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Wyler 1

O Eclipse da Razão e a Sopa no Inverno da Alma

A tempestade que assolava Jericho naquela noite era apenas um eco pálido do caos que se desenrolava dentro da garagem. O ar estava saturado com o cheiro de ozônio, terra molhada e algo muito mais sinistro: o odor metálico e acre do medo. Wandinha Addams estava encostada na parede de metal, a mão pressionando o ombro esquerdo, onde quatro sulcos profundos rasgavam sua camisa preta e sua carne. O sangue escorria por entre seus dedos pálidos, mas sua expressão permanecia uma máscara de mármore inabalável.

À sua frente, Tyler Galpin estava de joelhos, o corpo nu da cintura para cima sacudido por tremores violentos. Ele não era mais o Hyde, mas os resquícios da transformação ainda latejavam sob sua pele — as veias negras retrocedendo lentamente, as unhas voltando ao tamanho humano, mas ainda sujas com o sangue de Wandinha.

— Eu não... eu não queria... — A voz de Tyler era um sussurro quebrado, um som que parecia vir de uma garganta cheia de vidro moído. — Wandinha, por favor... me diz que você está bem.

O pânico começou a se manifestar da forma mais visceral possível. A respiração de Tyler tornou-se errática, pequenos silvos desesperados de quem sentia o oxigênio ser roubado por mãos invisíveis. Ele olhava para as próprias mãos, vendo o sangue dela, e a percepção de que ele quase a matara — de que o monstro fora mais forte que a âncora — desencadeou um curto-circuito em sua mente já fragilizada.

— Tyler, recomponha-se — ordenou Wandinha, sua voz firme apesar da dor latejante. — É apenas um ferimento superficial. Eu sobreviro a coisas piores antes do café da manhã.

Mas Tyler não a ouvia. Ele entrou em um estado catatônico de terror. Ele via Laurel Gates rindo nas sombras; sentia o chicote invisível do controle dela estalar em sua mente. O medo de perder o controle do Hyde novamente, de se tornar o instrumento da destruição de tudo o que ele agora valorizava, era uma agonia maior do que qualquer transformação física.

Wandinha observou-o com sua precisão analítica. Ela sabia que a culpa era um veneno que paralisava, e Tyler estava se afogando nele. Se ela não agisse, o trauma criaria uma barreira intransponível entre eles, e o Hyde, sentindo a fraqueza do hospedeiro, acabaria por devorá-lo de dentro para fora.

Ela ignorou a dor no ombro e caminhou até ele. Segurou seu rosto com as mãos frias, forçando-o a olhar para seus olhos escuros e profundos.

— Olhe para mim, Tyler Galpin. O monstro não venceu. Eu ainda estou aqui. E eu decido o que acontece neste espaço.

— Eu sou um perigo para você — soluçou ele, as lágrimas finalmente vencendo a barreira de seus olhos dilatados. — Eu quase te rasguei ao meio. Eu nunca vou conseguir parar, não é? Ele sempre vai estar lá, esperando eu baixar a guarda para te ferir.

— Então não baixaremos a guarda — disse ela, sua voz baixando para um tom de possessividade letal. — Nós vamos domar essa fera através da exposição. Você disse que teme o controle dele? Pois bem. Vamos testar os limites desse controle agora.

Wandinha começou a se despir. Não era um convite romântico; era uma declaração de guerra contra o medo dele. Ela deixou a camisa ensanguentada cair no chão, revelando as marcas frescas em seu ombro. Tyler estremeceu, querendo desviar o olhar, mas ela o impediu.

— Veja o que você fez — ordenou ela. — E veja como eu ainda estou de pé. Eu não sou uma vítima, Tyler. Eu sou sua cúmplice. E hoje, nós vamos apagar essa memória de falha com algo que você jamais poderá esquecer.

Ela o guiou até a cama pequena e gasta. O ar na garagem parecia ter ficado mais denso, carregado com a eletricidade de uma tempestade iminente. Wandinha deitou-se, sua pele pálida contrastando com os lençóis escuros, e puxou-o para cima de si.

