choque elétrico.

Tyler saltou para trás, quase caindo da cama, enrolando o lençol em volta da cintura com uma agilidade desesperada.

— Wandinha? — Ele olhou em volta, os olhos arregalados, o pânico subindo por seu pescoço em manchas vermelhas. — O que... por que você... por que estamos...?

— Se você terminar essa frase com uma pergunta óbvia, eu juro que vou encontrar uma forma de te lobotomizar com uma colher de chá — retrucou ela, puxando a colcha para se cobrir, ignorando a dor aguda que a atingiu novamente.

Tyler passou a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos.

— A gente resolveu o caso. A gente voltou pra cá. Eu peguei aquela garrafa de absinto que o meu pai confiscou de um contrabandista... — Ele parou, olhando para o chão.

Roupas estavam espalhadas por todo o quarto em um rastro de caos têxtil. O sobretudo de Wandinha estava pendurado precariamente em um ventilador de teto desligado. Suas botas estavam em cantos opostos do cômodo. O suéter de Tyler estava rasgado perto da gola.

— Minhas roupas parecem ter sido removidas com uma urgência que eu não costumo dedicar a nada que não envolva uma exumação — observou Wandinha, sua voz mantendo uma neutralidade cortante, apesar do caos interno.

— Eu não lembro de nada depois do terceiro brinde — admitiu Tyler, a voz falhando. — Wandinha, eu... eu toquei em você? Eu machuquei você?

Wandinha sentiu o latejar em seu útero novamente. Era uma dor nova, um desconforto que trazia consigo uma compreensão biológica inevitável. Ela era uma Addams; a anatomia e as funções corporais nunca foram um mistério para ela, mas a experiência prática era um território que ela planejava manter inexplorado por pelo menos mais duas décadas de cinismo.

— Houve uma transação física — disse ela, escolhendo as palavras como se estivesse redigindo um relatório forense. — Meu corpo apresenta sinais de... atividade não rotineira.

Tyler empalideceu ainda mais, se é que isso era possível.

— Meu Deus. Eu... eu forcei...?

— Não seja tolo, Tyler — interrompeu ela, seus olhos escuros fixos nos dele. — Se você tivesse tentado algo sem o meu consentimento, você estaria acordando em uma gaveta no necrotério, não em sua própria cama. O fato de eu estar inteira, embora dolorida, sugere que eu fui uma participante ativa nessa... aberração.

Tyler soltou um suspiro de alívio que tremeu em seu peito, mas o pânico não desapareceu totalmente.

— Mas a gente não lembra. Como a gente pode não lembrar da nossa... primeira vez?

Wandinha olhou para a garrafa vazia sobre a mesa de cabeceira. O líquido não era apenas absinto; havia um brilho metálico no fundo do vidro.

— Aquela bebida — murmurou ela. — Os ocultistas. Um dos frascos que destruímos deve ter contaminado o ambiente ou a garrafa. Um agente amnésico combinado com álcool de alta graduação. Uma combinação deplorável para a memória, mas aparentemente um catalisador para a impulsividade.

Tyler olhou para as próprias mãos, as garras retraídas, mas os dedos ainda trêmulos.

— Eu sempre quis... — ele começou, mas parou, temendo a reação dela. — Eu sempre quis que, se algo acontecesse entre nós, fosse real. Não um borrão causado por veneno e euforia pós-combate.

— O "real" é superestimado — disse Wandinha, embora houvesse uma nota de algo desconhecido em sua voz. — No entanto, a perda de controle é um insulto à minha inteligência. Acordar nesta condição é um erro de cálculo que eu não pretendo repetir.

Ela tentou se levantar novamente. A dor no abdômen a fez vacilar, e Tyler, instintivamente, estendeu a mão para ampará-la. O contato de seus dedos quentes contra o ombro frio dela fez ambos congelarem.

— Você está bem? — perguntou ele, a voz suave, carregada de uma preocupação que não era manipuladora, mas puramente humana.

— Meu útero parece estar protestando contra a invasão — respondeu ela, sem desviar o olhar. — É uma reação biológica padrão, suponho.

Tyler sentiu o rosto queimar.

— Eu... eu sinto muito. Eu deveria ter sido mais... eu não sei como eu fui. O Hyde... você acha que o Hyde...?

— O Hyde teria me rasgado ao meio, Tyler. Você, por outro lado, parece ter apenas... — ela fez uma pausa, olhando para as roupas no chão — ...sido entusiasmado.

