Wyler 1
O Pacto das Cinzas e o Sabor do Veneno
A noite em Jericho não era apenas escura; era densa, como se o próprio ar estivesse saturado com a promessa de algo violento. Wandinha caminhava pela floresta que separava a Academia Nevermore da velha garagem, seus passos não emitindo som algum sobre o tapete de folhas em decomposição. Ela sentia o peso do diário em seu casaco, mas sentia algo mais profundo: a vibração residual daquela noite. Cada vez que o vento soprava mais frio, sua pele parecia recordar o calor febril de Tyler. Era uma anomalia biológica irritante que ela pretendia dissecar mentalmente até que não sobrasse nada além de lógica.
Ao chegar à garagem, ela não bateu. A porta rangeu sob seu toque, revelando Tyler sentado em um caixote de madeira, limpando uma mancha de graxa das mãos. Quando ele a viu, a expressão de alerta do Hyde relaxou instantaneamente, substituída por aquele olhar que Wandinha ainda estava tentando categorizar — algo entre a devoção de um acólito e a fome de um predador.
— Você voltou — disse ele, a voz ecoando nas paredes de metal. — Achei que depois de ontem você passaria uma semana trancada escrevendo sobre como as interações humanas são um desperdício de carbono.
— Eu escrevi — respondeu Wandinha, aproximando-se da luz bruxuleante de uma lâmpada pendurada. — Foram dez páginas sobre a fragilidade dos sistemas nervosos sob estresse traumático. Mas a teoria exige observação contínua.
Tyler levantou-se, caminhando em direção a ela. Ele não mantinha mais a distância cautelosa de antes. Havia uma nova fluidez em seus movimentos, uma segurança que vinha do conhecimento de que ele havia tocado a alma da garota que ninguém conseguia alcançar.
— Observação ou necessidade? — Ele parou a poucos centímetros, o cheiro de café e floresta emanando dele. — Porque o Hyde está quieto, Wandinha. Silencioso como um túmulo. Mas ele sente você chegando a quilômetros de distância. Ele não quer mais rasgar o mundo; ele quer saber o que você vai fazer a seguir.
— O que eu vou fazer é garantir que essa calmaria não seja o olho de um furacão — disse ela, seus olhos fixos nos dele, imperturbáveis. — Laurel Gates tentou controlar você através do medo e de substâncias químicas. Eu usei a realidade. Mas a realidade é uma droga que exige doses cada vez maiores.
Tyler soltou uma risada curta, mas não havia escárnio nela. Ele estendeu a mão, hesitando por um microssegundo antes de tocar uma das tranças de Wandinha.
— Você fala como se fôssemos um experimento. Mas seus batimentos cardíacos estão acelerados. Eu consigo ouvir, sabia? É como um metrônomo marcando o tempo de uma música que você se recusa a dançar.
Wandinha não se afastou. Ela permitiu o contato, sentindo a eletricidade estática entre os dedos dele e seu cabelo.
— O coração é um músculo involuntário, Tyler. Ele trai a mente com frequência. É por isso que prefiro confiar na dor. Ela é honesta.
— Então vamos ser honestos — propôs ele, sua voz baixando de tom, tornando-se perigosamente sedutora. — Você disse que me reivindicou. Que eu sou seu. Mas o que isso significa no seu mundo de sombras e máquinas de escrever? Significa que você vai me esconder aqui como um segredo sujo ou que vai me usar para queimar quem cruzar o seu caminho?
— Ambos — respondeu ela, sem hesitar. — Você é a minha arma secreta e o meu estudo de caso mais fascinante. Mas não se engane: se o Hyde tentar assumir o controle sem a minha permissão, eu mesma farei a lobotomia que a medicina moderna teme realizar.
Tyler sorriu, um brilho de desafio em seus olhos.
— Eu adoraria ver você tentar.
Ele a puxou para mais perto, suas mãos encontrando a cintura dela com uma possessividade que espelhava a de Wandinha na noite anterior. O beijo que se seguiu não teve nada de experimental. Foi um choque de vontades, um pacto selado com o gosto de café amargo e o frio da noite. Wandinha sentiu a força bruta dele contida, uma fera enjaulada que agora beijava as grades da cela com adoração.
Quando se separaram, a respiração de ambos era o único som na garagem.
— O que acontece agora? — perguntou Tyler, os dedos traçando o contorno da mandíbula dela. — Jericho ainda me vê como o filho do xerife que desapareceu, ou como o monstro que fugiu da van. Eu não posso ficar escondido para sempre.
— A invisibilidade é uma forma de poder — disse Wandinha, recuperando sua compostura com uma rapidez sobrenatural. — Mas você tem razão. Precisamos de um plano de contingência. Meu tio Chico conhece métodos de ocultação que fariam a CIA parecer uma pré-escola. Mas, por enquanto, você permanecerá aqui.
Ela caminhou até a pequena mesa onde Tyler guardava seus poucos pertences. Entre eles, havia uma flor murcha — um lírio, mas não os podres de Laurel. Era um lírio selvagem, colhido recentemente.
