Why you hate me ?
O Teatro das Sombras e do Desejo
O silêncio que se seguiu ao beijo foi preenchido apenas pela respiração descompassada das duas. No sofá da sala de Hyuna, sob a luz neon que agora parecia cúmplice, Mizi e Sua se olhavam como se estivessem se vendo pela primeira vez em anos. A máscara de frieza de Sua havia caído, revelando uma vulnerabilidade que Mizi nunca imaginou encontrar.
— O que acontece agora? — sussurrou Sua, os dedos ainda entrelaçados nos fios rosa de Mizi. — O que nós somos a partir de agora?
Mizi suspirou, sentindo o peso da realidade voltando. Ela pensou na escola, nos olhares, na pressão constante para ser a garota perfeita e, principalmente, no veneno que Ivan destilava diariamente.
— Eu não sei se estou pronta para enfrentar o mundo lá fora, Sua — confessou Mizi, baixando o olhar. — Se contarmos para o pessoal... o Ivan vai tornar a nossa vida um inferno maior do que já é. E a escola... eu acabei de sair do armário. Se a gente aparecer juntas agora, vão dizer que eu "transformei" você. Vão nos perseguir.
Sua sentiu um aperto no peito. O medo de Mizi era legítimo, mas a ideia de continuar fingindo era excruciante.
— Então vamos fingir? — Sua perguntou, a voz amarga. — Vamos continuar com aquele teatro? Eu te tratando mal e você fingindo que me odeia?
— Só por um tempo — Mizi pediu, segurando o rosto de Sua. — No "off", a gente pode ser o que quiser. Mas na frente deles... precisamos manter as aparências. É mais seguro assim.
Sua baixou a cabeça. Anos de repressão e as palavras cruéis de Ivan tinham deixado cicatrizes profundas em sua psique. O amor que ela sentia por Mizi não era apenas um sentimento; era uma possessão, uma necessidade vital que beirava o doentio devido ao tempo em que foi sufocado.
— Eu só... eu queria que você fosse minha de verdade — Sua deixou escapar, as palavras saindo antes que pudesse filtrá-las. — Depois de tanto tempo sofrendo, eu sinto que queria colocar uma coleira em você, Mizi. Só para garantir que você não vai fugir, que ninguém mais vai te tocar.
Mizi estancou. O brilho dourado de seus olhos vacilou por um segundo, surpresa com a intensidade sombria daquela declaração. Ela viu nos olhos roxos de Sua uma fome que ia além do romance; era um desejo de pertencimento absoluto. Em vez de se assustar, Mizi sentiu um calafrio de excitação percorrer sua espinha. Ela entendeu. Entendeu que Sua estava quebrada, e que aquela possessividade era o grito de alguém que quase se afogou na solidão.
— Vem comigo — disse Mizi, a voz subitamente mais baixa, carregada de uma nova intenção.
Ela puxou Sua pela mão, levantando-a do sofá com firmeza. Caminharam em silêncio até a cozinha, longe dos corpos apagados de Till, que roncava no tapete, e de Hyuna e Luka, que estavam em um sono profundo no andar de cima. Na cozinha, a única luz vinha da geladeira e do luar que atravessava a janela.
Mizi girou o corpo de Sua e a prensou contra a bancada de mármore frio. O impacto leve fez Sua soltar um suspiro curto. Mizi não estava mais sorrindo. Sua expressão era séria, quase predatória, e seu olhar percorria o corpo da outra como se estivesse devorando cada centímetro de sua pele pálida.
— Você quer me colocar uma coleira, Sua? — Mizi perguntou, inclinando-se até que seus lábios quase roçassem a orelha da morena. Sua voz estava muito mais rouca, sedutora e perigosa. — Pois saiba que eu já sou sua muito antes de você sequer saber meu nome.
Sua estremeceu, sentindo o calor do corpo de Mizi contra o seu.
— Eu faria qualquer coisa por você — continuou Mizi, as mãos descendo pela cintura de Sua e apertando com força. — Só por você. Mas escute bem: para o resto do mundo, nós ainda somos água e óleo. Ninguém pode saber. Esse é o nosso segredo, a nossa pequena perversão.
Mizi desceu a cabeça para o pescoço de Sua, distribuindo beijos lentos e úmidos que faziam a garota menor arquear as costas contra a bancada. De repente, Mizi forçou o joelho entre as pernas de Sua, pressionando a intimidade da outra através do tecido fino da calça. Sua soltou um gemido abafado, as mãos agarrando desesperadamente os ombros de Mizi.
