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Water

O Veneno da Serpente e o Despertar do Vento

A manhã nas montanhas surgiu com uma névoa espessa e o cheiro de terra molhada, mas dentro da pequena cabana abandonada, o ar ainda parecia carregar o calor da noite anterior. Sanemi Shinazugawa acordou com uma sensação de leveza que raramente experimentava. O peso de Giyu Tomioka, adormecido com a cabeça em seu peito, era uma âncora reconfortante. As cicatrizes de Sanemi não pareciam queimar tanto quanto de costume; havia uma trégua temporária em sua alma tempestuosa.

Giyu começou a se mexer, os cílios longos tremendo antes de revelarem os olhos azuis profundos. Ele parecia desorientado por um segundo, até que a memória da noite anterior o atingiu, fazendo com que suas orelhas ficassem instantaneamente vermelhas.

— Bom dia — murmurou Tomioka, a voz rouca pelo sono e pelo uso excessivo da garganta durante a madrugada.

— Já era hora, seu preguiçoso — resmungou Sanemi, embora seus dedos estivessem acariciando suavemente o cabelo escuro de Giyu. — Como estão as pernas?

Tomioka tentou se esticar e soltou um gemido baixo de desconforto.

— Elas parecem... desligadas do meu corpo. É uma sensação estranha.

Sanemi soltou uma risada anasalada, sentindo-se estranhamente orgulhoso de si mesmo. Ele deu um beijo rápido e estalado na testa de Giyu, algo que o Tomioka de meses atrás teria achado bizarro, mas que o de agora aceitava com um pequeno brilho de felicidade no olhar.

— Vamos, temos que nos vestir. Se algum mensageiro Kasugai aparecer e nos vir assim, o Kagaya vai ter um ataque cardíaco.

Eles começaram o processo lento e doloroso de se vestirem. Para Giyu, cada movimento de colocar o uniforme era um lembrete físico de cada toque de Sanemi. O Hashira do Vento, por outro lado, estava de excelente humor, assobiando baixinho enquanto amarrava suas faixas.

No entanto, o destino tinha planos diferentes. O que eles não sabiam era que a missão naquela região não havia sido designada apenas para eles. Devido a relatos de múltiplos demônios, o QG havia enviado um reforço para garantir que a área fosse limpa antes do amanhecer.

Do lado de fora da cabana, Obanai Iguro caminhava com sua habitual elegância silenciosa. Kaburamaru, sua serpente, estava inquieta em volta de seu pescoço, a língua bífida captando odores que não combinavam com o ambiente de uma cabana "abandonada".

— O que foi, Kaburamaru? — sussurrou Obanai, a mão tocando o cabo da sua nichirin ondulada. — Você sente algo?

A serpente sibilou em direção à porta de madeira podre. Obanai estreitou os olhos. Ele sabia que Sanemi e Tomioka estavam na região, mas esperava que eles já estivessem a caminho da próxima vila. O cheiro que vinha de dentro... era estranho. Não era cheiro de onis. Era cheiro de... Shinazugawa? E algo mais suave.

Obanai, sendo um homem que prezava pela ordem e pela eficiência, não bateu na porta. Ele simplesmente a empurrou com a ponta da bainha da espada, pronto para decapitar qualquer ameaça.

O que ele viu, entretanto, foi pior do que qualquer demônio de doze luas.

Sanemi estava agachado na frente de Tomioka, ajudando-o a fechar os botões da túnica, já que os dedos do moreno pareciam estar funcionando com atraso. O haori de Tomioka estava jogado no chão, amassado de uma forma que sugeria que servira de lençol, e o ambiente estava saturado com um cheiro que Obanai, apesar de sua natureza reservada, reconheceu instantaneamente como o resultado de atividades carnais intensas.

O silêncio que se seguiu foi tão denso que poderia ser cortado com uma espada de treinamento.

Obanai ficou estático na porta, os olhos heterocromáticos arregalados por trás das ataduras. Kaburamaru se escondeu atrás da cabeça de seu mestre, como se quisesse apagar a imagem da memória.

— Mas que... — Obanai começou, a voz saindo em um tom agudo de puro horror. — Que tipo de abominação visual é esta?

Sanemi saltou para trás, quase tropeçando nos próprios pés, o rosto ficando tão vermelho quanto o sangue que costumava derramar.

— Iguro! — gritou Sanemi, a voz falhando miseravelmente. — O que diabos você está fazendo aqui, seu maldito olho de cobra?!

