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Entre o Palco e o Infinito

O ensaio geral para a primeira performance de "Satellite Hearts" em um programa de música não era apenas uma questão de trabalho; era um teste de resistência para os nervos de Ara. O auditório da emissora estava mergulhado em uma penumbra azulada, com luzes de laser cortando o ar como cicatrizes de néon. No centro do palco, o TXT e o Sweet Salad estavam posicionados para a marcação final.

Ara sentia o suor escorrer pelas suas costas, mas não era apenas pelo esforço físico. Era a proximidade. Naquela coreografia, Yeonjun era sua sombra, seu contraponto, a força gravitacional que a impedia de flutuar para longe. Toda vez que as mãos dele tocavam sua cintura para o levantamento principal, a memória da noite anterior no dormitório voltava como uma onda de choque. A pele dele contra a dela, o silêncio compartilhado, a vulnerabilidade que agora parecia tatuada em suas almas.

— Ara, foco! — gritou o diretor através do alto-falante. — Você está olhando para o chão. Olhe para o Yeonjun. Vocês são satélites, lembram? Vocês não conseguem desviar o olhar mesmo que queiram.

Ara respirou fundo, endireitando a postura. Ela levantou o queixo e encontrou os olhos de Yeonjun. Ele não estava apenas atuando. Havia um brilho possessivo e terno ali que a fez estremecer.

— Ele está tentando me matar — sussurrou ela para si mesma, antes da música recomeçar.

A batida de "Satellite Hearts" preencheu o vácuo do auditório. Eles se moveram em sincronia perfeita, uma dança de aproximação e repulsa que espelhava exatamente a história deles. Quando chegou a ponte da música, onde os dois grupos se cruzavam no palco, Yeonjun passou por ela. Foi um segundo, um flash de movimento, mas ele inclinou a cabeça o suficiente para que seu ombro roçasse o dela, um toque desnecessário para a coreografia, mas essencial para ele.

— Você está indo bem, estrela — murmurou ele, tão baixo que apenas os microfones desligados poderiam ignorar.

Ara quase perdeu o passo, mas recuperou-se com uma pirueta impecável. Ela sorriu para as câmeras apagadas, uma expressão de pura provocação. Se ele queria jogar assim no palco, ela saberia revidar.

No final da música, os treze idols estavam ofegantes. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelos aplausos esparsos da staff.

— Ótimo, pessoal! — disse o diretor. — Dez minutos de pausa e depois gravamos a versão definitiva.

Assim que as luzes do palco se acenderam totalmente, a bolha de intimidade estourou. Beomgyu, sempre o radar humano para o caos, aproximou-se de Yeonjun com uma toalha no pescoço e um sorriso de quem tinha descoberto o segredo do universo.

— Hyung, se você chegar mais perto da Ara-noona na próxima vez, o figurino de vocês vai acabar se fundindo — zombou Beomgyu, cutucando o abdômen definido de Yeonjun. — O diretor pediu magnetismo, não uma fusão nuclear.

— Inveja é uma coisa feia, Beomgyu — Yeonjun respondeu, pegando uma garrafa de água e bebendo metade de uma vez, os músculos do pescoço trabalhando de forma que Ara achou injustamente atraente. — Por que você não vai ver se a Sora precisa de ajuda com os passos dela? Ouvi dizer que ela chutou o ar quase acertando o Soobin agora pouco.

— Ela não chutou o ar, ela estava expressando a frustração artística dela — Beomgyu defendeu-se, embora seus olhos tenham buscado Sora imediatamente no outro lado do palco.

Ara caminhou até o canto onde as meninas do Sweet Salad estavam reunidas. Yuna a observava com uma sobrancelha erguida, enquanto Nari e Kai trocavam playlists em um canto, parecendo dois personagens de um drama indie bucólico.

— Você está bem? — perguntou Yuna, entregando um energético para Ara. — Você parece... elétrica. Mais do que o normal.

— É a música, unnie — mentiu Ara, limpando o suor da testa. — Ela mexe com a gente, não mexe?

— Mexe — concordou Yuna, olhando significativamente para onde Yeonjun estava. — Especialmente quando a pessoa com quem você está dividindo o palco é o motivo da letra ter sido escrita.

