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Entre a morte e ódio

Entre a Cruz e a Faca

O ar em Alexandria estava saturado com o cheiro de desespero. As despensas, que outrora ostentavam latas de pêssegos e sacos de arroz, agora não passavam de prateleiras cobertas por poeira e teias de aranha. A guerra contra os Sussurradores vencera o inimigo físico, mas deixara um rastro de terra arrasada. A fome era uma criatura silenciosa que roía as entranhas de todos, e a tensão entre os sobreviventes era um barril de pólvora esperando por uma faísca.

S/N sentia essa pressão em cada fibra de seu corpo. Suas mãos, antes firmes para suturar feridas, agora tremiam levemente pela falta de nutrientes. Ela estava na enfermaria, tentando extrair o que restava de um frasco quase vazio de antisséptico, quando ouviu a discussão do lado de fora.

— Não podemos esperar que o milho cresça enquanto as crianças desmaiam de fraqueza! — A voz de Maggie era cortante, carregada de uma urgência que S/N conhecia bem.

— E eu estou dizendo que o mapa que eu desenhei é a nossa única chance — retrucou Negan. — Há uma antiga base de suprimentos dos Salvadores que nunca foi totalmente saqueada. É longe, é perigoso, mas é comida, Maggie. Comida de verdade.

S/N saiu para a varanda, limpando as mãos em um pano encardido. O sol batia forte, revelando os rostos encovados de seus amigos. Daryl estava encostado em um poste, observando o mapa com ceticismo.

— Por que deveríamos confiar em você agora? — perguntou Daryl. — Você pode estar nos levando para uma emboscada. Ou apenas querendo uma desculpa para fugir.

Negan soltou uma risada seca, mas não havia deboche em seus olhos.

— Se eu quisesse fugir, Daryl, eu já teria feito isso. Eu estou tentando manter este lugar vivo. Quer vocês gostem ou não, eu sou o único que sabe onde os esqueletos estão enterrados.

A missão foi decidida por pura necessidade. Um pequeno grupo partiria: Daryl, Maggie, S/N e Negan. Era uma combinação volátil, uma mistura de traumas e ódios que ninguém ousava nomear em voz alta.

O primeiro dia de viagem foi um silêncio opressivo. Eles caminharam por estradas secundárias, evitando as hordas que ainda vagavam sem rumo após a queda de Alpha. No segundo dia, porém, o desastre aconteceu.

Um grupo de saqueadores, remanescentes de alguma facção esquecida, os emboscou em um desfiladeiro estreito. O tiroteio foi caótico. No meio da confusão, uma explosão de granada improvisada causou um desmoronamento, separando o grupo. Quando a poeira baixou, S/N se viu do outro lado de uma parede de pedras e terra, com o tornozelo latejando e Negan ao seu lado.

— Daryl! Maggie! — S/N gritou, socando as pedras, mas apenas o silêncio e o som distante de tiros respondiam.

— Eles estão bem, docinho — disse Negan, limpando o sangue de um corte na testa. — Mas nós não estamos. O caminho de volta está bloqueado e aqueles caras ainda estão por aí. Precisamos nos mover.

— Não me chame assim — sibilou ela, tentando se levantar e caindo logo em seguida com um gemido de dor.

Negan se aproximou, mas ela brandiu sua faca de combate.

— Não toque em mim.

— Olha, S/N, eu sei que você prefere amputar a própria perna a aceitar minha ajuda, mas se ficarmos aqui, seremos jantar de errante antes do pôr do sol.

Ele ignorou a faca, pegou-a pelos ombros e a arrastou para a cobertura de uma densa floresta próxima. Eles caminharam — ou melhor, ele a carregou em parte do trajeto — por horas, até encontrarem uma cabana de caçador abandonada, escondida em uma ravina.

Lá dentro, o cheiro de mofo era quase reconfortante comparado ao perigo lá fora. Negan a colocou sobre uma mesa de madeira velha e começou a examinar o tornozelo dela. S/N estava pálida, a dor nublando seu julgamento, mas o ódio ainda queimava como brasa.

— Por que você faz isso? — perguntou ela, a voz falhando. — Por que finge que se importa?

Negan parou, as mãos grandes segurando o pé dela com uma delicadeza que parecia errada.

