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O Batimento do Abismo
O som do monitor cardíaco no quarto de isolamento da UA não era um bipe rítmico e reconfortante. Era um chiado errático, intercalado por alertas agudos que faziam os enfermeiros correrem a cada dez minutos. Izuku Midoriya estava deitado, pálido como o lençol que o cobria, com tubos inseridos em seus braços e um respirador cobrindo metade de seu rosto.
No canto da sala, Shota Aizawa observava o visor de um computador que monitorava não apenas os sinais vitais, mas a integridade da pulseira de contenção no pulso de Izuku. O dispositivo, uma liga de metal escuro com sensores de luz azul, brilhava com uma intensidade febril.
— Recovery Girl, os níveis de estresse celular dele estão subindo de novo — disse Aizawa, a voz rouca pelo cansaço. — A pulseira está superaquecendo.
A pequena heroína médica aproximou-se da cama, ajustando os óculos. Ela olhou para o gráfico na tela e franziu o cenho, uma expressão de pura confusão e horror cruzando seu rosto envelhecido.
— Shota, isso não faz sentido biológico — murmurou ela, tocando a testa de Izuku. — O corpo dele está tentando entrar em colapso total. Os órgãos dele... eles pararam de funcionar por quase três minutos durante a crise no Ground Beta. Tecnicamente, ele sofreu uma morte clínica.
— Mas ele está respirando agora — rebateu Aizawa.
— Esse é o problema — disse ela, apontando para a pulseira. — A pulseira está bloqueando a individualidade dele, certo? Mas o que estamos vendo aqui não é uma ativação de poder consciente. É algo... instintivo. Algo que está forçando o coração dele a bater mesmo quando os tecidos estão mortos.
A porta do quarto se abriu silenciosamente. O Detetive Tsukauchi entrou, trazendo uma pasta de arquivos que parecia ter sido resgatada de um incêndio. Ele olhou para o garoto na cama com uma tristeza profunda.
— Eu consegui os relatórios médicos do dia da queda — disse Tsukauchi, colocando a pasta sobre a mesa de exames. — Houve uma testemunha, uma enfermeira aposentada que estava na calçada no momento em que ele atingiu o chão há dois anos. Ela nunca deu um depoimento oficial porque entrou em estado de choque, mas eu a encontrei ontem.
Aizawa cruzou os braços, esperando.
— Ela disse que não houve "quase" — continuou o detetive, a voz falhando levemente. — Ela disse que ouviu o som dos ossos quebrando. Ela viu o ângulo do pescoço dele. Ela foi até ele para checar o pulso... e não havia nada. Ele estava morto, Aizawa. Por quase cinco minutos, no meio daquela multidão, Izuku Midoriya foi um cadáver.
Um silêncio pesado caiu sobre o quarto, quebrado apenas pelo chiado do respirador.
— E então? — perguntou Aizawa.
— E então, ela disse que o corpo dele começou a "estalar". Como se os ossos estivessem voltando para o lugar sozinhos. Antes que os paramédicos chegassem, ele simplesmente se levantou e caminhou para o beco, como um sonâmbulo. Ninguém o seguiu porque todos estavam apavorados demais para se mover.
Recovery Girl soltou um suspiro audível, seus olhos fixos na pulseira de contenção de Izuku.
— Meu Deus... — ela sussurrou. — A individualidade dele não é apenas regeneração. É um mecanismo de sobrevivência absoluta. Ele desenvolveu isso no momento do impacto. O trauma foi tão grande que o corpo dele se recusou a aceitar a morte.
— O que isso tem a ver com o colapso de hoje? — perguntou Aizawa.
— Shota, a pulseira que você colocou nele bloqueia individualidades — explicou ela, a voz urgente. — Para qualquer outro aluno, isso apenas impede que eles lancem fogo ou fiquem invisíveis. Mas para o Izuku... a individualidade dele é o que o mantém colado. É o que impede que os órgãos dele, que foram esmagados há dois anos, simplesmente parem de funcionar.
Aizawa arregalou os olhos, a compreensão o atingindo como um soco.
— Você está dizendo que a pulseira está matando ele?
— A pulseira está tentando desligar o motor que mantém o cadáver dele andando — disse Recovery Girl, pegando uma ferramenta de corte a laser. — Se não tirarmos isso agora, o sistema dele vai entrar em curto-circuito permanente. Ele está morrendo porque estamos forçando-o a ser "normal", mas a normalidade dele é a morte.
No corredor do hospital, a turma 1-A estava amontoada. Bakugo estava sentado no chão, com a cabeça entre os joelhos. Uraraka caminhava de um lado para o outro, as mãos entrelaçadas em uma prece silenciosa.
