Wyler 1
O Batismo das Cinzas e o Silêncio do Predador
A luz cinzenta da manhã seguinte infiltrava-se pelas frestas da garagem, desenhando linhas geométricas de poeira suspensa sobre o corpo de Tyler. Ele ainda estava na mesma posição, um sentinela exausto, os olhos abertos e fixos na porta, enquanto Wandinha permanecia aninhada contra seu peito, uma pequena ilha de quietude em meio ao seu oceano de culpas. A respiração dela era regular, mas Tyler sentia cada batimento do coração dela como se fosse um trovão. Cada batida era um lembrete: *ela está viva, apesar de você.*
Wandinha despertou sem o sobressalto comum aos mortais. Seus olhos abriram-se lentamente, revelando as íris escuras que pareciam absorver a pouca luz do ambiente. Ela sentiu a rigidez nos músculos de Tyler e o calor persistente da febre que parecia nunca abandoná-lo totalmente.
— Você não dormiu — afirmou ela, a voz levemente rouca, mas mantendo a precisão de um veredito.
— Eu não podia — respondeu Tyler, a voz falhando. — Eu precisava ter certeza de que você não ia... de que nada ia mudar durante a noite.
Wandinha sentou-se devagar. O desconforto em seu ventre ainda era uma presença física, uma pontada surda que a lembrava da violência contida — e às vezes não contida — do Hyde. Ela olhou para o próprio ombro, onde o curativo improvisado por Tyler estava manchado de um marrom seco.
— A biologia humana é resiliente, Tyler. Especialmente a minha. Os Addams têm uma predisposição genética para sobreviver a desastres, sejam eles naturais ou... sobrenaturais.
Ela se levantou, a camisa de flanela dele caindo como um manto fúnebre sobre seus ombros pálidos. Caminhou até a pequena mesa e serviu-se de um copo de água, observando o reflexo de seu próprio rosto no vidro sujo. Havia olheiras sob seus olhos, mas também uma clareza que beirava a crueldade.
— O que aconteceu ontem não foi um erro — continuou ela, virando-se para ele. — Foi uma calibração. O Hyde reagiu ao estímulo. Agora sabemos onde reside o limite da sua humanidade.
Tyler levantou-se, sentindo o peso do mundo em seus ombros. Ele caminhou até ela, parando a uma distância que agora parecia ser sua nova regra de conduta.
— Calibração? Wandinha, eu quase te destruí. Se eu não tivesse visto aquela lágrima...
— Aquela lágrima foi uma falha do ducto lacrimal provocada por um estímulo doloroso agudo — interrompeu ela, cortante. — Não a confunda com sentimentalismo. O que importa é que você parou. O homem venceu o monstro no momento mais crítico. Isso é o que chamamos de progresso.
Tyler soltou uma risada amarga, passando as mãos pelo cabelo bagunçado.
— Você tem um jeito muito peculiar de ver o mundo. Eu vejo sangue e dor. Você vê dados e progresso.
— É por isso que somos uma aliança perfeita — disse ela, aproximando-se e colocando a mão pequena e fria sobre o peito dele, exatamente onde o coração batia com força. — Você fornece o caos, e eu forneço a ordem para governá-lo.
O silêncio que se seguiu foi interrompido apenas pelo som da chuva que começava a cair novamente lá fora, um tamborilar constante no telhado de zinco. Tyler cobriu a mão dela com a sua, sentindo a diferença de temperatura.
— E se a ordem não for suficiente da próxima vez? — perguntou ele, os olhos cheios de uma sombra que Wandinha reconhecia bem. — E se o Hyde decidir que não quer mais ser governado?
— Então eu encontrarei uma forma de tornar a rebelião dele tão dolorosa que a obediência parecerá um paraíso — respondeu ela, sem pestanejar. — Mas não chegaremos a isso. Hoje, começaremos o condicionamento.
— Condicionamento? — Tyler franziu a testa. — Você fala como se estivesse treinando um cão de guarda.
— Cães de guarda são previsíveis e tediosos — disse ela, afastando-se para procurar suas roupas pretas. — Você é um Hyde. Você é uma força da natureza. E forças da natureza não são treinadas; elas são canalizadas. A sopa que você fez ontem...