— Eu não finjo nada, S/N. Eu já disse.

— Você é um mentiroso — ela cuspiu as palavras. — Você ajuda a Judith, você trabalha na horta, você vem com esse papo de redenção... mas eu ainda vejo o homem com o bastão. Eu ainda vejo o homem que sorriu enquanto destruía a vida da minha melhor amiga.

Negan suspirou, um som longo e cansado. Ele terminou de enfaixar o tornozelo dela com uma tira da própria camisa.

— Eu fiz coisas terríveis. Eu sei disso. Mas o mundo que tínhamos antes... ele exigia monstros para que as pessoas comuns pudessem dormir. Eu fui o monstro que vocês precisavam para entender o que este mundo se tornou.

— Isso é uma desculpa barata! — S/N gritou, a raiva finalmente explodindo. — Você gostava! Você amava o poder! Você amava o medo nos olhos das pessoas!

— É claro que eu amava! — ele rugiu de volta, levantando-se e chutando uma cadeira velha que se desintegrou contra a parede. — Era melhor ser o rei do que ser a vítima! Eu perdi minha esposa, S/N. Eu perdi tudo o que me tornava humano e, em vez de sentar e chorar, eu decidi que ninguém mais me machucaria. Se isso me torna um monstro, então que seja!

O silêncio que se seguiu foi pesado. S/N o encarava, o peito arfando. Ela viu, pela primeira vez, não o vilão inabalável, mas um homem cujas cicatrizes eram tão profundas quanto as dela.

— Você acha que é o único que perdeu tudo? — ela perguntou, a voz agora baixa e perigosa. — Eu era enfermeira. Eu fiz um juramento de não causar dano. E agora? Eu perdi a conta de quantas gargantas eu cortei. Eu perdi a conta de quantas vezes eu ignorei o choro de alguém porque não tínhamos suprimentos. Você diz que o mundo exige monstros, Negan, mas você esquece que alguns de nós lutam todos os dias para não nos tornarmos um.

Negan caminhou até a janela quebrada, olhando para a escuridão que caía sobre a floresta.

— E como está funcionando para você, docinho? — ele perguntou, sem se virar. — Olhe para nós. Sozinhos, com fome, cercados por mortos. Sua "humanidade" vai te manter viva esta noite?

— Pelo menos eu ainda sei quem eu sou — ela respondeu.

— Você sabe? — Ele se virou, um sorriso amargo nos lábios. — Porque eu vejo o jeito que você me olha. Eu vejo o jeito que você hesita antes de me insultar agora. Você está quebrada, S/N. Do mesmo jeito que eu. E é por isso que você me odeia tanto. Porque eu sou o espelho que você não quer encarar.

— Eu não sou como você! — Ela tentou se levantar, mas a dor no tornozelo a fez vacilar.

Negan foi rápido, amparando-a antes que ela caísse. Ele a segurou firme, os rostos a centímetros de distância. S/N podia sentir o calor dele, o cheiro de suor e couro, e algo mais... algo que a aterrorizava. Era uma atração visceral, um magnetismo que nascia do reconhecimento de duas almas estilhaçadas.

— Solte-me — ela sussurrou, mas suas mãos, em vez de empurrá-lo, agarraram a frente da camisa dele.

— Você quer que eu solte? — Negan perguntou, a voz baixa e rouca. — Ou você quer que eu seja o único que não te pede para ser forte?

S/N sentiu uma lágrima quente escorrer por seu rosto. A resistência que ela mantivera por tanto tempo estava desmoronando. O ódio, que fora sua armadura contra o luto e a dor, estava se transformando em algo faminto e desesperado.

— Eu odeio você — ela repetiu, mas desta vez soou como uma confissão.

— Eu sei — ele murmurou.

Ele a beijou. Não foi um beijo suave ou romântico. Foi uma colisão de dentes e desespero, uma tentativa desesperada de sentir algo que não fosse o vazio do mundo lá fora. S/N retribuiu com a mesma intensidade, suas mãos puxando o cabelo dele, sua boca buscando nele uma âncora no meio da tempestade.

Eles se separaram ofegantes, os olhos fixos um no outro.

— Isso não muda nada — disse S/N, a voz trêmula.

