Voltar ao resumo

Wyler 1

O Eco das Garras e a Mentira das Sombras

O ar noturno de Jericho estava carregado com o cheiro metálico de ozônio e o aroma doce e enjoativo de folhas apodrecidas. Wandinha caminhava pela floresta com a precisão de um predador silencioso, suas botas quase não tocando o solo irregular. Seus olhos, acostumados à escuridão, escaneavam cada sombra, cada movimento dos galhos retorcidos que pareciam garras tentando alcançar o céu nublado.

Nas últimas semanas, a calmaria que se seguiu àquela noite na garagem fora substituída por uma tensão latente. Dois corpos haviam sido encontrados nos arredores da cidade — ambos dilacerados com uma precisão que a polícia local atribuía a um animal selvagem, mas que Wandinha reconhecia como a assinatura de algo muito mais sombrio. O padrão era errático, quase desesperado. E o que mais a incomodava não eram as mortes em si, mas o fato de que Tyler Galpin andava desaparecendo durante as madrugadas, retornando com um silêncio que nem mesmo ela conseguia quebrar.

Ela parou perto de uma clareira onde o nevoeiro era mais denso. O som de respiração pesada e o impacto de algo contra a madeira sólida ecoaram entre as árvores. Wandinha deslizou para trás de um carvalho centenário, sua mão deslizando para o cabo de sua adaga.

À frente, sob a luz pálida de uma lua minguante, Tyler estava de costas. Ele estava sem camisa, apesar do frio cortante, e seu corpo brilhava de suor. O que chamou a atenção de Wandinha, no entanto, foram as marcas. Sulcos profundos e avermelhados cruzavam suas costas e ombros, como se ele tivesse sido chicoteado por espinhos ou por garras. Ele golpeava o tronco de uma árvore morta com uma violência bruta, os nós dos dedos sangrando, os ombros subindo e descendo em espasmos de exaustão.

Wandinha sentiu uma pontada de algo que ela se recusava a chamar de decepção, preferindo o termo "erro de cálculo". Ela havia apostado na redenção dele, havia usado seu próprio corpo como âncora para mantê-lo humano, e agora ali estava ele, cercado pelo rastro de sangue que ela tanto tentara canalizar.

Ela saiu das sombras, sua expressão uma máscara de mármore frio.

— Imaginei que demoraria mais para você voltar aos velhos hábitos — disse ela, sua voz cortando o silêncio como uma lâmina de guilhotina.

Tyler girou o corpo instantaneamente, os olhos dilatados e selvagens, os punhos ainda cerrados. Por um segundo, o Hyde brilhou naquelas pupilas, uma chama dourada e faminta que parecia pronta para saltar. Mas, ao reconhecê-la, a tensão em seus ombros cedeu ligeiramente, substituída por um choque genuíno.

— Wandinha? — A voz dele saiu rouca, um som quebrado que arranhou o ar. Ele tentou recuperar o fôlego, limpando o sangue do rosto com o dorso da mão. — Você me seguiu?

— Considere um experimento científico — respondeu ela, aproximando-se com passos medidos, os olhos fixos nas feridas em seu peito. — Estive monitorando as variáveis. Os ataques em Jericho, suas ausências noturnas, o cheiro de sangue que você tenta esconder com sabão barato. Os resultados são decepcionantes, Tyler. Eu esperava que você fosse um monstro com mais autocontrole, ou pelo menos um mentiroso melhor.

Tyler soltou uma risada amarga, que logo se transformou em uma tosse seca. Ele se apoiou no tronco da árvore que estivera espancando, as pernas tremendo visivelmente.

— Você acha que eu fiz aquilo? — Ele apontou na direção da cidade, a mágoa transbordando em suas palavras. — Depois de tudo o que aconteceu... você realmente acha que eu saí por aí caçando turistas para me divertir?

— As evidências físicas raramente mentem — retrucou Wandinha, parando a dois metros dele. — Você está coberto de arranhões, seus dedos estão em carne viva e você exala a agressividade de uma fera que acabou de ser enjaulada. Se não foi você, quem foi? O coelhinho da Páscoa com um surto psicótico?