De repente, as luzes do corredor piscaram. Um som de metal se partindo ecoou de dentro do quarto de Izuku, seguido por um grito abafado de Aizawa.
— Afastem-se! — a voz do professor rugiu através da porta.
Bakugo levantou-se de um salto, suas mãos emitindo pequenas faíscas involuntárias. Ele não esperou por permissão. Ele chutou a porta, escancarando-a.
O que ele viu ficaria gravado em sua mente para sempre.
Izuku estava arqueado na cama, mas não era uma convulsão comum. Sua pele parecia estar mudando de cor, alternando entre um cinza cadavérico e um rosa febril. A pulseira de metal no chão estava partida ao meio, ainda fumegando. Sem o bloqueio, a individualidade de Izuku tinha explodido como uma represa rompida.
O ar no quarto estava eletrizado. Feridas antigas, cicatrizes que ele carregava desde a infância e as marcas da luta no armazém, começaram a se abrir e fechar em segundos. Era um ciclo grotesco de destruição e reconstrução acelerada.
— Deku! — Bakugo gritou, tentando se aproximar, mas Aizawa o segurou pelas fitas de captura.
— Não chegue perto! O corpo dele está liberando energia cinética acumulada! — avisou Aizawa.
Izuku abriu os olhos. Não eram os olhos verdes de um garoto assustado. Eram órbitas brilhantes, saturadas de uma dor que nenhum ser humano deveria suportar. Ele olhou para as próprias mãos, vendo a pele se rasgar e se curar em um piscar de olhos.
— Eu... eu morri — a voz de Izuku saiu como um sussurro de mil vozes sobrepostas. — Eu sinto... o frio... de novo.
— Izuku, escute a minha voz! — Uraraka apareceu atrás de Bakugo, as lágrimas correndo livremente. — Você está aqui! Você está na UA! Nós não vamos deixar você cair de novo!
Izuku virou o rosto para ela. O movimento foi errático, quase inumano.
— Por que vocês não me deixam ir? — ele perguntou, e a agonia em sua voz fez com que Kirishima e Ashido, que observavam da porta, recuassem. — O concreto... ele era calmo. O silêncio era bom. Vocês me trouxeram de volta para esta dor... para este corpo que não me pertence mais.
— Nós trouxemos você de volta porque você é nosso amigo, seu idiota! — Bakugo rugiu, lutando contra as fitas de Aizawa. — Eu não dou a mínima se você é um fantasma ou um monstro! Você não tem o direito de desistir! Não depois de tudo o que eu... o que nós passamos!
Izuku parou de se debater. A regeneração começou a desacelerar, estabilizando-se em um ritmo menos violento. Ele caiu de volta nos travesseiros, ofegante, o suor misturado com o sangue que ainda não tinha sido reabsorvido.
Recovery Girl agiu rápido, injetando um sedativo pesado diretamente em sua veia.
— O sistema dele está se acalmando — disse ela, limpando a testa com o avental. — Mas a pulseira... nunca mais coloquem aquilo nele. Ele precisa dessa individualidade para existir. É o suporte de vida dele.
Aizawa soltou Bakugo, que caiu de joelhos ao lado da cama. O loiro estendeu a mão, hesitando, antes de tocar o pulso de Izuku. Não havia mais metal ali. Apenas a pele quente, onde um pulso forte e teimoso batia contra seus dedos.
— Ele é um milagre médico — comentou Tsukauchi, guardando os arquivos. — Ou uma maldição biológica.
— Ele é apenas o Izuku — corrigiu Uraraka, aproximando-se e segurando a outra mão do garoto. — Um Izuku que foi quebrado de um jeito que ninguém percebeu.
Horas depois, quando a noite estava em seu ponto mais profundo, Izuku acordou novamente. O quarto estava escuro, exceto pela luz da lua que filtrava pelas persianas. Ele sentiu um peso em sua mão esquerda.
Bakugo estava sentado em uma cadeira desconfortável ao lado da cama, dormindo com os braços cruzados e a testa franzida. No sofá do canto, Todoroki e Iida também descansavam, recusando-se a deixar o quarto mesmo após as ordens de Aizawa.
Izuku olhou para o teto. Pela primeira vez em dois anos, ele não sentia o "vazio" no peito. A individualidade de regeneração, agora livre das amarras da pulseira, trabalhava silenciosamente, mantendo seus pulmões inflando e seu coração pulsando. Era uma sensação estranha — a sensação de estar vivo por pura teimosia celular.
