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Amanhecer em Veludo e Neve

O silêncio da madrugada era uma substância densa e confortável no quarto de Ara. A luz azulada da lua de inverno filtrava-se pelas frestas da cortina, desenhando linhas geométricas sobre o tapete felpudo e sobre a cama, onde dois mundos colidiam em um emaranhado de lençóis e respirações sincronizadas. Yeonjun não tinha ido embora. O risco de ser pego pela líder Yuna ou por algum staff matutino era alto, mas o desejo de permanecer ali, sentindo o calor da pele de Ara contra a sua, tinha vencido qualquer prudência.

Ele estava deitado de lado, um braço pesado e protetor jogado sobre a cintura dela, enquanto a cabeça de Ara repousava no vão do seu pescoço. Ali, sem as luzes dos palcos ou as câmeras de alta definição, a força física de Yeonjun parecia ainda mais imponente. Os ombros largos, que sustentavam o peso das expectativas do mundo, agora serviam apenas como travesseiro para a mulher que ele amava.

Ara acordou antes do sol. O despertador interno de uma idol raramente descansava, mas, em vez da ansiedade habitual, ela sentiu uma paz profunda. O peito de Yeonjun subia e descia contra suas costas, um ritmo constante que parecia ancorá-la no presente. Ela se virou lentamente nos braços dele, tentando não despertá-lo. Observou o rosto dele em repouso: as pálpebras relaxadas, os lábios carnudos levemente entreabertos e a expressão calma que ele só se permitia ter longe dos holofotes.

Com um sorriso travesso e carinhoso, Ara aproximou-se. Ela começou a traçar o contorno da mandíbula dele com a ponta dos dedos, descendo pela linha do pescoço onde a pulsação dele era visível. Ela se inclinou e depositou um beijo suave ali, bem sobre a veia pulsante, sentindo o cheiro de sândalo misturado ao calor do sono.

Yeonjun soltou um murmúrio baixo, uma vibração que Ara sentiu contra seus próprios lábios. Os olhos dele se abriram devagar, nublados pelo sono, mas brilharam instantaneamente ao focarem nela.

— Isso é um jeito muito perigoso de acordar alguém, Ara-yah — ele sussurrou, a voz tão grave e rouca que fez a espinha dela estremecer.

— Bom dia para você também, assistente de cozinha — ela brincou, dando outro beijo, dessa vez no queixo dele. — Você sabe que hoje é nosso dia de folga, certo? O primeiro em meses.

Yeonjun sorriu, puxando-a para mais perto e enterrando o rosto na curva do pescoço dela, devolvendo os carinhos com beijos lentos e úmidos.

— Eu sei. E pretendo passar cada segundo dele olhando para você. Mas, primeiro... — ele a apertou contra seu corpo, a força dos seus braços deixando claro que ele não a soltaria tão cedo — ... mais cinco minutos assim.

— Cinco minutos podem virar cinco horas com você, Junie — ela riu, mas se aconchegou, fechando os olhos e aproveitando a segurança daquele abraço.

***

Horas depois, o desafio era sair do dormitório sem causar um alvoroço. O Sweet Salad estava em silêncio, a maioria das integrantes aproveitando a folga para dormir até tarde. Ara usava um casaco de lã oversized que a fazia parecer ainda menor e mais delicada, enquanto Yeonjun optou por um visual discreto: jeans escuros, um moletom preto e um boné enterrado até os olhos.

Eles caminharam pelas ruas de Seul como dois estranhos que por acaso seguiam a mesma direção, mantendo uma distância segura até chegarem a um pequeno bairro residencial, longe dos distritos comerciais onde os fãs costumavam caçar idols. O destino era um café escondido em um beco estreito, famoso por seus doces e pela privacidade quase absoluta.

— Você acha que alguém nos viu sair? — Ara perguntou, a voz abafada pelo cachecol, enquanto entravam no estabelecimento que cheirava a grãos torrados e canela.

— O Soobin me mandou uma mensagem dizendo que o Beomgyu tentou me procurar no quarto e ele disse que eu tinha saído para correr — Yeonjun respondeu, escolhendo uma mesa no fundo, protegida por uma estante de livros. — Então, tecnicamente, eu sou um atleta muito dedicado agora.

— Um atleta que está prestes a comer um pedaço gigante de bolo de morango — ela provocou, sentando-se à frente dele e tirando a máscara.

Yeonjun a observou. A luz da manhã refletia nos olhos dela, e ele sentiu aquela pontada familiar de adoração. Ara era um caos de energia e piadas, mas ali, na tranquilidade da folga, ela parecia mais suave.

— Sabe o que eu estava pensando hoje cedo? — Yeonjun perguntou, esticando a mão sobre a mesa para tocar a ponta dos dedos dela.

— No quanto eu sou incrível e em como você tem sorte?

— Também. Mas eu estava pensando em como é estranho. Milhões de pessoas nos veem todos os dias, analisam cada passo nosso, e ninguém faz ideia de que este é o meu momento favorito do dia. Só eu e você, sem música de fundo, sem figurino.

Ara suavizou a expressão, a ironia desaparecendo por um momento. Ela virou a mão para entrelaçar os dedos nos dele.

— Eu também, Junie. Às vezes eu fico assustada porque parece que a Ara que o mundo conhece é apenas uma versão... barulhenta. A Ara que está aqui agora, com você, é a única que eu realmente quero ser.

Eles pediram café e doces, conversando sobre coisas triviais: filmes que queriam ver, a nova coreografia de Riku que era um desastre técnico, e como o anel que ele dera a ela combinava perfeitamente com a pulseira de miçangas que ela insistia que ele usasse por baixo dos relógios caros.

— Você ainda está usando? — ela perguntou, apontando para o pulso dele.

