Mha
O Peso do Oxigênio e as Sombras no Pulso
A claridade do dormitório da 1-A era agressiva. Izuku Midoriya estava sentado na beira da cama, com os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos cobrindo o rosto. Fazia uma semana que o "programa de reintegração" havia começado, uma decisão controversa do Diretor Nezu que colocava Izuku sob vigilância constante, mas permitia que ele frequentasse as aulas.
Para os outros, ele era o colega que voltou dos mortos. Para Izuku, ele era um estranho habitando um corpo que parecia não pertencer mais a ele.
— Ei, Deku. — A voz de Bakugo veio da porta aberta, desprovida da explosividade habitual, substituída por uma cautela que irritava Izuku. — O sinal já bateu. O sentido de pontualidade que você tinha morreu naquele prédio também?
Izuku levantou o rosto. Ele estava pálido, com olheiras profundas que pareciam hematomas sob os olhos verdes.
— Já estou indo, Katsuki — respondeu Izuku, a voz rouca. Ele não o chamava de "Kacchan" há dois anos. O uso do nome próprio era um lembrete constante da distância abismal entre eles.
Ao se levantar, o mundo girou. Izuku cambaleou, a mão tateando a parede para não cair. O peito apertou, uma dor aguda e familiar irradiando das costelas para os pulmões. Ele tossiu, uma tosse seca e persistente que parecia rasgar sua garganta.
Bakugo deu um passo à frente, as mãos hesitando no ar.
— Você está piorando. Já foi na Recovery Girl hoje?
— Eu estou bem — cortou Izuku, recuperando o equilíbrio com um esforço visível. — É só o efeito colateral dos supressores de individualidade. Meu corpo está se ajustando.
Mas ambos sabiam que era mentira. O supressor no pulso de Izuku, uma pulseira de metal negro que brilhava com uma luz azul fria, era necessário por segurança, mas o corpo de Izuku estava lutando contra ele de uma forma que os médicos não conseguiam explicar.
A caminhada até a sala de aula foi um exercício de tortura silenciosa. Cada passo pesava. No corredor, os sussurros dos alunos de outras turmas o seguiam como moscas. "É ele?", "O vilão da Liga?", "Como a UA deixa ele andar por aí?".
Ao entrar na sala 1-A, o silêncio foi imediato. Uraraka forçou um sorriso, mas seus olhos estavam cheios de uma piedade que Izuku detestava. Iida fez uma reverência rígida, e Todoroki apenas o observou com aquela intensidade silenciosa, notando o suor frio que escorria pela têmpora de Izuku.
A aula de Aizawa transcorreu como um borrão. Izuku tentava anotar as instruções, mas sua visão desfocava. O som do giz no quadro parecia uma britadeira dentro de seu crânio. A dor no peito evoluiu de uma pontada para uma pressão esmagadora, como se o asfalto de dois anos atrás tivesse finalmente decidido terminar o serviço.
— Midoriya. — A voz de Aizawa cortou o nevoeiro. — Você está ouvindo?
Izuku tentou responder. Ele abriu a boca, mas o que saiu não foi voz, foi um engasgo. Ele se curvou para frente, uma crise de tosse violenta o dominando. Ele pressionou um lenço contra a boca. Quando o afastou, o branco do tecido estava manchado de um vermelho vivo e assustador.
— Ele está sangrando! — gritou Ashido, levantando-se da cadeira.
O caos se instalou em segundos. Aizawa atravessou a sala com uma velocidade impressionante, segurando Izuku antes que ele atingisse o chão.
— Afastem-se! — ordenou o professor. — Iida, chame a Recovery Girl e avise o Central Médica. Agora!
— Eu... eu estou... — Izuku tentou dizer, mas seus olhos reviraram.
— Cala a boca, Deku! — Bakugo estava ao lado dele, a voz tremendo de raiva e medo. — Para de dizer que está bem!
Vinte minutos depois, Izuku estava na enfermaria, cercado por máquinas que apitavam em ritmos frenéticos. Recovery Girl tinha uma expressão sombria enquanto analisava os exames de imagem projetados em uma tela holográfica. Aizawa, All Might — em sua forma magra — e os alunos da 1-A que se recusaram a sair do corredor esperavam por respostas.
— O que ele tem? — perguntou All Might, a voz falhando. — É o supressor?