— Você é minha, Sua — sussurrou Mizi contra a pele do pescoço dela, as palavras saindo como um comando. — E eu sou sua. Mas amanhã, você vai me olhar com aquele ódio que você treinou tão bem. Você vai me dar as respostas mais secas e eu vou te xingar de volta. E quando estivermos sozinhas... eu vou te mostrar o quanto eu senti sua falta.
Mizi beijou o pescoço de Sua com uma fome voraz, deixando marcas que seriam difíceis de esconder sob o uniforme. Depois, selou os lábios dela em um beijo profundo, possessivo, que não deixava margem para dúvidas. Quando se afastou, Mizi tinha um sorriso de canto, os olhos brilhando com uma malícia que Sua nunca vira antes.
— Agora, vá para o quarto de hóspedes e durma — ordenou Mizi, limpando o batom borrado com o polegar. — Eu vou embora. Não quero que ninguém desconfie de nada quando acordarem.
Sua ficou ali, encostada na bancada, as pernas bambas e o coração disparado, observando Mizi desaparecer pela porta da cozinha. O silêncio voltou, mas agora estava carregado com a promessa de um fogo que arderia nas sombras.
O domingo passou como um borrão de ressacas e despedidas desajeitadas. Hyuna e Luka desceram as escadas com sorrisos tímidos e trocas de olhares que indicavam que algo também havia mudado entre eles. Till acordou com a pior dor de cabeça de sua vida, resmungando sobre como odiava o mundo. Sua manteve a cabeça baixa, agindo como a "Sua de sempre", enquanto se despedia dos amigos e voltava para casa com o gosto de Mizi ainda em sua memória.
Na segunda-feira, a Escola Anakt parecia a mesma de sempre, mas a tensão entre as duas garotas do 3º ano tinha atingido um novo patamar de "hostilidade".
O sinal para o intervalo tocou e o grupo se reuniu no pátio. Mizi estava sentada em cima de uma mesa, balançando as pernas e rindo de algo que Hyuna dizia, quando Sua passou por perto, carregando seus livros e com a expressão mais fechada do que nunca.
— Olha só quem resolveu aparecer — provocou Mizi, a voz carregada de um sarcasmo ácido que fez os outros alunos pararem para olhar. — A rainha do gelo finalmente saiu da biblioteca. O que foi, Sua? O livro estava mais interessante que a gente?
Sua parou, virando-se lentamente. Seus olhos roxos brilhavam com um ódio que parecia real para qualquer espectador desavisado.
— Pelo menos o livro tem conteúdo, Mizi — Sua respondeu, a voz gélida e cortante. — Diferente de você, que só serve para ocupar espaço e fazer barulho. Por que você não cala a boca por cinco minutos e tenta agir como alguém que tem um cérebro?
O pátio ficou em silêncio. Ivan, que observava a cena de longe, soltou uma risada satisfeita. "Tudo voltou ao normal", pensou ele.
— Ora, sua esquisita do caralho! — Mizi gritou, pulando da mesa e caminhando até Sua, ficando a poucos centímetros de seu rosto. — Quem você pensa que é para falar assim comigo? Você é apenas uma sombra, Sua. Uma sombra amarga que ninguém suporta.
— E você é uma farsa — Sua sibilou, os dentes cerrados. — some da minha frente antes que eu perca a paciência.
— Com prazer! — Mizi rebateu, dando um empurrão leve no ombro de Sua ao passar por ela. — Ninguém quer ficar perto de alguém tão patética quanto você.
Mizi seguiu caminho, bufando de raiva fingida, enquanto Sua continuou sua trajetória sem olhar para trás. Ninguém percebeu que, no breve momento em que seus corpos se cruzaram, Mizi deixou um pequeno bilhete escorregar para dentro do livro que Sua segurava.
E ninguém viu, minutos depois, quando Sua abriu o livro no banheiro e leu as palavras escritas com a caligrafia apressada de Mizi:
"Hoje, depois da última aula, no depósito de música. Não se atrase, minha sombra favorita."
Sua fechou o livro, um pequeno e imperceptível sorriso surgindo em seus lábios. O teatro era exaustivo, o ódio fingido era amargo, mas o prêmio que as esperava nas sombras valia cada xingamento proferido sob a luz do sol. O jogo tinha começado, e elas eram as únicas que conheciam as verdadeiras regras.