Tyler estava hesitante, seus músculos tensos como cordas de violino prestes a romper. O toque de Wandinha era um sedativo e um estimulante ao mesmo tempo. Ela o beijou com uma ferocidade que não buscava conforto, mas submissão da alma.

— Agora — sussurrou ela contra os lábios dele. — Prove que você é o mestre.

Quando Tyler entrou nela, a sensação de conexão foi avassaladora. Mas, à medida que o ato progredia, a linha entre o homem e a fera começou a se tornar turva. O Hyde, reagindo à intensidade do momento e ao cheiro de sangue que ainda pairava no ar, começou a rugir silenciosamente no sangue de Tyler.

A adrenalina disparou. Tyler, impulsionado por um instinto que ele não conseguia mais conter totalmente, começou a se mover com uma força bruta e uma rapidez que desafiavam a fragilidade humana de Wandinha. Ele perdeu a noção da delicadeza, seus dedos cravando-se nos quadris dela com uma pressão que certamente deixaria hematomas roxos.

Wandinha sentiu a mudança. O prazer sombrio que ela buscava foi subitamente substituído por uma dor aguda e lacerante. A força dele era excessiva, um impacto rítmico que parecia querer fundir seus ossos. Ela arqueou as costas, os dentes cerrados, tentando conter o grito que subia por sua garganta.

— Tyler... — ela tentou falar, mas a voz morreu em um gemido de agonia.

Ele não parou. Seus olhos estavam fixos em um ponto além dela, brilhando com aquele dourado residual que indicava a presença do monstro. Ele estava em transe, uma máquina de carne e desejo movida pela energia do Hyde.

Wandinha sentiu o calor úmido do sangue se espalhando entre suas coxas. A dor era agora um incêndio que consumia seus sentidos. Uma lágrima solitária, traidora e involuntária, escapou de seu olho esquerdo e escorreu por sua têmpora, brilhando sob a luz fraca da garagem.

Foi essa pequena gota de água que quebrou o feitiço.

Tyler focou o olhar e viu o rosto de Wandinha. Viu a lágrima. Viu a expressão de dor que ela tentava tão desesperadamente esconder sob sua máscara de indiferença. Ele sentiu o cheiro do sangue fresco — não o do ombro, mas o que ele mesmo acabara de causar.

Ele parou abruptamente, como se tivesse levado um choque elétrico.

— Wandinha? — Ele se afastou, olhando para baixo, e o horror que sentiu foi mil vezes pior do que o de minutos atrás. — Meu Deus... não, não, não...

O lençol estava manchado de um vermelho vívido. Wandinha estava pálida, sua respiração curta e trêmula, as pernas tremendo visivelmente.

— Eu te machuquei de novo — ele sussurrou, a voz sumindo em um abismo de desespero. — Eu sou um monstro. Eu sou exatamente o que eles dizem que eu sou.

Ele saiu da cama, tropeçando em seus próprios pés, as mãos na cabeça como se tentasse impedir que seu crânio explodisse. O ataque de pânico voltou com força total, mas desta vez, o foco era o cuidado com ela.

— Tyler — Wandinha tentou se sentar, mas a dor em seu baixo ventre a fez recuar com um suspiro agudo. — Pare com isso. Foi... uma consequência fisiológica do seu estado.

— Não! — ele gritou, mas logo baixou o tom, tremendo. — Eu fui bruto demais. Eu perdi o controle de novo. Eu te fiz chorar, Wandinha. Você não chora.

Ele correu para o banheiro anexo e, em minutos, Wandinha ouviu o som da água correndo. Ele voltou com uma toalha limpa e, sem pedir permissão, a pegou no colo com uma delicadeza que contrastava brutalmente com a violência de instantes atrás.

— O que você está fazendo? — perguntou ela, embora não tivesse forças para resistir.

— Cuidando de você — disse ele, a voz agora carregada de uma determinação sombria e protetora. — Já que eu não consigo parar de te ferir, eu vou pelo menos tentar consertar o que eu fiz.

Ele a levou para o banheiro e a colocou cuidadosamente na pequena banheira de ferro. A água estava morna, temperada com sais que ele mantinha para acalmar seus próprios músculos após as transformações. Wandinha soltou um suspiro de alívio quando o calor envolveu seu corpo, ajudando a estancar a dor latejante.