— Muda tudo — Negan respondeu, limpando a lágrima do rosto dela com o polegar. — Agora você sabe que não é a única que carrega o inferno dentro de si.

A noite passou em um silêncio tenso. Eles dividiram o pouco que restava de água e se sentaram em cantos opostos da cabana, mas os olhos de Negan nunca deixavam S/N por muito tempo. Ele estava de vigia, Lucille — ou o que restava da memória dela — encostada na parede ao seu lado.

Perto do amanhecer, S/N acordou de um sono agitado. O tornozelo doía menos, mas sua mente estava em chamas. Ela olhou para Negan, que parecia cochilar sentado, a cabeça baixa.

— Negan? — ela chamou baixinho.

Ele abriu os olhos instantaneamente, alerta.

— Sim?

— Se voltarmos... se encontrarmos os outros... isso nunca aconteceu.

Negan deu aquele sorriso torto, o primeiro que parecia genuíno desde que Alexandria caíra.

— Você pode mentir para a Maggie, S/N. Pode mentir para o Daryl. Mas você nunca mais vai conseguir mentir para si mesma quando me vir atravessando aquela rua.

Eles se prepararam para sair. Negan improvisou uma muleta para ela com um galho resistente. Enquanto caminhavam pela floresta, tentando encontrar o caminho de volta para o ponto de encontro original, a dinâmica entre eles havia mudado. Não era mais puro ódio, mas uma trégua armada, temperada por um segredo que ambos sabiam que os destruiria se viesse à tona.

Horas depois, eles ouviram o assobio característico de Daryl.

— Aqui! — Negan gritou, sua voz ecoando entre as árvores.

Daryl e Maggie emergiram de uma densa vegetação, parecendo exaustos e sujos, mas aliviados. Maggie correu para S/N, abraçando-a com força.

— Graças a Deus! Pensamos que tínhamos perdido vocês — disse Maggie, olhando então para Negan com desconfiança. — O que aconteceu?

S/N sentiu o olhar de Negan sobre ela. Ela podia sentir o peso do beijo, o calor de suas mãos, a verdade crua que eles compartilharam na cabana.

— Houve um desmoronamento — disse S/N, sua voz soando estranhamente normal aos seus próprios ouvidos. — Ficamos presos. Ele me ajudou com o tornozelo.

Daryl estreitou os olhos, olhando de S/N para Negan. Ele sentia que algo estava diferente. Havia um silêncio entre os dois que não era o silêncio do ódio, mas algo mais denso.

— Vamos embora — disse Daryl. — Encontramos um rastro da base. Precisamos terminar isso e voltar para casa.

Enquanto o grupo se movia, Negan ficou um pouco para trás, caminhando ao lado de S/N para garantir que ela não tropeçasse.

— Viu só? — ele sussurrou para que apenas ela ouvisse. — A "Enfermeira de Ferro" voltou a usar a máscara.

S/N não olhou para ele, mas apertou com mais força o galho que servia de muleta.

— É a única forma de sobreviver aqui, Negan. Você mesmo disse.

— Talvez — ele respondeu. — Mas lembre-se, docinho... eu vi o que tem por baixo dela. E eu não vou esquecer.

A caminhada continuou. S/N olhava para as costas de Maggie e Daryl, sentindo o peso da traição em cada passo. Ela amava aquelas pessoas. Elas eram sua família. Mas Negan... Negan era a única pessoa que não exigia que ela fosse a salvadora. Ele era o único que aceitava sua escuridão porque ele vivia nela.

A guerra contra Alpha havia acabado, mas S/N percebeu que sua guerra pessoal estava apenas começando. E, pela primeira vez em muito tempo, ela não tinha certeza se queria ser a única sobrevivente.

Enquanto o sol começava a se pôr, pintando o céu de um laranja sangrento, S/N sentiu a mão de Negan roçar levemente na sua, um toque quase imperceptível para qualquer um que estivesse observando, mas que queimou na pele dela como um ferro em brasa.

Ela não se afastou.

O destino de Alexandria era incerto, a fome ainda era uma ameaça e o mundo continuava a desmoronar ao redor deles. Mas ali, naquela floresta silenciosa, S/N descobriu que, às vezes, para encontrar a luz, é preciso caminhar de mãos dadas com o monstro que habita as sombras. E essa era a verdade mais aterrorizante de todas.