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Gravidade Zero e Outras Confusões

O ar condicionado da sala de ensaio 4 parecia insuficiente para o calor que emanava do centro da sala. O treino de "Satellite Hearts" estava em sua fase mais crítica: o ajuste das interações visuais. Como a música falava sobre a força invisível que puxa duas pessoas, o coreógrafo insistia que Ara e Yeonjun precisavam de "mais magnetismo".

— Ara, você está hesitando no giro — o instrutor disse, limpando o suor da testa. — Você precisa se inclinar como se soubesse que o Yeonjun vai te segurar, não importa o quê. Confiança total. Yeonjun, você precisa puxá-la com mais urgência. Não é um convite, é uma necessidade.

Ara respirou fundo, secando a nuca com o braço. Ela olhou para Yeonjun. Ele estava parado a dois metros, os cabelos escuros grudados na testa, a regata branca agora quase transparente de suor, revelando a linha dos músculos que ele vinha esculpindo com tanta disciplina. Ele a encarou de volta, e por um segundo, a máscara de "melhor amigo" que ela usava na frente da equipe técnica rachou.

— Vamos de novo — Yeonjun disse, a voz mais rouca que o normal devido ao cansaço. — Eu te seguro, Ara. Pode se jogar.

A música recomeçou. O batimento do sintetizador ecoou pelas paredes espelhadas. Ara se moveu, seu corpo magro e ágil deslizando pelo chão de madeira. Quando chegou o momento do giro, ela fechou os olhos por uma fração de segundo e se lançou para trás, desafiando a gravidade.

As mãos de Yeonjun a encontraram com uma precisão que fez o estômago dela dar um nó. Ele a puxou para perto, colando as costas dela em seu peito. A força dos braços dele era evidente, a firmeza de quem não a deixaria cair nem se o mundo acabasse naquele instante.

— Viu? — ele sussurrou perto do ouvido dela, enquanto a coreografia exigia que eles ficassem imóveis por três tempos. — Eu disse.

— Menos conversa, Choi — ela rebateu, embora estivesse com o coração disparado contra as costelas.

No canto da sala, sentados no chão com garrafas de água e toalhas, os outros integrantes observavam. Beomgyu estava com o queixo apoiado na mão, um sorriso de quem sabia demais estampado no rosto.

— Se eles ficarem mais perto que isso, a empresa vai ter que mudar a classificação indicativa do comeback — Beomgyu comentou, alto o suficiente para Sora ouvir ao seu lado.

— Cala a boca, Beomgyu — Sora respondeu, embora não tirasse os olhos da dupla. — Chama-se profissionalismo. Coisa que você claramente não conhece quando está tentando não rir durante as partes sérias.

— Ah, é profissionalismo? — Beomgyu arqueou uma sobrancelha. — Então por que a Ara está com a mesma cara de boba que ela fica quando o Yeonjun-hyung traz café pra ela escondido?

Sora abriu a boca para retrucar, mas parou. Ela conhecia Ara melhor do que quase ninguém. E Beomgyu, infelizmente, tinha razão. Havia um brilho no olhar de Ara que não era técnico. Era o brilho de quem finalmente tinha parado de fugir.

— Finalmente! — o coreógrafo exclamou, batendo palmas. — Essa é a energia. Estão dispensados por hoje. Amanhã quero essa mesma intensidade.

Assim que o instrutor saiu, o clima de seriedade evaporou. Riku e Haein começaram a fazer uma versão cômica da dança, enquanto Huening Kai e Nari dividiam um pacote de biscoitos num canto, conversando baixinho sobre alguma música nova que tinham descoberto.

Ara caminhou até sua bolsa, mas sentiu a presença de Yeonjun logo atrás dela.

— Você foi incrível hoje — ele disse, estendendo uma garrafa de água gelada para ela.

— Eu sou sempre incrível, Junie. Você que demorou para notar — ela provocou, pegando a garrafa e sentindo o toque dos dedos dele nos seus. Foi um contato breve, mas carregado de eletricidade.

— Eu notei há anos — ele murmurou, aproximando-se mais, aproveitando que os outros estavam distraídos com a bagunça de Riku. — Só estou feliz que agora não preciso mais fingir que não noto.

Ara sentiu aquele calor familiar subir pelo rosto. Ela odiava o quanto ele conseguia deixá-la sem palavras apenas com uma frase honesta.

— Ei, pombinhos! — a voz de Soobin ecoou pela sala. O líder do TXT estava parado perto da porta, com sua habitual aura de calma observadora. — O manager está chamando para a reunião de cronograma. Yeonjun, você vem agora ou prefere que eu invente que você ficou preso no espelho admirando os próprios músculos?

Yeonjun riu, jogando a toalha no ombro.

— Já vou, Soobin.

Ele olhou para Ara uma última vez, um olhar que dizia tudo o que eles não podiam falar em voz alta naquele momento.

— Te vejo mais tarde? — ele perguntou.

— Talvez — ela respondeu, recuperando sua aura caótica. — Se eu não estiver muito ocupada ignorando suas mensagens.

— Você nunca me ignora. Você visualiza em três segundos e finge que esqueceu de responder — ele piscou para ela e saiu, seguindo Soobin.