— O que tem ela? — Tyler perguntou, confuso com a mudança de assunto.
— Estava impregnada de um instinto protetor que beirava o patológico — disse Wandinha, vestindo sua camisa preta com cuidado. — Você usou a mesma energia que usa para rasgar carne para cuidar de um ferimento. Essa é a chave. O Hyde não é apenas destruição; ele é intensidade. Precisamos aprender a direcionar essa intensidade para onde eu desejar.
Tyler observou-a se vestir, admirando a forma como ela ignorava a dor física em favor de sua vontade inabalável.
— Você quer que eu seja o seu executor — disse ele, não como uma pergunta, mas como uma constatação.
— Eu quero que você seja a extensão da minha vontade — corrigiu ela. — Jericho está mudando. Nevermore está mudando. Há sombras se movendo nos cantos que nem mesmo os meus olhos conseguem ver claramente ainda. Laurel Gates foi apenas o prelúdio. O que está por vir exigirá algo mais do que visões e sarcasmo. Exigirá garras.
Ela terminou de abotoar a camisa e virou-se para ele, a expressão séria.
— Mas antes de qualquer coisa, você precisa se limpar. O cheiro de culpa e suor está começando a se tornar opressor.
Tyler soltou um suspiro, sentindo a tensão deixar seus ombros pela primeira vez em horas.
— Vou preparar outro banho. Para nós dois?
Wandinha hesitou por um segundo. A lembrança da água morna e do cuidado de Tyler na noite anterior ainda estava fresca em sua mente, uma sensação que ela não estava pronta para descartar totalmente.
— Apenas se você prometer não tentar me alimentar com mais sopa de cebola — disse ela, o que Tyler sabia ser o seu equivalente a um "sim".
Enquanto a água corria na banheira de ferro, Tyler sentiu uma paz estranha se instalar. Ele ainda temia o monstro, ainda temia a si mesmo, mas ter Wandinha ali, ditando as regras de seu próprio inferno, tornava tudo suportável.
Eles entraram na água juntos, o espaço apertado forçando o contato físico que ambos agora buscavam e temiam. Wandinha sentou-se entre as pernas de Tyler, as costas encostadas no peito dele. Ele pegou a esponja e começou a lavar os ombros dela, seus movimentos sendo lentos e deliberados, uma penitência silenciosa.
— Wandinha — sussurrou ele, perto do ouvido dela.
— Diga.
— Por que você não me entregou? Naquela noite na floresta... ou depois. Você poderia ter acabado com tudo isso. Poderia ter sido a heroína de Jericho.
Wandinha fechou os olhos, sentindo o calor da água e a pressão das mãos dele.
— Ser uma heroína é um destino vulgar, Tyler. É ser limitada pela moralidade dos outros. Eu prefiro ser a arquiteta do meu próprio desastre. E você... você é a peça mais interessante do meu quebra-cabeça. Destruir você seria um desperdício de potencial estético e estratégico.
Tyler sorriu contra a pele dela.
— Potencial estético. É assim que você chama o fato de eu ser um monstro assassino.
— A morte tem sua própria estética — respondeu ela. — E você a executa com uma brutalidade que é, de certa forma, honesta. Não há hipocrisia no Hyde. Ele é o que é. É o homem que tenta esconder o monstro que é o verdadeiro mentiroso.
— Então eu devo parar de mentir? — Tyler parou o movimento da esponja, esperando a resposta.
Wandinha virou a cabeça ligeiramente, encontrando o olhar dele.
— Pare de mentir para si mesmo. Aceite que o sangue em suas mãos nunca sairá totalmente. E quando aceitar isso, você verá que o sangue pode ser uma tinta muito útil para escrever o futuro.
Eles ficaram na água até que ela começasse a esfriar. O silêncio entre eles não era mais preenchido por fantasmas, mas por uma compreensão tácita. Eles eram dois seres quebrados que haviam encontrado uma forma de se encaixar, mesmo que as bordas fossem afiadas e causassem sangramentos.
Ao saírem, Tyler ajudou-a a se secar, seus movimentos carregados de uma ternura que parecia curar as feridas que ele mesmo causara. Ele a vestiu como se ela fosse uma boneca de porcelana negra, preciosa e perigosa.