Tomioka, com sua habitual falta de timing social, olhou para Obanai com uma expressão de calma absoluta, embora estivesse com o uniforme metade aberto e o cabelo mais bagunçado do que o ninho de um corvo.

— Olá, Iguro — disse Tomioka. — Você veio para o chá? Sanemi disse que não temos mais água quente.

Obanai sentiu uma veia saltar em sua testa. Ele apontou um dedo trêmulo para os dois, parecendo que ia entrar em combustão espontânea.

— Chá? Tomioka, você está com marcas de dentes no pescoço! E Shinazugawa... você está... você está sem as meias!

— E o que as minhas meias têm a ver com você, seu intrometido?! — Sanemi recuperou sua postura agressiva, embora o constrangimento ainda fosse palpável. — Sai daqui agora se não quiser que eu te jogue do topo dessa montanha!

Obanai deu um passo para dentro, a mão cobrindo os olhos, embora Kaburamaru continuasse espiando.

— Eu quero morrer — declarou Obanai com uma voz lúgubre. — Eu vim aqui para ajudar em uma missão e encontro o Hashira do Vento e o idiota do Tomioka em um ninho de amor nojento. O mestre precisa saber disso. O mestre precisa purificar essa cabana com fogo sagrado!

— Não ouse falar com o mestre sobre isso! — Sanemi avançou, agarrando Obanai pelo colarinho. — Foi apenas uma... uma estratégia de sobrevivência! Estava frio!

— Estratégia de sobrevivência? — Obanai sibilou, empurrando Sanemi. — Eu vi como você estava olhando para ele! Eu vi o estado desse haori! Vocês dois são uma vergonha para o corpo de caçadores! Kanroji nunca faria algo tão... tão desordenado em uma missão!

Tomioka levantou-se lentamente, segurando-se na parede para não vacilar, já que suas pernas ainda protestavam.

— Sanemi disse que era sobre prazer — explicou Tomioka com uma seriedade mortal, ignorando o desespero de Sanemi. — Ele disse que eu não precisava de um manual. E ele estava certo, Iguro. Foi muito instrutivo.

Obanai soltou um som que parecia um engasgo. Ele olhou para Tomioka, depois para Sanemi, e depois para Kaburamaru, que parecia estar tentando se desintegrar.

— "Instrutivo"? — Obanai repetiu, a voz carregada de veneno. — Eu vou te matar, Tomioka. Eu vou te matar para salvar meus olhos da memória dessa conversa. E depois vou matar o Shinazugawa por ter corrompido o pouco de sanidade que restava neste esquadrão.

— Tenta a sorte, seu nanico! — Sanemi desembainhou a nichirin, a lâmina verde brilhando de forma ameaçadora. — Ninguém mandou você entrar sem bater! Onde estão os seus modos?

— Modos?! — Obanai também sacou sua espada, a lâmina sinuosa tremendo de raiva. — Você perdeu o direito de falar de modos no momento em que decidiu transformar uma missão oficial em um encontro romântico de baixo calão!

Tomioka, vendo que a situação estava escalando para um duelo entre Hashiras, deu um passo à frente, colocando-se entre os dois.

— Parem com isso — disse Tomioka, a voz calma de sempre. — Iguro, se você está com inveja porque não tem ninguém para compartilhar calor corporal, podemos pedir para a Shinobu organizar um seminário sobre o assunto. Sanemi é um bom professor.

O silêncio que se seguiu foi ainda mais mortal do que o anterior. Sanemi fechou os olhos, desejando que um demônio de nível superior aparecesse naquele exato momento e o devorasse apenas para acabar com o sofrimento.

Obanai ficou pálido, ou o mais pálido que um homem escondido por ataduras poderia ficar.

— Inveja? — Obanai sussurrou. — Você... você disse que eu...

— Tomioka, cala a boca — implorou Sanemi, a voz quase um sussurro quebrado. — Por favor, apenas uma vez na vida, fica quieto.

— Mas Sanemi, eu só estava tentando ajudar o Iguro a entender que... — Tomioka começou, mas foi interrompido por um grito de guerra de Obanai.

— MORRAM! OS DOIS! — Obanai saltou, executando um movimento da Respiração da Serpente que visava mais o orgulho de Sanemi do que seu pescoço.

Sanemi bloqueou o ataque com um estrondo, as faíscas voando pela cabana pequena.

