Why you hate me ?
O Gosto Amargo da Verdade e do Suco de Uva
A casa de Hyuna estava mergulhada em uma penumbra tingida por luzes de neon roxas e azuis que ela mesma havia instalado para a ocasião. O som do rock alternativo que Till tanto amava vibrava nas paredes, mas o volume não era alto o suficiente para abafar o caos que se instalara na sala. O cheiro de salgadinhos, refrigerante e o álcool barato que Hyuna conseguira contrabandear preenchia o ar.
Mizi estava jogada no sofá principal, com a cabeça pendida para trás e os olhos semicerrados. Ela segurava um copo plástico vermelho com uma mão frouxa, deixando um pouco de líquido escorrer pela borda. Ela não estava realmente bêbada — tinha tomado apenas dois goles para ganhar coragem —, mas decidiu que o teatro era sua única rota de fuga. Se estivesse "fora de si", não precisaria encarar o peso do silêncio de Sua ou as perguntas invasivas sobre sua recente revelação.
— Mais um gole, Mizi? — Hyuna perguntou, tropeçando nos próprios pés enquanto dançava sozinha. Ela já estava em um estado avançado de embriaguez, com o cabelo marrom desgrenhado e um sorriso largo que não vacilava.
— Acho que... acho que já deu pra mim, Hyu... — Mizi arrastou as palavras, forçando um soluço falso e fechando os olhos com força. — O mundo tá girando como um carrossel de morangos...
Ivan, sentado em uma poltrona lateral, observava a cena com um tédio cortante. Ele segurava um copo de água, recusando-se a perder o controle. Seus olhos negros viajavam de Mizi para sua irmã, Sua, que estava sentada no canto mais afastado da sala, com as costas eretas e um copo de suco de uva intocado nas mãos.
— Patético — Ivan murmurou, alto o suficiente para que Sua ouvisse. — Olhe para ela. A garota dos seus sonhos está desmoronando e você continua aí, parecendo uma estátua de gelo em um museu abandonado.
Sua não respondeu. Ela observava Mizi com uma mistura de dor e fascinação. Ver Mizi assim, vulnerável e "embriagada", fazia seu coração doer de uma forma diferente. Ela queria cuidar dela, tirar o copo de sua mão, levá-la para um lugar silencioso... mas a memória da briga no refeitório ainda ardia como uma queimadura de terceiro grau.
Perto dali, Till já havia desistido da dignidade. Ele estava deitado no tapete felpudo da sala, abraçado a uma almofada, resmungando letras de músicas que ninguém conseguia entender. O cabelo cinza estava espalhado pelo chão, e ele parecia ter entrado em um coma induzido por açúcar e vodca barata.
Luka, o único além de Ivan que permanecia completamente sóbrio, suspirou ao ver Hyuna quase cair sobre a mesa de centro.
— Hyuna, chega — disse Luka, aproximando-se com sua calma habitual. — Você vai acabar se machucando.
— Ah, qual é, Luka! — Hyuna riu, agarrando o colarinho da camisa dele e puxando-o para perto. — Você é tão certinho... tão nerd... sabia que seus olhos brilham quando você fica bravo?
Luka sentiu o rosto esquentar, mas sua expressão permaneceu neutra.
— Você precisa dormir. Vou te levar para o quarto.
— Só se você for comigo! — ela exclamou, rindo alto enquanto Luka a passava pelo braço, guiando-a escada acima.
O grupo os observou subir. O que ninguém esperava era que Luka, exausto por ter passado a semana estudando para as finais e agora tendo que lidar com uma Hyuna agitada, acabaria cedendo. Quando ele a deitou na cama, Hyuna o puxou com uma força surpreendente, prendendo-o em um abraço desajeitado.
— Fica aqui... só um pouquinho... — ela sussurrou, já fechando os olhos.
Luka tentou se soltar, mas o cansaço pesou em seus ombros como chumbo. O calor do quarto e o silêncio repentino foram o golpe final. Ele se permitiu fechar os olhos por apenas um minuto, que rapidamente se transformou em um sono profundo ao lado da garota que ele amava em segredo desde o 8º ano.
Lá embaixo, Ivan se levantou e ajeitou o casaco.
— Bom, o entretenimento acabou — disse ele, olhando para o corpo estirado de Till no chão e para Mizi, que continuava fingindo um colapso no sofá. — Vou embora. Não tenho paciência para cuidar de bêbados ou de irmãs melancólicas.
