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Ecos de Inverno e o Calor do Batimento
A manhã seguinte ao ensaio geral de "Satellite Hearts" trouxe consigo uma névoa fria que abraçava os prédios de Seul, mas dentro do dormitório do Sweet Salad, o clima era de uma agitação doméstica e caótica. Ara estava sentada no chão da sala, cercada por fios de nylon, miçangas coloridas e pequenos pingentes de prata. Ela trabalhava com uma concentração que raramente mostrava, exceto quando estava no palco.
— Você vai acabar ficando vesga se continuar olhando para essas bolinhas desse jeito — comentou Sora, passando pela sala com uma caneca de café e o cabelo curto ainda bagunçado pelo sono.
— É um projeto importante, unnie — Ara respondeu sem desviar o olhar. — O Yeonjun me deu uma pulseira ontem. Eu preciso retribuir à altura.
Sora parou, encostando-se no batente da porta.
— Você sabe que ele usaria até um colar de macarrão cru se você desse para ele, não sabe? Aquele garoto está tão perdido por você que é quase constrangedor assistir aos ensaios.
— Não exagera — Ara sentiu as bochechas esquentarem. — Eu só quero que ele tenha algo físico para segurar quando a gente estiver longe. O cronograma do TXT para a próxima turnê japonesa saiu, e a gente vai ficar semanas sem se ver.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Sora suspirou, aproximando-se e sentando-se no sofá atrás de Ara.
— É o preço que a gente paga, não é? Satélites que brilham para todo mundo, mas que raramente conseguem tocar o solo um do outro. Mas olha pelo lado positivo: o segredo de vocês está seguro com a gente. E o Soobin-oppa é um túmulo.
Ara sorriu, finalmente dando o nó final na pulseira azul e prata.
— Eu sei. Só queria que as coisas fossem menos... complicadas.
***
O "complicado" ganhou um novo significado naquela tarde, quando os dois grupos se reuniram na sala de prática da HYBE para os ajustes finais da performance. Yeonjun entrou na sala parecendo exausto, com olheiras leves sob os olhos, mas seu rosto se iluminou instantaneamente ao ver Ara.
Ela estava fazendo um aquecimento intenso, a perna esticada em um ângulo impossível na barra. Yeonjun caminhou até ela, ignorando os olhares cúmplices de Beomgyu e Haein.
— Você dormiu alguma coisa? — ele perguntou, a voz baixa e rouca, parando ao lado dela.
— O suficiente para sonhar com você errando o tempo da ponte — ela provocou, descendo a perna e virando-se para ele com um sorriso atrevido. — E você? Parece que foi atropelado por um caminhão de glitter.
— O conceito do novo photoshoot foi "excesso" — ele riu, passando a mão pelo cabelo. — Eu ainda estou tirando brilho das orelhas.
Ara riu e, aproveitando que o coreógrafo estava distraído conversando com Yuna, ela pegou algo no bolso do moletom e deslizou para a mão de Yeonjun.
— O que é isso? — ele perguntou, fechando os dedos sobre o objeto pequeno e morno.
— Um amuleto de proteção contra caminhões de glitter e turnês longas demais — ela sussurrou.
Yeonjun abriu a mão e viu a pulseira. Era simples, mas os detalhes em prata brilhavam sob as luzes fluorescentes. Ele a colocou imediatamente no pulso oposto ao que já tinha o relógio da marca que ele representava.
— Eu não vou tirar nunca — ele prometeu, os olhos fixos nos dela com uma intensidade que sempre fazia o coração de Ara falhar uma batida.
— Se você tirar, eu vou saber — ela ameaçou de brincadeira. — Eu coloquei um feitiço de rastreamento nela.
— Por favor, coloque. Assim você sempre vai saber que eu estou voltando para você.
A dinâmica entre os dois durante o ensaio foi elétrica. Ara, sendo naturalmente provocadora, começou a adicionar pequenos detalhes à coreografia que não estavam no script original. Um toque mais demorado no ombro dele durante a transição, um olhar por cima do ombro que carregava todo o flerte irônico que ela dominava tão bem.
Yeonjun, que agora estava mais estável e menos impulsivo, não revidou com agressividade. Em vez disso, ele respondeu com carinho. Durante um momento em que eles deveriam apenas estar próximos, ele ajeitou uma mecha de cabelo que tinha caído no rosto dela, um gesto tão natural e íntimo que fez o resto da sala ficar em silêncio por um segundo.
— Vocês dois — gritou o coreógrafo, batendo palmas —, se continuarem assim, a audiência vai precisar de um ventilador para assistir à apresentação. Ara, menos provocação. Yeonjun, menos "olhar de cachorrinho apaixonado". Foco no profissionalismo!
Beomgyu soltou uma gargalhada alta, jogando-se no chão.
— Eu avisei! Eu disse que o magnetismo deles ia acabar quebrando as câmeras!
Sora revirou os olhos, mas havia um sorriso escondido no canto de sua boca.
— Deixa eles, Beomgyu. Pelo menos alguém aqui tem uma vida amorosa que não envolve brigar com o reflexo no espelho.
— Ei! Eu tenho sentimentos, sabia? — Beomgyu fingiu estar ofendido, lançando um olhar de soslaio para Sora que não passou despercebido por Ara.
***
Após horas de ensaio exaustivo, o grupo foi liberado. Yeonjun conseguiu interceptar Ara no corredor que levava aos elevadores privativos.
— Minha van sai em dez minutos — ele disse, puxando-a para um canto mal iluminado entre duas salas de armazenamento. — Mas eu precisava de um momento "Ara-Junie" sem o Beomgyu narrando cada passo.