— O que fazemos agora? — perguntou ele, enquanto ela pegava sua mochila.
— Agora, eu volto para Nevermore — disse ela. — Tenho uma aula de esgrima onde pretendo humilhar o Xavier Thorpe para aliviar a tensão. E você... você vai ficar aqui. Vai meditar sobre o que aconteceu. E vai aprender a ouvir o Hyde sem se deixar consumir por ele.
Ela caminhou até a porta, mas parou e olhou para trás.
— E Tyler...
— Sim?
— A sopa não estava tão ruim assim. Só precisava de um pouco mais de pimenta preta.
Com isso, ela saiu para a manhã nublada, deixando Tyler com um sorriso que não era de um monstro, nem de uma vítima, mas de um homem que finalmente tinha algo por que lutar.
Wandinha caminhou pela floresta, sentindo o latejar em seu corpo como um lembrete constante de sua humanidade e de sua conexão com o abismo. Ela sabia que o xerife Galpin estava perto de descobrir a verdade, que a escola estava cheia de espiões e que o perigo era iminente. Mas, pela primeira vez em sua vida, ela não se sentia apenas uma espectadora do macabro.
Ela era a protagonista. E seu monstro estava à espera.
Ao chegar aos portões de Nevermore, ela viu Enid acenando freneticamente de uma das janelas. O mundo colorido e barulhento da lobisomem parecia agora um universo distante. Wandinha ajustou sua postura, ignorando a dor, e entrou no pátio.
Mãozinha saltou de um arbusto e subiu em seu ombro, gesticulando nervosamente sobre onde ela estivera.
— Não seja dramático, Mãozinha — sussurrou ela. — Eu estava apenas garantindo que o nosso investimento não perdesse o valor de mercado.
A mão gesticulou algo sobre o sangue na camisa dela, que ela não tivera tempo de trocar totalmente.
— Isso? — Wandinha olhou para a mancha. — É apenas o batismo das cinzas. O preço que se paga para governar o inferno.
Ela entrou no prédio principal, sua mente já traçando os próximos passos. O sangue no lençol da garagem, a dor em seu ventre, o sabor da sopa e o brilho nos olhos de Tyler — tudo isso eram fios de uma tapeçaria que ela estava tecendo. Uma tapeçaria que retrataria a queda de Jericho e a ascensão de algo muito mais sombrio.
Enquanto caminhava para o seu quarto, ela cruzou com Xavier. Ele parou, observando-a com aquele olhar de artista que tenta capturar o que não pode ser compreendido.
— Você parece diferente hoje, Wandinha — disse ele, franzindo a testa. — Mais... intensa.
— A intensidade é a única resposta adequada para um mundo medíocre, Xavier — respondeu ela, sem parar. — Você deveria tentar. Talvez suas pinturas parassem de parecer o diário de um adolescente deprimido.
Ela entrou em seu quarto e fechou a porta, encostando-se nela por um momento. O silêncio do quarto era bem-vindo. Ela caminhou até sua máquina de escrever e inseriu uma folha de papel.
*“O monstro e a âncora”*, escreveu ela.
*“Não há redenção sem dor, e não há poder sem sacrifício. O sangue que mancha o altar da intimidade é o mesmo que lubrifica as engrenagens do destino. Ele pensa que me feriu. Ele não entende que, para um Addams, a ferida é o portal. Agora, o Hyde tem um rosto. E o rosto é o meu.”*
Ela parou de digitar, olhando para a folha branca. Lá fora, o trovão ecoou novamente, e Wandinha sentiu uma satisfação gélida percorrer sua espinha. A tempestade estava apenas começando, e ela era a única que tinha um raio capturado em um frasco.
Tyler, na garagem, olhava para a tigela de sopa vazia e para o lençol manchado. Ele sentia o Hyde rugir, mas desta vez, o rugido era de lealdade. Ele sabia que, custasse o que custasse, ele nunca mais deixaria Wandinha Addams sangrar sozinha. Eles eram as sombras de Jericho, e a noite pertencia a eles.
Wandinha sorriu, um movimento quase imperceptível dos lábios, enquanto o som das teclas da máquina de escrever voltava a preencher o quarto, ditando o ritmo de uma sinfonia que terminaria em cinzas. E ela mal podia esperar para ver o mundo queimar.