— O supressor é apenas o gatilho, Yagi — suspirou a médica. — O problema é muito mais profundo. Quando o Izuku caiu daquele prédio, o corpo dele sofreu danos que deveriam ter sido fatais. A Liga... eles não o "curaram". Eles usaram uma combinação de drogas experimentais e uma individualidade de regeneração forçada para colar os pedaços dele.
Ela apontou para a imagem dos pulmões de Izuku. Havia manchas escuras, como teias de aranha, espalhando-se pelos tecidos.
— O corpo dele está em um estado de rejeição constante — continuou ela. — É uma doença autoimune degenerativa provocada pelo trauma e pelos químicos da Liga. O sistema imunológico dele não reconhece os próprios tecidos regenerados como "dele". Ele está literalmente lutando contra si mesmo para permanecer vivo a cada segundo. O estresse de voltar para cá, de enfrentar o passado, acelerou o processo.
Aizawa fechou os olhos, a culpa pesando em seus ombros.
— Ele sabia disso?
— Ele sente a dor todos os dias — respondeu Recovery Girl. — Mas ele aprendeu a mascarar. Na Liga, se você mostra fraqueza, você morre. Ele trouxe esse instinto de sobrevivência com ele.
Do lado de fora, Bakugo ouvia cada palavra através da porta entreaberta. Ele socou a parede, as faíscas morrendo antes de se formarem.
— Aquele idiota... — sussurrou Bakugo. — Ele estava morrendo na nossa frente e a gente só ficou olhando.
Uraraka estava sentada em um banco próximo, as mãos cobrindo o rosto, soluçando silenciosamente. Todoroki permanecia em pé, imóvel como uma estátua de gelo.
— Nós queríamos que ele voltasse para a nossa realidade — disse Todoroki, a voz gélida. — Mas a realidade dele é uma agonia que não podemos compreender. Nós o trouxemos para a luz, mas ele ainda está sentindo o frio do chão.
Horas depois, Izuku acordou. O quarto estava na penumbra. Ele sentiu o peso de algo em sua mão esquerda. Ao olhar, viu Bakugo sentado em uma cadeira desconfortável, dormindo com a cabeça apoiada na beira da cama. No canto, Todoroki lia um livro sob uma luz fraca, e Uraraka cochilava em uma poltrona.
Eles não o tinham deixado sozinho. Nem por um segundo.
Izuku tentou se mexer, e a dor no peito, agora entorpecida por medicamentos fortes, protestou. Todoroki levantou o olhar imediatamente.
— Não tente levantar — disse o meio-quente, meio-frio, fechando o livro. — Você teve uma hemorragia pulmonar.
— Eu causei problemas de novo — murmurou Izuku, olhando para o teto branco.
— Você não causou problemas, Midoriya — respondeu Todoroki, aproximando-se. — Você está doente. Há uma diferença.
Bakugo despertou com o som das vozes. Ele esfregou os olhos e encarou Izuku com uma intensidade que faria qualquer um recuar.
— Recovery Girl nos contou — disse Bakugo, direto ao ponto. — Sobre o que a Liga fez com você. Sobre o seu corpo estar tentando se matar.
Izuku desviou o olhar.
— Eles me deram uma escolha naquela noite — disse Izuku, a voz baixa e distante. — Eu podia morrer como um herói esquecido no asfalto, ou viver como uma ferramenta deles. Eu era um garoto sem individualidade que tinha acabado de ouvir do seu ídolo que não podia realizar seu sonho. O que você esperava que eu escolhesse?
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Eu esperava que você fosse o nerd teimoso que sempre foi — rosnou Bakugo, mas não havia ódio em sua voz, apenas uma dor crua. — Mas eu não estava lá para te dizer isso. Ninguém estava.
— Nós estamos aqui agora — disse Uraraka, que tinha acordado e se aproximado da cama. Ela pegou a mão livre de Izuku. — Izuku, a Recovery Girl disse que o tratamento vai ser difícil. Você vai ter que ficar em repouso, vai ter que tomar remédios que vão te deixar exausto... e pode ser que você nunca mais possa lutar como antes.
Izuku soltou uma risada fraca e amarga.
— Eu nunca mais lutei como antes desde que atingi o chão, Ochako.
— Não importa — interrompeu Iida, que acabara de entrar com uma bandeja de comida. — Se você não puder ser um herói de campo, seremos seus olhos. Se você não puder correr, nós o carregaremos. A classe 1-A não perde seus membros duas vezes.