— Eu estava tentando impedi-lo! — Tyler explodiu, dando um passo em direção a ela, mas parando ao ver a mão dela se fechar sobre a adaga. Ele soltou um suspiro exausto e caiu sentado no chão coberto de musgo. — Eu não o matei, Wandinha. Eu o estou enfrentando. Todos os dias. Todas as noites.

Ele apontou para as marcas em seu próprio peito — cortes profundos que claramente não haviam sido feitos por um inimigo externo, mas por suas próprias mãos em um momento de frenesi.

— Ele quer sair — sussurrou Tyler, olhando para as próprias mãos trêmulas. — Desde que Laurel morreu, o Hyde ficou sem mestre. Ele está tentando encontrar um novo propósito, e o instinto dele é destruir. Eu venho para cá para... para cansá-lo. Eu bato nessas árvores até não conseguir mais sentir meus braços. Eu me corto para que a dor física me mantenha acordado, para que eu não perca a consciência e deixe que ele assuma o controle.

Wandinha observou-o com uma curiosidade renovada. Ela se aproximou e ajoelhou-se diante dele, ignorando o perigo latente. Com um movimento rápido, ela segurou o queixo dele, forçando-o a olhá-la.

— Você está se autoflagelando para punir o monstro? — perguntou ela, a voz desprovida de julgamento, mas cheia de uma análise fria. — Isso é de um masoquismo quase admirável, Tyler. Mas é ineficiente. Se você se destruir fisicamente, o Hyde apenas assumirá o controle de um corpo debilitado para sobreviver.

— E o que você quer que eu faça? — Tyler perguntou, os olhos cheios de uma vulnerabilidade que a irritava e a fascinava ao mesmo tempo. — O xerife desconfia de mim. A cidade me odeia. E a única pessoa em quem eu confio acha que eu sou um assassino reincidente. Aqueles corpos que encontraram... não fui eu. Eu senti o cheiro de quem fez aquilo.

Wandinha estreitou os olhos.

— Explique-se.

— Há outra coisa na floresta — disse Tyler, a voz baixando para um sussurro tenso. — Algo que cheira a carne podre e magia antiga. Não é um Hyde. É algo mais... sistemático. Eu tentei rastrear, mas o Hyde fica louco quando se aproxima. Ele quer lutar, ele quer rasgar o que quer que seja aquilo. Eu passo minhas noites tentando não deixar que ele vá atrás dessa coisa, porque se ele for... eu não sei se conseguirei trazê-lo de volta.

Wandinha soltou o rosto dele, seus dedos ainda sentindo o calor da pele suada. Ela olhou para as árvores ao redor, a mente trabalhando a mil por hora. Se Tyler estava dizendo a verdade — e seus batimentos cardíacos sugeriam que sim —, então Jericho tinha um problema muito maior do que um Hyde em reabilitação.

— Se existe um novo predador — disse ela, levantando-se e limpando a poeira de sua saia preta —, então seu treinamento de resistência é uma perda de tempo patética. Você está se enfraquecendo quando deveria estar se tornando uma arma mais afiada.

Tyler levantou-se com dificuldade, pegando sua camisa rasgada no chão.

— Eu não quero ser uma arma, Wandinha. Eu quero ser... eu.

— Você nunca será apenas "você" — interrompeu ela, com uma dureza que o fez estremecer. — Você é o Hyde. E eu sou uma Addams. A normalidade é um luxo para os medíocres e para os mortos. Se você quer proteger esta cidade, ou a si mesmo, precisa parar de lutar contra a sua natureza e começar a dominá-la.

Ela caminhou até ele e, para a surpresa de Tyler, colocou a mão sobre o peito dele, exatamente sobre uma das feridas que ainda sangrava.

— A dor deve ser o seu guia, não a sua carrasca — murmurou ela. — Você disse que sentiu o cheiro de quem fez os ataques. Para onde o rastro levava?

Tyler fechou os olhos por um momento, inspirando profundamente, deixando que os sentidos do monstro se misturassem aos do homem.

— Para as velhas minas — respondeu ele. — Mas o cheiro desaparece perto da entrada. É como se a própria terra estivesse escondendo a criatura.