— Você vai deixar a gente aqui? — Sua perguntou, finalmente quebrando o silêncio.
— Vocês são crescidas — Ivan deu de ombros, caminhando até a porta. — E, francamente, prefiro não estar presente quando a Mizi acordar e perceber que a única pessoa que sobrou para cuidar dela foi a pessoa que ela mais odeia no mundo. Divirta-se com seu masoquismo, Sua.
A porta da frente bateu com um som seco.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo ronco rítmico de Till no tapete. Sua sentiu o suor frio em suas mãos. Ela estava sozinha com Mizi.
Mizi, percebendo que o público havia diminuído, decidiu intensificar a atuação. Ela soltou um gemido baixo e deixou o copo cair no tapete, o pouco líquido restante manchando as fibras.
— Por que... por que dói tanto? — Mizi murmurou, a voz embargada. — Por que ela não gosta de mim, Ivan? Por que ela é tão... tão fria?
Sua sentiu um sobressalto. Mizi achava que ainda estava falando com Ivan. O coração da garota de olhos roxos disparou. Ela se levantou lentamente e caminhou até o sofá, ajoelhando-se ao lado de Mizi.
— Mizi? — Sua chamou baixinho. — O Ivan foi embora. Sou eu.
Mizi abriu os olhos, focando-os com dificuldade em Sua. Ela precisava manter o teatro. Se Sua soubesse que ela estava sóbria, a conversa séria seria inevitável, e Mizi não se sentia pronta para a rejeição que certamente viria.
— Ah... é você... — Mizi deu um sorriso triste, as bochechas coradas (pela vergonha, embora Sua achasse que fosse pelo álcool). — A garota que me odeia. A garota que acha que eu sou fútil.
— Eu nunca disse que te odiava — Sua sussurrou, esticando a mão para afastar uma mecha rosa do rosto de Mizi, mas parando no meio do caminho, com medo do toque.
— Disse sim... com os olhos... todos os dias — Mizi continuou, a voz arrastada, fingindo uma vulnerabilidade que, no fundo, era muito real. — Eu contei pra todo mundo, Sua. Eu contei que sou lésbica. Achei que... talvez... você parasse de me olhar como se eu fosse um erro. Mas você continua aí... longe.
Sua sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos. Ela sabia que Mizi costumava ter apagões de memória quando bebia demais — ou pelo menos era o que Mizi sempre dizia nas festas passadas. Acreditando que aquela confissão seria esquecida pelo amanhecer, a armadura de Sua finalmente se despedaçou.
— Eu não te olho como se você fosse um erro, Mizi — Sua disse, a voz trêmula. — Eu te olho como se você fosse o sol, e eu tenho medo de chegar perto demais e acabar queimada. Ou pior... tenho medo de que você perceba o quanto eu sou pequena e sem graça perto do seu brilho.
Mizi parou de se mexer. Aquilo não estava no roteiro. Ela esperava uma resposta seca, ou talvez que Sua apenas a ignorasse.
— O que você... está dizendo? — Mizi perguntou, forçando um soluço.
Sua respirou fundo, as lágrimas agora escorrendo livremente por seu rosto pálido.
— Eu te amo, Mizi. Eu te amo desde o 8º ano. Cada palavra grosseira, cada vez que eu te ignorei, cada vez que eu fui fria... foi porque eu tinha certeza de que você era hétero. Eu tinha certeza de que, se eu deixasse você perceber o que eu sentia, você sentiria nojo de mim. O Ivan... ele me dizia todos os dias que eu nunca teria chance. E eu acreditei. Eu usei o ódio como um escudo para não morrer de amor toda vez que você sorria para mim.
Mizi sentiu um choque elétrico percorrer sua espinha. O teatro de "bêbada" estava se tornando impossível de sustentar. Suas mãos, que antes estavam moles, agora estavam cerradas.
— Você... me ama? — Mizi perguntou, esquecendo-se de arrastar as palavras por um segundo.
— Mais do que tudo — Sua confessou, escondendo o rosto nas mãos e soluçando baixinho. — E ontem, quando você disse que me odiava... eu senti como se minha vida tivesse acabado. Eu queria morrer, Mizi. Eu queria desaparecer para que você não tivesse que carregar o fardo da minha existência por perto. Eu só queria ser boa o suficiente para você.