Ele tentou se sentar, e o leve movimento acordou Bakugo instantaneamente.
— Não se mexa, Deku — disse Bakugo, a voz rouca e sem o tom agressivo de costume. — Ou eu juro que te explodo de volta para a sedação.
Izuku olhou para o amigo de infância.
— Você ouviu o que o detetive disse, não é? — perguntou Izuku. — Sobre o dia da queda.
Bakugo desviou o olhar, as mandíbulas cerradas.
— Ouvi.
— Eu não queria que vocês soubessem — murmurou Izuku. — Eu queria que vocês pensassem que eu era apenas um vilão que ficou forte. Que eu tinha um plano. Mas a verdade é que eu sou apenas um erro que não sabe como parar de respirar.
Bakugo levantou-se e caminhou até a janela, olhando para o campus da UA.
— Você sempre foi um nerd irritante que não sabia quando desistir — disse Bakugo, de costas para ele. — Naquela época, quando éramos crianças, eu te odiava por isso. Porque você não tinha nada, mas ainda tentava me alcançar.
Ele se virou, e Izuku viu que os olhos de Bakugo estavam úmidos.
— Quando você caiu... eu achei que o mundo tinha finalmente vencido você. E eu me odiei por ser parte do motivo. Mas agora eu entendo. Você não voltou porque a Liga te salvou. Você voltou porque seu corpo é tão teimoso quanto a sua mente de merda.
Bakugo caminhou de volta para a cama e apontou o dedo para o peito de Izuku.
— Se você está vivo por causa de um poder que se recusa a te deixar morrer, então use essa droga para alguma coisa útil. Não para se lamentar no escuro. Se você é o "resultado", então seja o resultado que prova que este sistema pode ser consertado.
Izuku sentiu um nó na garganta. Pela primeira vez, o peso da culpa não parecia ser apenas dele.
— Eu não sei se consigo ser um herói de novo, Kacchan.
— Ninguém está te pedindo para ser um herói agora — disse Todoroki, que tinha acordado e observava a conversa do sofá. — Estamos apenas pedindo para que você seja o Izuku. O resto nós resolvemos juntos.
Iida levantou-se também, ajustando os óculos.
— Midoriya, as regras da UA são claras sobre a conduta de alunos, mas elas não dizem nada sobre como lidar com ressurreições. Como representante de classe, eu decidi que sua prioridade é a recuperação. Nós faremos os seus turnos de limpeza.
Izuku soltou uma risada fraca, a primeira que soava verdadeira em anos.
— Vocês são inacreditáveis.
— E você é um cadáver ambulante que precisa de um banho — retrucou Bakugo, embora o canto de sua boca tenha subido levemente. — Agora dorme. Amanhã a Recovery Girl vai querer fazer mil testes em você.
Izuku fechou os olhos. Pela primeira vez, o sono não parecia um abismo de onde ele temia não voltar. Era apenas descanso.
Enquanto ele adormecia, ele sentiu a pulsação em seu pulso. Estável. Forte. Um lembrete constante de que, embora ele tivesse caído, o chão não tinha sido o seu fim.
A individualidade de regeneração não era apenas um salva-vidas. Era uma segunda chance que o universo tinha lhe dado à força. E, pela primeira vez, cercado por aqueles que se recusavam a deixá-lo ir, Izuku Midoriya pensou que talvez, apenas talvez, valesse a pena a dor de estar vivo.
Na manhã seguinte, Aizawa entrou no quarto com uma bandeja de comida e um novo plano de aula. Ele viu os quatro alunos dormindo em posições desconfortáveis ao redor da cama de Izuku. O professor permitiu-se um pequeno sorriso, quase invisível.
O caminho para a reabilitação seria longo. Haveria tribunais, haveria o julgamento da sociedade e o estigma de ter se aliado à Liga. Mas, olhando para o garoto de cabelos verdes que agora respirava sem a ajuda de máquinas, Aizawa sabia de uma coisa.
Izuku Midoriya não era mais o resultado do fracasso deles.
Ele era o início de algo novo. Um herói que conhecia o peso do asfalto e que, por isso mesmo, nunca deixaria ninguém cair da mesma forma.
A guerra contra a Liga ainda não tinha acabado, e Shigaraki certamente viria atrás de sua "peça" perdida. Mas, desta vez, quando a escuridão chegasse, Izuku não estaria esperando por mãos que nunca chegariam.
Ele seria a mão que se estende. Porque ele sabia exatamente como era a sensação de ninguém vir a tempo. E ele nunca permitiria que aquele silêncio se repetisse.