— Interessante — disse Wandinha, um brilho de excitação mórbida surgindo em seu olhar. — As minas de Jericho têm um histórico de desabamentos suspeitos e desaparecimentos não resolvidos desde o século XIX. É o lugar perfeito para algo que deseja permanecer oculto.

— Você não está pensando em ir lá agora, está? — Tyler perguntou, preocupado. — Wandinha, está escuro e você não sabe com o que estamos lidando.

— Eu nunca deixo que a ignorância me impeça de investigar um mistério — respondeu ela, já começando a caminhar na direção oposta à escola. — E eu não vou sozinha. Vou levar o meu "investimento" comigo. Vista sua camisa, Tyler. Você vai me mostrar onde o rastro termina.

Tyler hesitou por um segundo, olhando para as próprias mãos feridas. Ele sentia o Hyde rugir em sua mente, excitado com a perspectiva de uma caçada real em vez de espancar árvores. Ele sabia que Wandinha estava brincando com fogo, e que ele era o combustível. Mas a ideia de deixá-la ir sozinha era insuportável.

— Se eu perder o controle... — começou ele.

— Se você perder o controle — interrompeu ela, virando-se apenas o suficiente para que ele visse o brilho da lâmina em sua mão —, eu garantirei que sua última visão seja a do meu rosto enquanto eu corto sua garganta. É uma promessa, não uma ameaça.

Tyler soltou um suspiro que era metade risada, metade desespero.

— Você tem um jeito muito estranho de me dar motivação.

— O sentimentalismo é para os fracos — declarou ela. — Agora, mova-se. Temos um assassino para encontrar e uma reputação para limpar. A sua, especificamente. A minha continua impecavelmente sombria.

Eles caminharam juntos pela floresta, um par improvável de sombras unidas pelo sangue e pelo segredo. Tyler sentia a presença de Wandinha ao seu lado como um imã, uma força que o ancorava mesmo quando a besta dentro dele tentava assumir o leme. Ele olhou para ela de soslaio, observando a determinação em seu perfil pálido.

— Wandinha — disse ele, depois de um tempo em silêncio.

— O que é agora?

— Obrigado. Por me seguir.

Ela não parou, nem mudou o ritmo de seus passos.

— Não me agradeça por um ato de vigilância, Tyler. Eu apenas detesto quando meus instrumentos de estudo se quebram antes que eu termine a análise.

Tyler sorriu, um sorriso real desta vez. Ele sabia que, na linguagem cifrada dos Addams, aquilo era o mais próximo de uma confissão de cuidado que ele receberia.

À medida que se aproximavam das minas, o ar tornava-se mais denso e o cheiro de decomposição que Tyler mencionara começou a se manifestar. Não era apenas morte; era algo antigo, algo que cheirava a rituais esquecidos e terra removida.

Wandinha parou na entrada de um túnel escorado por vigas de madeira podre. Ela retirou uma lanterna pequena, mas potente, de sua bolsa.

— O experimento mudou de fase — anunciou ela, a voz baixa e focada. — Agora, não estamos mais observando o monstro. Estamos caçando o que o assusta.

Tyler sentiu os pelos de seus braços se arrepiarem. Suas unhas começaram a crescer ligeiramente, a transformação batendo à porta de sua consciência.

— Ele está aqui — rosnou Tyler, sua voz mudando para um tom mais gutural. — Eu sinto... ele sabe que chegamos.

— Ótimo — disse Wandinha, dando o primeiro passo para dentro da escuridão absoluta da mina. — Eu sempre preferi convites diretos.

Eles entraram no túnel, a luz da lanterna revelando paredes de pedra úmida e teias de aranha que pareciam véus de noivas mortas. O silêncio lá dentro era absoluto, um vácuo que parecia sugar o som de suas respirações.

De repente, um som de gotejamento rítmico ecoou mais adiante. Mas não era água. O som era mais espesso, mais pesado. Wandinha direcionou a luz para o chão, onde uma trilha de sangue fresco levava para as profundezas da mina.

— Parece que chegamos a tempo para o jantar — comentou ela, sem um pingo de medo.

— Ou para sermos o prato principal — retrucou Tyler, seus olhos agora brilhando intensamente no escuro.