Ara riu, encostando as costas na parede fria. Yeonjun se aproximou, colocando as mãos na parede de cada lado da cabeça dela, prendendo-a em seu espaço pessoal. O cheiro de suor e sândalo era inebriante.
— Você foi terrível hoje — ele murmurou, aproximando o rosto. — Aquela piscada durante o refrão quase me fez esquecer como se respira.
— Eu só estava testando seus novos reflexos de "namorado amadurecido" — ela retrucou, passando as mãos pela cintura dele, sentindo a firmeza dos músculos sob a camiseta de treino. — Parece que eles ainda precisam de treino.
— Ah, é? — Yeonjun sorriu, aquele sorriso ladino que sempre a desarmava. — E como você sugere que a gente treine?
Ele não esperou por uma resposta. Ele a beijou com uma urgência que contrastava com a calma que ele tentava manter o dia todo. Era um beijo que carregava a frustração de ter que manter distância, a saudade antecipada da turnê e todo o amor que eles tinham redescoberto.
Ara se perdeu na sensação. Suas mãos subiram para a nuca dele, os dedos se perdendo nos fios de cabelo úmidos. Ela se sentia pequena e protegida sob a sombra dele, um contraste de curvas suaves contra a força definida do corpo dele.
— Eu vou sentir tanto a sua falta — ele sussurrou contra os lábios dela, a respiração pesada.
— Eu também — ela confessou, a voz um pouco trêmula. — Às vezes eu gosto tanto de você que fico meio assustada, Junie. Parece que o mundo é grande demais e a gente é... pequeno demais para proteger isso.
Yeonjun se afastou apenas o suficiente para olhar nos olhos dela. Ele pegou a mão dela e a levou ao seu peito, onde o coração batia de forma frenética.
— O mundo pode ser grande, Ara. Mas enquanto esse coração aqui bater, ele vai bater por você. Não importa se eu estiver em Tóquio, Seul ou na lua. Eu sou o seu satélite. Eu sempre volto para a minha órbita.
Ara sentiu as lágrimas arderem, mas sorriu. Ela se inclinou e deu um selinho rápido nele.
— Vai logo antes que o seu manager venha aqui me dar um sermão sobre cronogramas.
— Eu vou. Mas eu quero um bilhete.
— Um bilhete? — ela arqueou a sobrancelha.
— Sim. Você costumava me escrever bilhetes quando a gente começou a namorar pela primeira vez. Eu ainda tenho todos eles. Escreva um para eu levar para o Japão.
Ara sentiu o coração derreter. O Yeonjun impulsivo do passado teria pedido uma foto ou uma promessa; o Yeonjun de agora queria algo tangível, uma conexão real e eterna.
— Tudo bem. Eu escrevo. Mas só se você prometer não chorar lendo no avião. O Soobin vai me matar se você chegar no Japão com os olhos inchados.
— Eu não prometo nada — ele piscou, deu um último beijo na testa dela e correu em direção à saída.
***
Naquela noite, no silêncio de seu quarto, Ara pegou um papel de carta azul-claro. Ela olhou para a caneta por um longo tempo, as palavras se atropelando em sua mente. Ela pensou em como eles tinham começado, no término doloroso, na amizade forçada e na maneira como, aos poucos, as peças do quebra-cabeça tinham se encaixado novamente.
"Para o meu satélite favorito," ela começou a escrever.
"Eu passei muito tempo fingindo que estava tudo bem sem você. Eu fiz piadas, eu flertei, eu tentei encontrar o seu brilho em outras pessoas, mas a verdade é que ninguém tem a sua gravidade. Você amadureceu, Yeonjun. Você se tornou o homem que eu sempre soube que você seria, e eu estou tão orgulhosa de estar ao seu lado.
Não importa a distância. Use a pulseira e lembre-se que, toda vez que você olhar para ela, eu estarei aqui, treinando os mesmos passos, sentindo o mesmo frio na barriga e esperando o momento em que a nossa órbita vai se cruzar de novo.
P.S: Se você perder essa pulseira, eu juro que te dou um soco quando você voltar.
Com todo o meu amor assustado e infinito, Ara."
Ela dobrou o papel com cuidado e o colocou dentro de um envelope pequeno, selando-o com um adesivo de estrela.
No dia seguinte, no aeroporto, Yeonjun encontrou o envelope dentro de sua mochila, colocado lá secretamente por Kai a pedido de Ara. Ele se sentou no assento do avião, colocou os fones de ouvido e abriu o papel.
Enquanto lia, um sorriso largo e genuíno se espalhou por seu rosto. Ele olhou para a pulseira em seu pulso e depois para a janela, onde as nuvens começavam a esconder Seul.
— O que você está lendo, hyung? — perguntou Beomgyu, espiando por cima do ombro dele.
Yeonjun fechou o papel com cuidado e o guardou no bolso interno do casaco, bem perto do coração.
— A minha bússola, Beomgyu. Estou lendo a minha bússola.
Beomgyu sorriu, voltando para o seu videogame. Ele sabia. Todos eles sabiam.
A distância poderia ser física, o segredo poderia ser pesado e a indústria poderia ser cruel. Mas entre Ara e Yeonjun, a música nunca parava. Eles eram o eco um do outro, o calor no meio do inverno e a certeza de que, não importa o quão longe um satélite viaje, ele sempre conhece o caminho de volta para casa. E para Yeonjun, casa tinha o nome de Ara, o cheiro de ensaio e o sabor de um amor que, finalmente, tinha aprendido a voar sem medo de cair.