O silêncio que se seguiu foi carregado de uma verdade tão crua que Mizi não conseguiu mais continuar com a mentira. Ela se sentou abruptamente no sofá, a postura agora perfeitamente ereta, os olhos dourados brilhando com uma clareza que Sua não esperava encontrar.
— Sua... olha para mim — Mizi pediu, a voz firme e totalmente sóbria.
Sua levantou o olhar, surpresa pela mudança repentina no tom de voz da outra. Ela viu Mizi limpando o canto da boca e ajeitando o casaco com uma precisão que nenhum bêbado teria.
— Você... você não está bêbada? — Sua perguntou, a voz sumindo em um fio de pavor.
Mizi suspirou, sentindo o rosto queimar de vergonha, mas não desviou o olhar.
— Eu fingi. Eu queria evitar o clima pesado... eu queria que fosse mais fácil. Mas eu ouvi tudo, Sua. Eu ouvi cada palavra.
O rosto de Sua passou de pálido para um branco cadavérico. Ela tentou se levantar para fugir, para se esconder em qualquer buraco, mas Mizi foi mais rápida. Ela segurou os pulsos de Sua, mantendo-a ali, ajoelhada entre suas pernas.
— Não foge. Por favor, não foge de novo — Mizi implorou, a voz agora suave. — Você tem ideia do quanto eu sofri achando que você me desprezava? Eu achava que eu era o problema. Eu achava que minha presença te incomodava tanto que você não conseguia nem ser educada comigo.
— Eu tive medo, Mizi! — Sua gritou, as lágrimas voltando com força total. — O Ivan... ele me convenceu de que eu era nada!
— O Ivan é um idiota que não sabe de nada! — Mizi rebateu, aproximando seu rosto do de Sua. — Ele sabe que eu sou lésbica, mas ele não sabia que a única garota que eu sempre quis impressionar era a irmã dele. A garota que lia livros difíceis e que parecia inalcançável para alguém "fútil" como eu.
Sua paralisou. Seus olhos roxos se arregalaram, fixos nos lábios de Mizi.
— O quê?
— Eu também te amo, Sua — Mizi confessou, e dessa vez não havia teatro, não havia álcool, apenas a verdade nua. — Eu sempre tentei ser sua amiga porque era o único jeito de estar perto de você sem que o mundo desconfiasse. Eu achava que você era hétero e que nunca me olharia. Nós duas fomos idiotas por tempo demais.
Sua sentiu o coração bater tão forte que parecia que ia quebrar as costelas. A distância entre elas era mínima. O cheiro de morangos de Mizi, agora misturado ao leve aroma do suco de uva de Sua, criava uma atmosfera inebriante.
— Você... não está mentindo? — Sua sussurrou.
— Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida — Mizi respondeu.
Lentamente, como se estivesse pedindo permissão, Mizi soltou os pulsos de Sua e levou as mãos ao rosto pálido da garota, polegares limpando as lágrimas que ainda caíam. Sua fechou os olhos, entregando-se ao toque que desejara por anos.
Mizi inclinou-se para frente. O primeiro toque dos lábios foi hesitante, um roçar suave que carregava o peso de quatro anos de silêncio e mágoa. Mas, no segundo seguinte, a barreira se rompeu. Sua envolveu o pescoço de Mizi com os braços, puxando-a para mais perto, enquanto Mizi a trazia para cima do sofá, aprofundando o beijo com uma intensidade que fez o mundo ao redor desaparecer.
Não havia mais Ivan, não havia Till dormindo no tapete, não havia as dúvidas do 3º ano. Havia apenas o calor da boca de Mizi, o gosto doce do suco de uva e a percepção de que o gelo que envolvia o coração de Sua havia finalmente derretido.
Quando se separaram, ambas estavam ofegantes. Mizi encostou sua testa na de Sua, soltando uma risada baixinha e aliviada.
— Então... — Mizi murmurou, passando a mão pelo cabelo curto de Sua. — Acho que o dueto no festival cultural ainda está de pé, não é?
Sua sorriu — um sorriso real, aberto, o primeiro que Mizi via em anos.
— Só se você prometer não fingir que está bêbada para não ensaiar.
— Prometo — Mizi riu, puxando-a para outro beijo, sentindo que, pela primeira vez desde o 8º ano, ela não precisava mais fingir nada para ninguém.
No tapete, Till soltou um ronco mais alto e virou de lado, completamente alheio ao fato de que, naquela sala tingida de neon, o segredo mais bem guardado da Escola Anakt finalmente tinha encontrado a luz.