Ara sentiu o rosto esquentar e rapidamente desviou o assunto.

— Onde está a Riku? Ela disse que ia trazer aqueles doces de arroz.

— Ela está tentando convencer o Taehyun de que alienígenas construíram a HYBE — Sora interveio, aproximando-se com uma expressão de tédio fingido. — Honestamente, a colaboração com o TXT está destruindo os neurônios que nos restavam.

A pausa foi curta. Logo, eles estavam de volta às posições. Mas, desta vez, a atmosfera era diferente. Havia uma eletricidade estática entre os dois grupos. O segredo de Ara e Yeonjun, embora oficialmente guardado, estava vazando pelos poros de cada movimento que faziam.

Durante a gravação oficial, Ara sentiu-se flutuar. Em um momento específico, onde ela e Yeonjun ficavam de costas um para o outro, ela sentiu o calor dele irradiando através das roupas finas. Ela inclinou a cabeça para trás, encostando-a por meio segundo no ombro dele. Foi um gesto de confiança absoluta. Yeonjun respondeu segurando a mão dela por um breve momento antes de se separarem para o refrão final.

Quando as câmeras pararam de rodar e o "OK" final foi dado, a exaustão finalmente os atingiu.

— Vamos para a van! — anunciou o manager do Sweet Salad. — Temos que estar na empresa em trinta minutos para o monitoramento.

Ara começou a recolher suas coisas, mas sentiu um puxão suave em seu braço. Era Yeonjun. Ele a conduziu para trás de uma das cortinas pesadas do palco, onde a luz era escassa.

— O que você está fazendo? — sussurrou ela, embora seu coração estivesse martelando contra o peito. — Alguém pode ver.

— Só um segundo — pediu ele. Ele tirou algo do bolso do casaco de treino: uma pequena pulseira de miçangas, idêntica à que ela tinha feito para ele, mas com as cores invertidas. — Eu terminei hoje de manhã.

Ara olhou para o objeto simples e sentiu uma onda de afeto tão grande que quase perdeu o fôlego. O grande "it boy" da quarta geração, o dançarino prodígio, tinha passado seu tempo livre fazendo pulseiras de miçangas para ela.

— Você é um bobo, Choi Yeonjun — disse ela, estendendo o pulso para que ele a colocasse.

— Eu sou o seu bobo — corrigiu ele, fechando o fecho com cuidado. — Agora vá, antes que a Yuna venha aqui com uma lanterna nos procurar.

Ara deu um beijo rápido na bochecha dele e correu para a van, sentindo o peso leve da pulseira em seu pulso como se fosse uma armadura.

A viagem de volta para a HYBE foi barulhenta. Riku e Beomgyu estavam discutindo sobre qual era o melhor sabor de sorvete, enquanto Soobin tentava, sem sucesso, mediar a briga. Sora estava com os fones de ouvido, mas Ara notou que ela lançava olhares frequentes para Beomgyu quando ele não estava olhando.

Ao chegarem na empresa, o grupo foi direto para a sala de monitoramento. Assistir à performance foi uma experiência surreal. Na tela, a química entre Ara e Yeonjun era inegável. Cada olhar, cada toque, parecia carregado de uma história de anos.

— Uau — disse Haein, a maknae, que geralmente era a mais silenciosa. — Vocês dois parecem... que estão em outro planeta.

— É o conceito da música, Haein-ah — disse Yeonjun, embora não conseguisse esconder o sorriso orgulhoso.

— Se o conceito é "eu te amo tanto que dói", então vocês ganharam um Daesang — comentou Taehyun, com sua lógica afiada e direta, sem tirar os olhos da tela.

O silêncio que se seguiu foi desconfortável, mas logo foi quebrado pela risada nervosa de Ara.

— Taehyun-ah, você lê livros de psicologia demais — disse ela, tentando disfarçar.

A reunião terminou tarde. Quando Ara finalmente saiu da sala, o corredor estava vazio e silencioso. Ela caminhou em direção ao elevador, sentindo o cansaço nos ossos, mas uma leveza estranha na alma. As portas do elevador se abriram e, para sua surpresa, Yeonjun estava lá dentro.