Eles continuaram avançando, a tensão entre eles tornando-se quase palpável. Tyler sentia a necessidade de proteger Wandinha lutando contra a necessidade de se transformar e destruir tudo ao seu redor. Ele percebeu que a presença dela ali era a única coisa que o impedia de se tornar o Hyde completamente. Ela era a sua bússola no meio do caos.

Ao chegarem a uma câmara central, a luz da lanterna revelou algo que fez até mesmo Wandinha parar por um segundo. No centro da sala, cercado por ossos humanos e restos de roupas, estava um altar improvisado de pedras negras. E sobre ele, uma criatura que parecia uma mistura grotesca de homem e inseto, com membros alongados e uma pele que parecia couro curtido.

A criatura virou a cabeça, revelando olhos multifacetados que refletiam a luz da lanterna de forma perturbadora. Ela soltou um estalido estridente que fez os ouvidos de Wandinha doerem.

— Tyler — disse Wandinha, sua voz firme e autoritária. — Considere este o seu teste final. Não lute contra ele para se punir. Lute contra ele para provar que você é o mestre da sua própria escuridão.

Tyler sentiu a barreira em sua mente ruir. Mas desta vez, ele não caiu no abismo; ele saltou nele. Suas costas se arquearam, seus ossos estalaram e seus músculos se expandiram com uma força avassaladora. O Hyde emergiu, mas não como a fera cega de Laurel Gates. Ele rugiu, um som que fez as vigas da mina tremerem, e seus olhos fixaram-se em Wandinha por um breve segundo — um reconhecimento silencioso — antes de ele se lançar contra a criatura.

Wandinha recuou para a entrada da câmara, observando a colisão de dois pesadelos com uma satisfação sombria. O Hyde lutava com uma ferocidade controlada, usando suas garras para rasgar a carapaça da criatura enquanto evitava seus apêndices afiados. Era uma dança de destruição, uma sinfonia de violência que Wandinha achava esteticamente perfeita.

Quando o combate terminou, o Hyde estava de pé sobre os restos da criatura, seu peito subindo e descendo, coberto pelo fluido escuro do inimigo. Ele se virou para Wandinha, o focinho ensanguentado, as garras ainda estendidas.

Ela não recuou. Ela caminhou até ele, parando a centímetros de suas presas.

— Bom menino — disse ela, estendendo a mão e tocando a pele áspera do focinho do monstro.

Lentamente, as feições de Tyler voltaram ao normal. O corpo diminuiu, os pelos desapareceram e ele desabou nos braços dela, exausto e trêmulo.

— Eu... eu consegui — sussurrou ele, a voz voltando ao normal. — Eu não a matei. Eu não perdi a consciência.

— Você foi eficiente — admitiu Wandinha, ajudando-o a se sentar. — Embora a limpeza posterior vá ser um pesadelo logístico.

Ela olhou para o altar e para a criatura morta. O mistério de Jericho fora resolvido, mas ela sabia que outros viriam. E agora, ela tinha a certeza de que sua âncora era mais forte do que qualquer trauma.

— Vamos embora daqui — disse ela. — O cheiro de inseto morto está começando a ofender meu senso olfativo.

Eles saíram da mina enquanto os primeiros raios de sol começavam a filtrar-se pela névoa da floresta. Tyler estava ferido, exausto e coberto de sangue, mas, pela primeira vez em muito tempo, ele se sentia limpo.

— Wandinha? — chamou ele, enquanto caminhavam de volta para a garagem.

— O que é, Tyler?

— Da próxima vez que você quiser fazer um experimento científico... pode ser algo que não envolva minas abandonadas e monstros insetos?

Wandinha olhou para ele, e por um breve momento, o canto de sua boca se elevou em algo que poderia ser interpretado como um sorriso.

— Não faça promessas que não posso cumprir, Tyler. O caos é uma amante exigente. E você sabe que eu nunca fujo de um encontro.

Eles continuaram seu caminho sob a luz do amanhecer, duas sombras que haviam aprendido que, no mundo dos monstros, a única coisa mais perigosa do que a escuridão é a pessoa que decide caminhar ao seu lado através dela.