Ara ficou ali por um momento, apenas respirando. Ela sentia o peso do anel que Yeonjun lhe dera, pendurado em uma corrente fina por baixo de sua roupa de treino. Era o segredo mais precioso que ela já guardara.

— Ele está totalmente na sua mão, sabia? — Sora se aproximou, jogando um braço pelos ombros de Ara.

— Do que você está falando? — Ara tentou parecer desentendida.

— Por favor, Ara. Até o Kai, que vive no mundo da lua, já percebeu. O jeito que ele cuida de você... ele nem disfarça mais. Ele te olha como se você fosse a única pessoa na sala, mesmo quando o Bang PD está presente.

— É tão óbvio assim? — Ara suspirou, deixando a guarda cair um pouco.

— Para nós? Sim. Para os fãs? Talvez ainda não. Mas se continuarem com essa "tensão magnética" no palco, vocês vão causar um curto-circuito na internet.

Ara riu, guardando suas coisas.

— Às vezes eu gosto tanto dele que fico meio assustada, Sora. Parece que a qualquer momento alguém vai acordar a gente desse sonho.

— Não é um sonho — Sora disse, subitamente séria. — Vocês dois sofreram o suficiente naquele término mal resolvido. Se alguém merece um pouco de felicidade agora, são vocês. Só tentem não ser pegos pelo Beomgyu em situações comprometedoras. Ele não tem filtro.

— Tarde demais para isso — Ara resmungou, lembrando-se do incidente na cozinha.

***

Mais tarde naquela noite, o dormitório do Sweet Salad estava silencioso. A maioria das meninas já tinha ido dormir ou estava em seus quartos. Ara estava na cozinha, tentando preparar um chá, quando ouviu a senha da porta sendo digitada.

Não era comum receberem visitas àquela hora, a menos que fosse algo urgente. Mas Ara não se assustou. Ela reconheceria aquele ritmo de digitação em qualquer lugar.

Yeonjun entrou, vestindo um casaco pesado e um gorro. Ele parecia exausto, mas seus olhos brilharam ao vê-la ali, sob a luz suave da bancada.

— O que você está fazendo aqui? — ela sussurrou, aproximando-se. — A Yuna vai te matar se te encontrar aqui à meia-noite.

— Eu precisava te entregar uma coisa — ele disse, tirando uma pequena sacola de papel do bolso do casaco. — Eu vi isso hoje e lembrei de você.

Ara abriu a sacola. Dentro, havia um pequeno chaveiro de pelúcia de um gatinho preto com uma expressão emburrada. Era idêntico à cara que ela fazia quando ele a provocava.

— Você é ridículo — ela riu, sentindo o peito aquecer. — Veio até aqui por causa de um chaveiro?

— Não — ele disse, dando um passo para frente e envolvendo a cintura dela com os braços, puxando-a para o espaço entre suas pernas enquanto ele se encostava na bancada. — Eu vim porque o dia foi longo e o único jeito de eu conseguir dormir é se eu tiver um minuto de paz com você.

Ara relaxou nos braços dele, apoiando as mãos nos ombros largos de Yeonjun. Ela sentia a firmeza dos músculos dele através do casaco, uma âncora em meio ao caos de suas vidas de ídolos.

— Você está ficando muito romântico, Choi Yeonjun. Onde está aquele garoto impulsivo que eu conheci?

— Ele amadureceu — ele respondeu, roçando o nariz no dela. — Ele aprendeu que amar você não é sobre grandes gestos o tempo todo, mas sobre estar aqui. Mesmo quando é arriscado. Mesmo quando é só por cinco minutos.

Ele a beijou. Foi um beijo lento, com sabor de saudade e de promessa. Ara se perdeu na sensação, suas mãos subindo para acariciar a nuca dele, os dedos se perdendo nos fios de cabelo curtos. Ali, na penumbra da cozinha, eles não eram os centers de grupos globais. Eram apenas dois jovens tentando fazer dar certo o que o destino quase separou.

— Sabe — ela sussurrou contra os lábios dele —, eu ia te mandar uma mensagem de piada agora.

— Eu sei. Algo sobre como eu sou um assistente de cozinha ruim?

— Exatamente — ela riu baixo. — Mas acho que vou guardar essa para amanhã. Por enquanto... só fica aqui mais um pouco.

Yeonjun a apertou mais forte, escondendo o rosto no pescoço dela.

— Eu não vou a lugar nenhum, Ara. Já te disse. Você é a minha gravidade.

Eles ficaram ali, em silêncio, enquanto o mundo lá fora continuava girando. Eles sabiam que o amanhã traria mais ensaios, mais câmeras e mais segredos para manter. Mas, por enquanto, o "Satellite Hearts" tinha encontrado seu porto seguro. E não havia nada, nem a gravidade, nem a fama, que pudesse separá-los novamente.

No corredor, Haein, a maknae observadora, passou de fininho a caminho do banheiro. Ela viu a cena na cozinha, sorriu para si mesma e voltou para o quarto sem fazer barulho. Ela não diria nada. Afinal, no Sweet Salad e no TXT, o amor entre Ara e Yeonjun já não era mais um segredo, era a melodia que mantinha todos eles em harmonia.