Yeonjun levantou a manga do moletom, revelando a pulseira colorida com as letras "YJ" e um pequeno coração.

— Eu nunca tiro. É o meu amuleto. Quando as coisas ficam pesadas no estúdio ou quando as críticas na internet são ruins, eu olho para isso e lembro que existe um mundo onde eu sou apenas o seu Junie.

Ara sentiu os olhos arderem levemente. Ela odiava ser sentimental, então fez o que sempre fazia: recorreu ao humor.

— Que bom, porque se você perdesse, eu ia te fazer fazer uma nova, e você é péssimo com trabalhos manuais. Lembra daquela vez que tentou fazer um origami para mim e acabou parecendo um papel amassado por um caminhão?

Yeonjun soltou uma gargalhada alta, atraindo o olhar curioso da barista, mas logo baixou o tom.

— Ei, eu me esforcei! Era para ser um grou. A intenção é o que conta, não é?

— A intenção foi linda, o resultado foi trágico — ela riu, pegando um pouco de chantilly do seu café e sujando a ponta do nariz dele.

Yeonjun nem se limpou imediatamente. Ele apenas a olhou com um brilho desafiador nos olhos.

— Você vai pagar por isso, Ara.

— Ah, vou? E como?

— Assim.

Ele se inclinou sobre a mesa, ignorando o risco, e a beijou rapidamente. Foi um beijo com gosto de café e açúcar, rápido o suficiente para não atrair atenção, mas longo o suficiente para fazer as bochechas de Ara ganharem um tom rosado que não vinha do frio.

— Você é louco — ela sussurrou, sorrindo.

— Por você? Completamente.

Depois do café, eles decidiram caminhar por um parque próximo. A neve caía em flocos finos, cobrindo as árvores nuas com um manto branco. Eles andavam de braços dados, escondidos sob o guarda-chuva que Yeonjun segurava. Para qualquer passante, eram apenas um casal de namorados aproveitando o inverno. Ninguém desconfiava que ali estavam dois dos nomes mais comentados da indústria do K-pop.

— Sabe, Ara — Yeonjun começou, parando em frente a um lago congelado —, eu não trocaria esse silêncio por nenhum aplauso no Gocheok Sky Dome.

— Nem eu — ela admitiu, encostando a cabeça no ombro dele. — É engraçado. A gente passa a vida querendo o brilho, mas é no escuro, escondido de todos, que a gente realmente se encontra.

Eles ficaram ali por um longo tempo, observando a neve cair. Yeonjun envolveu Ara em um abraço por trás, protegendo-a do vento frio com seu corpo largo e forte. Ara se sentia pequena e segura, envolta pelo calor dele.

— Às vezes eu gosto tanto de você que fico meio assustada — ela repetiu a frase que se tornara o mantra deles.

— E eu vou estar aqui para te segurar toda vez que esse susto bater — ele respondeu, beijando o topo da cabeça dela.

A folga estava chegando ao fim, e logo eles teriam que voltar para suas respectivas bolhas, para os ensaios de "Satellite Hearts" e para o jogo de esconderijos. Mas, enquanto caminhavam de volta para o carro, Ara sentia que suas baterias estavam totalmente carregadas.

Ao chegarem perto do dormitório do Sweet Salad, Yeonjun estacionou em uma rua lateral. O momento da despedida era sempre o mais difícil.

— Amanhã temos ensaio geral — ele lembrou, a mão acariciando o rosto dela. — Tente não me provocar tanto na frente do coreógrafo.

— Não prometo nada — ela sorriu maliciosamente. — Ver você tentando manter a pose de ídolo sério enquanto eu flerto com você através da dança é o meu passatempo favorito.

— Você é terrível.

— E você me ama.

— Amo — ele disse, com uma seriedade que a fez parar de rir. — Mais do que eu consigo colocar em palavras.

Ele a beijou uma última vez, um beijo profundo que carregava toda a promessa de que, não importa o quão difícil fosse o segredo, valia a pena. Ara saiu do carro, colocou a máscara e o capuz, e caminhou em direção ao prédio. Antes de entrar, ela olhou para trás e viu Yeonjun acenando discretamente com os faróis.

Ao entrar no dormitório, ela foi recebida pelo caos habitual. Riku estava tentando ensinar uma dança viral para Haein na sala, e Yuna estava na cozinha conferindo a lista de compras.

— Onde você estava? — Yuna perguntou, levantando os olhos do tablet. — Você sumiu o dia todo.

— Fui caminhar — Ara disse, tirando o casaco e revelando um sorriso radiante que ela não conseguia esconder. — O ar fresco faz bem para a pele, sabia?

Yuna estreitou os olhos, notando o brilho nos olhos da amiga e o jeito que ela tocava o anel escondido sob a corrente no pescoço.

— Sei... — a líder sorriu de canto, voltando para sua lista. — O "ar fresco" parece ter feito milagres pelo seu humor. Só tente não deixar esse ar fresco queimar o jantar de novo, ok?

Ara riu, subindo para o seu quarto. Ela se jogou na cama, o cheiro de Yeonjun ainda impregnado em suas roupas. Ela pegou o celular e viu uma notificação de mensagem.

*Yeonjun: Já estou com saudade. Meu pescoço ainda sente o seu beijo. Durma bem, minha caótica favorita.*

Ara abraçou o travesseiro, sentindo o coração bater forte. O mundo podia não saber, os fãs podiam nem desconfiar, mas entre as batidas de "Satellite Hearts" e o silêncio das folgas de inverno, ela tinha encontrado o seu lugar. E, pela primeira vez, o susto de amar tanto alguém não parecia mais um aviso de perigo, mas sim o som da música mais bonita que ela já tinha ouvido.