— Para quem é isso? — perguntou ela, a voz tingida de uma curiosidade que beirava o ciúme, embora ela jamais admitisse tal fraqueza.
— Para você — disse Tyler, aproximando-se novamente. — Eu ia levar para o seu dormitório, mas achei que a Enid teria um colapso se visse algo que não fosse rosa neon entrando pela janela. É uma lembrança de que, embora você prefira o cheiro de ozônio e morte, ainda existe algo vivo nesta floresta que não quer te matar.
Wandinha olhou para a flor. Ela a pegou com as pontas dos dedos, observando as pétalas pálidas.
— Lírios são usados em funerais — comentou ela. — É um gesto apropriado. Uma homenagem à garota que eu costumava ser antes de descobrir que o abismo tem dentes.
— E que esses dentes podem ser muito gentis quando querem — completou Tyler, envolvendo-a em um abraço por trás, apoiando o queixo no ombro dela. — Você me salvou, Wandinha. Do escuro dela. Mas agora eu estou no seu escuro. E, para ser sincero, é muito mais aconchegante aqui.
— Não se sinta confortável demais — avisou ela, embora tenha encostado a cabeça levemente contra a dele. — No meu mundo, o conforto é o prelúdio da catástrofe. Estamos em guerra, Tyler. Contra os padrões, contra Nevermore e contra o que a sociedade chama de sanidade.
— Eu nunca fui muito fã de ser são mesmo — sussurrou ele no ouvido dela, fazendo-a estremecer. — O que você quer que eu faça?
Wandinha virou-se nos braços dele, seus olhos brilhando com uma determinação letal.
— Eu quero que você treine. Não como o Hyde selvagem que ataca por instinto, mas como um executor. Quero que você aprenda a canalizar a dor que ela te causou em foco. Se vamos ser monstros, seremos os monstros mais eficientes que este mundo já viu.
Tyler assentiu, a seriedade voltando ao seu rosto. Ele entendia a linguagem de Wandinha. Não havia espaço para sentimentalismo barato, apenas para propósito e poder.
— E quanto a nós? — perguntou ele. — Além dos treinos e da guerra.
Wandinha fez uma pausa, olhando para a mancha de sangue no lençol que ainda não havia sido lavado, um troféu de sua própria entrega.
— Nós somos o que restou depois que o incêndio passou — disse ela. — As cinzas que se recusam a ser sopradas pelo vento. Amanhã, trarei livros sobre anatomia avançada e alguns venenos que você deve aprender a identificar pelo cheiro. Se o Hyde vai ser a minha espada, ele precisa ser afiado.
— E você? — Tyler sorriu, um sorriso que desta vez chegou aos olhos. — O que você vai ser?
Wandinha caminhou em direção à porta, parando apenas por um momento para olhar por cima do ombro. A luz da lua iluminava metade de seu rosto, transformando-a em uma estátua de mármore e sombras.
— Eu serei a mão que segura o cabo — respondeu ela. — E a mente que decide onde a lâmina deve cair.
Ela saiu para a noite, deixando Tyler sozinho com o cheiro dela ainda impregnado no ar. Ele olhou para as próprias mãos, as mãos que haviam matado e que agora haviam aprendido a curar — ou ao menos a segurar algo precioso sem quebrar. Ele sabia que o caminho à frente seria pavimentado com cadáveres e segredos, mas, pela primeira vez em sua vida, ele não estava correndo no escuro. Ele estava seguindo a garota de tranças pretas direto para o coração do caos, e não havia outro lugar no mundo onde ele preferiria estar.
Enquanto isso, Wandinha caminhava de volta para a escola, o lírio selvagem escondido em seu casaco. Ela pensava no sangramento, na dor e na forma como Tyler a olhara. A frieza que sempre fora seu escudo parecia agora uma armadura que ela escolhia usar, em vez de uma prisão. Ela havia encontrado algo que nem mesmo suas visões poderiam explicar: uma conexão forjada no trauma, mas temperada na vontade.
Ao entrar em seu quarto, Enid estava roncando baixinho sob suas cobertas coloridas. Mãozinha estava na mesa de cabeceira, folheando uma revista de esmaltes. Ele parou e olhou para Wandinha, seus dedos fazendo um sinal de interrogação.
— Ele está estável — respondeu ela em voz baixa, guardando o lírio em uma gaveta trancada. — Por enquanto.
Mãozinha gesticulou algo sobre perigo e xerifes.
— O perigo é o que mantém a vida interessante, Mãozinha. E quanto ao xerife... ele terá que decidir se prefere um filho monstro ou um filho morto. Eu pessoalmente acho que o monstro é muito mais útil.
Wandinha deitou-se em sua cama dura, fechando os olhos. A imagem de Tyler, coberto de graxa e sombras, foi a última coisa que viu antes de dormir. O abismo havia olhado de volta para ela, e ela havia decidido que o abismo tinha um sorriso muito bonito. A guerra estava apenas começando, e ela mal podia esperar pelo primeiro derramamento de sangue que não fosse o seu.