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You hate me?

O Silêncio Quebrado e o Caos entre Amigos

A luz do sol de terça-feira filtrava-se pelas cortinas de seda do quarto de Mizi, pintando listras douradas sobre o edredom bagunçado. Sua despertou lentamente, sentindo o corpo como se tivesse sido atropelado por um caminhão de veludo. Cada músculo de suas pernas latejava com uma dormência persistente, e suas costas pareciam ter se esquecido de como se manter eretas.

Ao tentar se mexer, sentiu um peso quente e possessivo sobre sua cintura. Mizi estava agarrada a ela por trás, a respiração calma batendo contra sua nuca, os cabelos rosa e azul espalhados pelo travesseiro como uma explosão de cores.

Sua tentou soltar um grito de surpresa, mas o que saiu de sua garganta foi apenas um som áspero e seco, um chiado que mal lembrava uma voz humana. Ela estava completamente rouca. O pânico subiu como uma maré; as memórias da noite anterior voltaram em flashes vívidos: a pressão do joelho de Mizi na biblioteca, as mãos dela explorando cada centímetro de seu corpo, os gemidos que ela mesma soltara até perder o fôlego.

— M-Mizi... — tentou dizer, mas a voz falhou totalmente.

Mizi resmungou, apertando mais o abraço antes de abrir um dos olhos amarelos. Ao ver o estado de desespero estampado no rosto pálido de Sua, ela soltou uma risadinha matinal, rouca e charmosa.

— Bom dia, pequena — disse Mizi, dando um beijo preguiçoso no ombro de Sua. — Por que essa cara? Parece que viu um fantasma.

Sua apontou para a própria garganta, os olhos arregalados. Ela estava tendo um colapso mental silencioso. "Eu realmente fiz isso? Com a Mizi? Na casa dela? Três vezes?", ela se perguntava, sentindo o rosto esquentar até atingir um tom de beterraba.

— Ah, a voz? — Mizi sentou-se na cama, espreguiçando-se e deixando o lençol cair levemente. — Bom, depois de tanto gritar o meu nome, eu estranharia se você acordasse cantando ópera.

Sua escondeu o rosto nas mãos, querendo que o chão do apartamento se abrisse. Mizi, achando a reação adorável, ajudou-a a se levantar, mas no momento em que os pés de Sua tocaram o chão, seus joelhos cederam.

— Opa! — Mizi a segurou pela cintura, impedindo-a de cair. — Calma. Eu acho que exagerei um pouquinho na dose ontem.

Sem dar tempo para Sua protestar, Mizi a pegou no colo e a levou para o banheiro. O banho foi um momento de cuidado silencioso; Mizi lavou o cabelo de Sua com delicadeza, enquanto a garota de cabelos pretos permanecia em um estado de choque catatônico, apenas aceitando o carinho e o fato de que sua vida nunca mais voltaria ao normal.

***

Na escola, o cenário era de pura sobrevivência. Sua caminhava pelos corredores como se estivesse pisando em ovos. Sempre que precisava parar, procurava imediatamente uma parede ou um armário para se escorar. Suas pernas tremiam ao menor esforço, e a falta de voz tornava qualquer interação social um desafio hercúleo.

O grupo se reuniu no pátio antes do sinal. Ivan estava terminando um pacote de balas de goma, falando sem parar sobre um jogo novo, enquanto Till parecia mais mal-humorado que o normal, chutando pedrinhas no chão. Hyuna estava sentada no banco, girando uma bola de vôlei, e Luka ajustava os óculos enquanto lia um resumo de história.

— Sua? Você tá bem? — perguntou Hyuna, franzindo a testa ao ver a amiga se encostar pesadamente em um pilar. — Você tá pálida... bom, mais pálida que o normal. E tá andando esquisito.

Sua apenas assentiu com a cabeça, forçando um sorriso amarelo. Ela não ousava abrir a boca.

— Ela tá com dor de garganta — Mizi apareceu do nada, passando o braço pelos ombros de Sua com uma naturalidade assustadora. — Ficamos estudando até tarde e ela pegou um sereno na varanda. Não é, Sua?

Sua apenas concordou, sentindo o peso do braço de Mizi e o perfume de morango que agora a fazia ter lembranças muito específicas. Till estreitou os olhos verdes, desconfiado.

— Estudando? Vocês duas? — Till bufou. — Sei. Mizi, você não estuda nem se o mundo for acabar amanhã.

— Invejoso — Mizi mostrou a língua para ele, rindo.

Durante as primeiras aulas, Sua simplesmente apagou. Ela encostou a cabeça na mesa e dormiu um sono profundo e pesado. O professor de matemática até estranhou, já que Sua era a aluna mais aplicada, mas ninguém teve coragem de acordá-la.

No horário seguinte, a aula era de História. O professor, um homem de meia-idade que adorava trabalhos em grupo, anunciou:

— Grupos de seis para o seminário sobre a Revolução Industrial. Organizem-se.

A movimentação começou. Mizi, sempre ágil, puxou as cadeiras. A disposição ficou estratégica: Mizi sentou-se à frente de Hyuna; de um lado de Mizi estava Ivan, do outro Till. Hyuna ficou no meio, entre Luka e Sua.

Sua ainda parecia estar em outro planeta. Ela se escorou na mesa, tentando manter os olhos abertos, mas a letargia era imensa. Hyuna, que conhecia Sua desde o 9º ano e tinha um faro aguçado para segredos, inclinou-se na direção da amiga.

— Sua, fala a verdade pra mim — cochichou Hyuna, baixinho, para que os meninos não ouvissem. — Você e a Mizi não estavam estudando porcaria nenhuma, né? Você tá acabada. Parece que passou por um moedor de carne.