— Perseguindo-me de novo? — perguntou ela, entrando e apertando o botão do estacionamento.

— Sempre — admitiu ele, encostando-se na parede do elevador. — Como você está?

— Cansada. Feliz. Um pouco assustada com o quão óbvios nós fomos hoje.

Yeonjun deu um passo à frente, entrando no espaço pessoal dela. O elevador começou a descer, o leve solavanco fazendo Ara se equilibrar nele.

— Deixe que eles falem, Ara. Deixe que eles suspeitem. Eu cansei de ter medo de como eu me sinto.

— Eu também — confessou ela, olhando para a pulseira em seu pulso. — Mas você sabe como é. A empresa, os fãs... nós temos muito a perder.

— Nós temos mais a perder se nos perdermos de novo — disse ele, a voz carregada de uma convicção que sempre a desarmava. — Eu prefiro enfrentar mil escândalos do que passar mais um dia fingindo que você é apenas minha "melhor amiga".

Ara sorriu, sentindo as lágrimas arderem nos olhos. Ela se inclinou e encostou a testa no peito dele.

— Às vezes eu gosto tanto de você que fico meio assustada — repetiu ela, a frase que se tornara o código secreto deles.

— E eu já te disse — respondeu ele, abraçando-a com força —, que eu vou estar aqui para segurar o susto.

O elevador chegou ao estacionamento com um "plim" suave. Eles se separaram relutantemente. Yeonjun tinha que ir para o dormitório do TXT e Ara para o do Sweet Salad.

— Boa noite, estrela — disse ele, saindo primeiro para garantir que o caminho estava livre.

— Boa noite, Junie.

Ara caminhou até a van do seu grupo, onde as meninas já a esperavam. Ao entrar, ela encontrou Sora sentada no fundo, olhando para o celular com uma expressão pensativa.

— Ele te deu a pulseira? — perguntou Sora, sem levantar os olhos.

Ara congelou por um segundo, mas depois relaxou. Não havia sentido em esconder das suas irmãs de grupo.

— Deu.

— Ele é um idiota romântico — comentou Sora, finalmente olhando para ela com um pequeno sorriso. — Mas ele te faz feliz. E, depois de tudo o que vocês passaram, acho que é isso que importa.

— Obrigada, Sora-unnie.

— Não me agradeça. Só tente não ser pega pelas câmeras de segurança da próxima vez. O Soobin quase teve um ataque cardíaco tentando distrair o segurança enquanto vocês estavam atrás da cortina hoje.

Ara riu, uma risada leve e genuína que parecia ter sido guardada por anos.

Enquanto a van se afastava da HYBE, Ara olhou pela janela para as luzes de Seul. Ela pensou no longo caminho que percorreram do término doloroso até aquele momento de cumplicidade absoluta. Eles ainda eram satélites, sim. Mas, pela primeira vez, eles não estavam apenas orbitando um ao outro à distância. Eles tinham encontrado o ponto de colisão, e em vez de destruição, tinham encontrado a criação de algo novo, algo que brilhava mais do que qualquer luz de palco.

Em seu pulso, as miçangas coloridas brilhavam sob a luz dos postes de rua. Ela tocou cada uma delas, lembrando-se da promessa silenciosa de Yeonjun. Eles poderiam ser segredo para o mundo, mas entre eles, tudo era verdade.

— Próxima parada: dormitório! — anunciou o motorista.

Ara fechou os olhos, sentindo o balanço da van. Ela sabia que o amanhã traria mais desafios, mais críticas e mais pressão. Mas enquanto ela tivesse aquele "idiota romântico" ao seu lado, o universo não parecia tão vasto e frio. Afinal, mesmo no vácuo do espaço, corações de satélite sempre encontram o caminho de casa.

E em algum lugar de Seul, em outra van, Yeonjun olhava para a sua própria pulseira, sorrindo para o escuro, sabendo que, finalmente, a gravidade tinha feito o seu trabalho. Eles estavam juntos. E desta vez, nada seria capaz de lançá-los para fora da órbita um do outro.