Izuku olhou para cada um deles. Ele viu o cansaço nos rostos de seus colegas, a preocupação genuína, e pela primeira vez em dois anos, o frio em seu peito pareceu diminuir, não por causa dos remédios, mas por causa de algo que ele achava que tinha perdido para sempre: pertencimento.
Nas semanas que se seguiram, a adaptação foi, de fato, brutal. Izuku passava dias inteiros na enfermaria. Havia noites em que a febre era tão alta que ele delirava, gritando nomes de vilões e pedindo desculpas a uma mãe que ele ainda não tinha coragem de visitar.
Os alunos da 1-A criaram um sistema de turnos. Eles não o deixavam sozinho. Kirishima trazia pesos leves para "exercícios de fisioterapia" que consistiam apenas em mover os braços. Ashido trazia músicas e fofocas da escola para tentar arrancar um sorriso dele. Tokoyami ficava em silêncio nas sombras, oferecendo uma presença reconfortante que não exigia palavras.
Bakugo era o mais constante. Ele trazia as anotações das aulas e, embora reclamasse o tempo todo de como Izuku era "lento para entender a matéria agora", ele explicava cada detalhe com uma paciência infinita que nunca mostrara a ninguém.
Certa noite, quando apenas Bakugo estava no quarto, Izuku perguntou:
— Por que, Katsuki? Depois de tudo o que eu fiz... depois de ter lutado contra vocês... por que tanto esforço?
Bakugo parou de organizar os cadernos e olhou para a janela, onde a lua brilhava sobre o campus da UA.
— Porque quando você caiu, uma parte de todos nós caiu junto — disse Bakugo sem olhar para trás. — A gente passou dois anos vivendo com um fantasma. E agora que o fantasma tem carne e osso de novo, a gente não vai deixar ele sumir só porque a biologia dele é uma merda.
Izuku sentiu as lágrimas arderem.
— Eu sinto falta de ser quem eu era — confessou Izuku, a voz falhando. — Eu sinto falta de acreditar que o mundo é justo.
— O mundo não é justo — concordou Bakugo, virando-se para ele. — Ele é um lugar horrível que mastiga pessoas como você. Mas é por isso que heróis existem. Para lutar contra essa injustiça. Mesmo que o vilão que a gente tenha que derrotar agora seja o seu próprio sangue.
A redenção de Izuku Midoriya não viria através de uma grande batalha ou de um ato heroico de sacrifício. Ela estava acontecendo ali, naquelas pequenas interações, no esforço excruciante de respirar um dia de cada vez, na aceitação de que ele estava doente e precisava de ajuda.
Meses depois, durante um festival cultural interno, Izuku conseguiu caminhar pelo pátio sem ajuda pela primeira vez. Ele ainda usava o supressor, e ainda tinha que tomar uma dúzia de pílulas por dia, mas a cor estava voltando às suas bochechas.
Ele parou em frente ao prédio principal da UA e olhou para cima, para o terraço.
— Você ainda pensa nisso? — perguntou Todoroki, aproximando-se silenciosamente.
— Às vezes — admitiu Izuku. — Mas agora, quando eu olho para cima, eu não vejo mais um fim. Eu vejo apenas o céu.
— É um bom começo — comentou Todoroki.
Izuku sorriu. Era um sorriso pequeno, ainda marcado pelas sombras do passado, mas era real. Ele sabia que as cicatrizes internas talvez nunca se curassem completamente. Ele sabia que a Liga ainda estava lá fora, e que Shigaraki o via como uma traição pessoal. Ele sabia que sua saúde seria uma batalha constante pelo resto da vida.
Mas, ao olhar para o lado e ver Bakugo discutindo com Kaminari sobre alguma bobagem, e Uraraka correndo em sua direção com um doce na mão, Izuku Midoriya entendeu que não precisava mais cair para ser notado.
Ele tinha sido o resultado de um sistema falho, sim. Mas agora, ele seria o resultado de uma classe que se recusou a desistir de um dos seus. E isso, no final das contas, era o maior ato de heroísmo que ele já tinha testemunhado.
— Vamos, Deku! — gritou Bakugo lá na frente. — Ou você quer que a gente te carregue como um saco de batatas de novo?
Izuku riu, uma risada que não terminou em tosse.
— Já estou indo! — respondeu ele, acelerando o passo.
Ele ainda estava aprendendo a respirar, mas, pela primeira vez em muito tempo, o ar não parecia mais feito de chumbo. Estava frio, era difícil, mas era vida. E isso era o suficiente.