Sua olhou para Hyuna. A morena tinha um olhar preocupado, mas cheio de uma curiosidade genuína. Sua sabia que não conseguiria esconder nada de Hyuna por muito tempo; elas eram amigas demais para isso. Além disso, o segredo estava queimando dentro dela.

Sua aproximou-se do ouvido de Hyuna. Sua voz saiu em um sussurro arranhado, quase imperceptível, mas as palavras foram claras o suficiente.

— A gente... a gente ficou, Hyuna. Na casa dela. Foi... muito.

Hyuna congelou. Seus olhos azuis se arregalaram tanto que pareciam que iam saltar das órbitas. O silêncio durou exatos dois segundos, o tempo necessário para o cérebro de Hyuna processar a informação e entrar em curto-circuito.

— VOCÊ TRANSOU COM A MIZI?! — o grito de Hyuna ecoou pela sala silenciosa como uma explosão de dinamite.

O tempo parou. O professor de história deixou o giz cair. Os alunos das outras mesas viraram os pescoços tão rápido que alguns quase tiveram torcicolo. No centro do grupo, o impacto foi sísmico.

Ivan parou de mastigar sua bala, a boca aberta, deixando o doce cair no colo. Luka empurrou os óculos para cima, o rosto ficando vermelho instantaneamente. Till... Till parecia ter sido atingido por um raio; ele ficou estático, a pele cinzenta tornando-se quase branca, os olhos verdes fixos em Sua com uma mistura de horror e descrença.

— Hyuna! — Sua tentou repreender, mas sua voz falhou e ela acabou apenas cobrindo o rosto com as mãos, querendo desaparecer da existência.

Mizi, surpreendentemente, foi a única que não perdeu a pose. Ela soltou uma gargalhada alta, jogando a cabeça para trás, parecendo achar a situação a coisa mais divertida do mundo.

— Caramba, Hyuna! — Mizi disse, ainda rindo. — Não precisava anunciar pro diretor pelo alto-falante.

— Peraí... — Ivan finalmente recuperou a fala, a voz subindo dois oitavos. — Isso é sério? Tipo, sério mesmo? Vocês duas? Ontem?

— Mas a Mizi... a Mizi é... — Luka gaguejou, olhando de Mizi para Sua. — Eu achei que ela gostasse de... bom, de ninguém da escola.

— E eu não gosto de "ninguém" — Mizi piscou para o grupo, colocando a mão sobre a de Sua, que ainda estava escondida. — Mas a Sua não é "ninguém". Ela é a minha pessoa favorita. Eu achei que isso já estivesse claro.

Till finalmente explodiu. Ele levantou-se da cadeira, fazendo um barulho estridente de metal raspando no chão.

— Ficou com ela?! — ele apontou para Mizi, a voz trêmula de raiva e mágoa. — Você sabia que eu... todo mundo sabia! E você vai lá e fica com a Sua? Logo a Sua, que nem fala nada?

— Till, senta a bunda nessa cadeira agora — Hyuna interveio, recuperando o controle da situação, embora ainda estivesse em choque. — Primeiro, a Mizi não te deve nada. Segundo, se elas se gostam, o problema é delas. Mas, pelo amor de Deus, Sua! Por que você não me contou que era lésbica? E por que logo a Mizi? Ela é um perigo!

Sua, vendo que não tinha mais como fugir, respirou fundo, sentindo a garganta arder.

— Eu... — ela começou, a voz saindo em um fio rouco. — Eu sempre gostei dela. Desde o 9º ano. Eu só achei que nunca teria chance.

— E eu sempre soube — completou Mizi, olhando para o grupo com um desafio brilhante nos olhos. — Só estava esperando o momento certo para tirar essa gatinha da toca. E pelo visto, eu fiz um bom trabalho, já que ela nem consegue andar direito hoje.

— MIZI! — Luka, Ivan e Hyuna gritaram em coro, chocados com a falta de filtro da garota.

— O quê? É a verdade — Mizi deu de ombros, sorrindo de lado.

Ivan começou a rir, uma risada nervosa que logo se tornou contagiante.

— Cara, isso é bizarro. O Till vai infartar, o Luka tá em choque e eu... eu só queria saber se isso significa que a gente vai ter que aguentar vocês de melação no recreio agora.

— Se você reclamar, Ivan, eu te obrigo a assistir a gente se beijando — provocou Mizi, fazendo o garoto fazer uma careta de nojo.

Till, sem conseguir lidar com a realidade de que sua paixão platônica agora pertencia a uma de suas melhores amigas, pegou sua mochila e saiu da sala sem dizer uma palavra. O silêncio caiu sobre o grupo por um momento.

— Ele vai ficar bem — disse Hyuna, suspirando e voltando sua atenção para Sua. — Mas você... garota, a gente vai ter uma conversa muito longa depois. Eu quero detalhes. Todos os detalhes.

— Hyuna, eu não tenho voz pra isso — Sua sussurrou, sentindo um alívio imenso por o segredo ter saído, mas ainda morta de vergonha.

— Eu conto pra ela depois, Hyuna — Mizi piscou, apertando a mão de Sua embaixo da mesa. — Tenho certeza de que eu lembro de cada segundo melhor do que ela.

Sua encostou a cabeça no ombro de Mizi, fechando os olhos. O caos estava instalado, o grupo de amigos nunca mais seria o mesmo e metade da escola provavelmente estaria falando delas no próximo intervalo. Mas, enquanto sentia os dedos de Mizi entrelaçados nos seus, Sua percebeu que o barulho do mundo não importava mais. O silêncio que ela tanto cultivara fora quebrado, e o que restara era algo muito mais barulhento, confuso e infinitamente mais bonito.