O silêncio que se seguiu foi denso. Wandinha raramente ficava sem palavras, mas a situação desafiava sua lógica habitual. Ela olhou para Tyler e, pela primeira vez, viu não o monstro ou o barista, mas o homem que compartilhava com ela uma escuridão que ninguém mais ousava tocar.

— O que a gente faz agora? — perguntou Tyler. — A gente finge que não aconteceu? A gente volta a ser "aliados com benefícios de proteção mútua"?

Wandinha finalmente conseguiu se levantar, enrolando-se no lençol como se fosse uma toga romana de luto. Ela caminhou até suas roupas, recolhendo peça por peça com uma dignidade que desafiava sua nudez parcial.

— O que aconteceu é um fato — disse ela, vestindo a camisa preta com botões. — Fatos não podem ser ignorados, apenas processados. No momento, meu processamento está prejudicado pela dor física e pela irritação metafísica.

Tyler levantou-se também, vestindo a calça jeans que encontrou perto da porta. Ele observou Wandinha enquanto ela se recompunha, a trança levemente desfeita, a franja desalinhada. Ela parecia mais humana do que nunca, e isso o aterrorizava.

— Wandinha — disse ele, aproximando-se. — Eu não me arrependo. Mesmo sem lembrar. Eu sei que, no fundo, era o que eu queria desde que te vi na Catavento pela primeira vez.

Wandinha parou de abotoar o casaco. Ela olhou para ele, e por um breve segundo, a máscara de gelo rachou.

— Suas inclinações românticas continuam sendo o seu traço mais irritante — disse ela, mas não havia veneno em suas palavras. — No entanto, eu admito que, se eu tivesse que perder minha autonomia física com alguém, você é o único candidato que não me faz querer cometer um homicídio imediato.

Tyler deu um passo para mais perto, diminuindo a distância entre eles. Ele tocou o rosto dela, o polegar traçando a linha de sua mandíbula.

— Isso é o mais perto de um elogio que eu vou conseguir, não é?

— É o máximo que você deveria esperar antes do café da manhã — respondeu ela.

A dor em seu ventre deu uma pontada final, lembrando-a da noite que sua mente havia apagado, mas que seu corpo havia registrado com fogo. Ela olhou para a cama desfeita, para as roupas e para o homem à sua frente.

— Precisamos encontrar o Mãozinha — disse ela, recuperando sua postura rígida. — Ele provavelmente está escondido em algum lugar, traumatizado por ter testemunhado o que nossa falta de juízo produziu.

— Wandinha — Tyler a segurou pelo pulso, suavemente. — A gente vai falar sobre isso?

— Talvez em dez anos. Ou quando o mundo estiver acabando. O que ocorrer primeiro.

Ela caminhou até a porta, mas antes de sair, parou e olhou por cima do ombro.

— E Tyler?

— Sim?

— Se você contar para a Enid que eu fiz qualquer som que não fosse um rosnado de desprezo durante a noite, eu vou garantir que sua próxima transformação em Hyde seja permanente e ocorra dentro de uma jaula de prata.

Tyler sorriu, o brilho perigoso e sedutor voltando aos seus olhos.

— Entendido, Wandinha. Meu silêncio é seu.

Ela saiu do apartamento, a luz do sol ainda a incomodando, a dor em seu corpo lembrando-a de que ela não era tão invulnerável quanto gostava de acreditar. Mas, enquanto caminhava em direção a Nevermore, Wandinha Addams sentiu algo que não era irritação ou pânico. Era uma curiosidade sombria.

Ela não lembrava da noite, mas o eco daquela conexão permanecia. E, para alguém que vivia de desvendar mistérios, Tyler Galpin tinha acabado de se tornar o enigma mais complexo e perigoso de sua vida.

Ao longe, Mãozinha surgiu de trás de uma árvore, gesticulando freneticamente e cobrindo o que seriam seus "olhos" com os dedos.

— Não diga nada, Mãozinha — avisou Wandinha, sem diminuir o passo. — Ou eu vou te usar como isca para piranhas no lago.

O apêndice encolheu-se, mas continuou a segui-la. O mistério daquela noite estava selado pelo amnésico, mas as cicatrizes — e as sensações — eram reais. E Wandinha sabia que, em Jericho, nada permanecia enterrado por muito tempo. Nem mesmo os segredos de uma noite de embriaguez e sangue.