— Ficou maluco, Iguro?! — Sanemi rosnou, embora estivesse lutando para não rir da situação absurda. — Se você quebrar essa cabana, o relatório vai ser ainda pior!

— Eu não me importo com o relatório! — gritou Obanai, desferindo golpes rápidos. — Eu vou apagar vocês da existência! Kaburamaru, não olhe! É para o seu próprio bem!

Tomioka observava a luta com uma inclinação de cabeça curiosa. Ele se sentou em um banco de madeira que ainda restava inteiro e começou a ajeitar o cabelo com calma.

— Eles estão muito agitados hoje — comentou Tomioka para o nada. — Deve ser a pressão barométrica após a chuva.

A luta continuou por alguns minutos, com Sanemi e Obanai destruindo o que restava dos móveis da cabana. Sanemi estava se divertindo mais do que deveria, a adrenalina da luta servindo como uma válvula de escape para o constrangimento. Obanai, por outro lado, lutava com a fúria de um homem que teve sua pureza visual violada.

Eventualmente, o corvo Kasugai de Sanemi entrou voando pela porta aberta, grasnando alto.

— MENSAGEM! MENSAGEM! — o corvo gritou, pousando na cabeça de Tomioka. — RELATÓRIO DE MISSÃO ATRASADO! KAGAYA-SAMA PERGUNTA SE O HASHIRA DO VENTO E O HASHIRA DA ÁGUA ESTÃO VIVOS!

Obanai parou o ataque, a ponta da sua espada a centímetros do rosto de Sanemi. Sanemi também parou, ofegante.

— Diga ao mestre... — Obanai disse, a voz trêmula de ódio — ... que eles estão vivos. Infelizmente. Mas que o Hashira do Vento perdeu o senso de decência e o Hashira da Água... continua sendo o Tomioka.

Obanai guardou a espada com um movimento brusco e se virou para a porta, sem olhar para trás.

— Se eu ouvir um único comentário sobre isso nas reuniões — ameaçou Obanai —, eu pessoalmente farei com que as serpentes entrem em suas camas todas as noites. E Shinazugawa... lave o rosto. Você tem um brilho de... satisfação que me dá náuseas.

Com isso, o Hashira da Serpente desapareceu na névoa da manhã, Kaburamaru sibilando uma última despedida indignada.

Sanemi soltou um suspiro longo e pesado, guardando sua própria nichirin. Ele olhou para Tomioka, que ainda tinha o corvo pousado na cabeça.

— Viu o que você fez? — reclamou Sanemi, embora não houvesse raiva real em sua voz. — Agora o Iguro vai nos odiar para sempre.

— Ele já nos odiava, Sanemi — lembrou Tomioka, levantando-se e caminhando até o namorado. — Só que agora ele tem um motivo mais específico.

Sanemi olhou para Giyu, observando o uniforme ainda meio desarrumado e a expressão inocente que escondia o fato de que ele era o responsável por quase causar uma guerra civil entre os Hashiras. Sanemi não aguentou e começou a rir, uma risada que começou baixa e se tornou alta, ecoando pela montanha.

— Você é um desastre, Giyu. Um desastre completo.

Tomioka franziu a testa, levemente ofendido.

— Eu tentei ser educado. Eu até ofereci chá.

Sanemi puxou Tomioka pela cintura, ignorando o fato de que eles precisavam sair dali rapidamente antes que outro Hashira aparecesse.

— Esquece o chá. E esquece o Iguro.

— Sanemi? — Tomioka chamou, enquanto o outro começava a beijar seu pescoço novamente, logo acima de onde Obanai tinha apontado as marcas.

— O quê?

— Da próxima vez... podemos escolher uma cabana com tranca na porta?

Sanemi parou, olhou para os olhos azuis de Tomioka e sorriu de um jeito que faria qualquer demônio fugir de medo, mas que fez o coração de Giyu saltar.

— Da próxima vez, Giyu, eu vou garantir que nem mesmo o mestre consiga nos encontrar.

Eles terminaram de se arrumar e saíram da cabana, caminhando lado a lado pela trilha da montanha. O mundo ainda era um lugar perigoso e cheio de onis, e os outros Hashiras ainda seriam um problema constante, mas enquanto o vento e a água estivessem em harmonia, nada mais importava. Pelo menos até a próxima reunião, onde Sanemi teria que explicar a Obanai por que ele não conseguia parar de sorrir toda vez que olhava para o "idiota" do Tomioka.