Tyler ajoelhou-se ao lado da banheira. Ele pegou uma esponja e começou a limpá-la. Seus movimentos eram lentos, quase rituais. Ele limpou o sangue de suas coxas com uma reverência sagrada, seus olhos nunca saindo das marcas que ele deixara. Ele limpou o ferimento no ombro com antisséptico, ignorando as caretas discretas dela.

— Eu não mereço você — disse ele, sem olhar para cima. — Eu deveria estar em uma cela, ou morto.

— Se eu quisesse um parceiro seguro e previsível, eu teria ficado com o Xavier e seus desenhos melancólicos — respondeu Wandinha, recuperando um pouco de sua acidez característica. — Eu escolhi o monstro, Tyler. E monstros causam danos. É a natureza da nossa aliança.

— Mas não em você — rebateu ele, finalmente encontrando o olhar dela. — Nunca em você.

Depois do banho, ele a secou com uma toalha felpuda e a vestiu com uma de suas camisas de flanela, que ficava enorme nela, cobrindo-a até o meio das coxas. Ele a carregou de volta para a cama, que agora tinha lençóis limpos que ele trocara em uma velocidade impressionante enquanto ela terminava de se enxaguar.

— Fique aqui — ordenou ele. — Não se mova.

Wandinha observou-o enquanto ele se movia pela pequena cozinha improvisada da garagem. O pânico dele parecia ter se transformado em uma energia focada e servil. O som de vegetais sendo picados e o aroma de caldo de carne começaram a preencher o ambiente.

Cerca de meia hora depois, ele voltou com uma tigela fumegante.

— Sopa de cebola e carne — disse ele, sentando-se na beira da cama. — Meu pai dizia que isso cura qualquer coisa, desde resfriados até corações partidos. No seu caso... espero que ajude com a fraqueza.

Ele pegou uma colher e a levou até a boca dela. Wandinha hesitou por um segundo, sua independência gritando contra aquele ato de cuidado doméstico, mas o olhar de súplica nos olhos de Tyler a venceu. Ela aceitou a sopa.

— Está... aceitável — admitiu ela. — Embora eu prefira algo com um toque de arsênico para dar sabor.

Tyler soltou um pequeno sorriso, o primeiro daquela noite longa. Ele continuou a alimentá-la em silêncio, garantindo que ela comesse cada gota. Quando a tigela estava vazia, ele a colocou de lado e deitou-se ao lado dela, mas mantendo uma distância segura, como se tivesse medo de que seu toque pudesse quebrá-la novamente.

— Wandinha — disse ele, olhando para o teto. — Eu vou aprender a controlar. Eu juro. Nem que eu tenha que me acorrentar todas as noites.

Wandinha moveu-se lentamente, ignorando o desconforto, e deslizou para perto dele, forçando-o a abraçá-la. Ela sentiu o corpo dele tencionar, mas logo ele relaxou, envolvendo-a com um braço protetor.

— As correntes são para os fracos, Tyler. Nós usaremos algo mais forte: a vontade. Esta noite foi um lembrete de que a escuridão é vasta, mas não é invencível.

— Você sentiu dor por minha causa — sussurrou ele, beijando o topo da cabeça dela.

— A dor é a prova de que a nossa conexão é real — respondeu ela, fechando os olhos. — O sangue que eu perdi hoje é o sacrifício que oferecemos ao destino para que ele nos deixe em paz por enquanto.

Eles ficaram ali, no silêncio da garagem, enquanto a chuva martelava no telhado de zinco. Tyler não dormiu; ele ficou vigiando o sono dela, sentindo cada respiração de Wandinha contra seu peito. Ele sabia que o Hyde ainda estava lá, espreitando nas sombras de sua alma, mas naquela noite, o homem havia vencido. A sopa, o banho, o cuidado — eram suas armas contra a besta.

Wandinha, em seu sono profundo e sem sonhos, sabia que havia mudado algo fundamental. Ela havia visto o limite do monstro e sobrevivido. E, para uma Addams, não havia nada mais romântico do que dançar na beira do abismo e sair viva para contar a história, mesmo que com algumas cicatrizes a mais e uma sopa quente para aquecer a alma gelada.