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Noites que Nunca Têm Fim

Manchetes de Jornal e o Peso da Realidade

A luz da manhã de uma terça-feira comum era agressiva. Ela não tinha o glamour do neon da 89 Street Club, nem a suavidade das lâmpadas de lava no loft do Leo. Era apenas uma luz cinzenta e persistente que denunciava a montanha de livros de Direito Civil empilhados na minha escrivaninha e o cheiro de café requentado. Meu reflexo no espelho do banheiro era o de uma estranha: a sombra preta nos olhos estava borrada, dando-me um ar de guaxinim cansado, e o brilho da blusa verde musgo, jogada no chão, parecia um escárnio diante da lista de chamadas perdidas da minha mãe.

Eu peguei o jornal que o vizinho sempre deixava no corredor. *The New York Post*. Na página seis, a foto era granulada, tirada sob a luz estroboscópica de uma saída de emergência. Nela, Patrick Ledger aparecia com um braço em volta do meu pescoço, rindo de algo que Leo dizia enquanto Johnny tentava acender um cigarro contra o vento. A legenda dizia: *"A Pussy Posse e sua Nova Musa: Quem é a loira misteriosa que acompanha o Trio de Ouro de Hollywood nas zonas mais perigosas de NYC?"*.

— Musa misteriosa... — sussurrei, sentindo um frio na barriga que não era de fome. — Se eles soubessem que a musa tem uma prova de Introdução à Economia em duas horas e está prestes a ser jubilada.

A dicotomia da minha vida estava se tornando insustentável. À noite, eu era a leopardo de argolas cintilantes que beijava o ator mais promissor da década; de dia, eu era Mariana Watts, a estudante bolsista que morava em um estúdio onde o aquecedor fazia barulhos de agonia.

O telefone tocou. Era Patrick.

— Você viu? — A voz dele estava carregada de um entusiasmo juvenil, mas havia aquele tom de proteção que ele só usava comigo.

— Eu vi, Pat. Meus professores também devem ter visto. Eu sou a "loira misteriosa" com zero de frequência nas aulas de sexta-feira.

— Esquece as aulas, Mari. O Leo quer alugar um barco. Ele disse que, se os tabloides querem nos seguir, vamos dar a eles algo digno de um filme do Fellini. Ele está histérico, rindo como um louco.

— Patrick... — Eu me sentei na cama, sentindo o peso da minha crise existencial. — Eu não sou como vocês. Eu não tenho um contrato com a Miramax. Se eu falhar, eu volto para a casa dos meus pais em Ohio para vender seguros.

Houve um silêncio do outro lado da linha. O barulho de um isqueiro riscando — o som clássico do seu Marlboro Vermelho.

— Eu sei — disse ele, a voz agora suave, séria, despida da máscara de Patrick Verona. — Eu sei que o chão embaixo dos seus pés não é feito de veludo como o nosso. Mas escuta: eu não vou deixar você cair. Se você precisar estudar, eu sento do seu lado e decoro o código penal com você. Mas não se afaste. A noite é mais escura sem o seu *tin-tin-tin*.

Eu sorri, sentindo as lágrimas arderem. Patrick tinha esse poder. Ele era a tequila que me queimava, mas era também o chardonnay que me acalmava.

— Eu tenho prova hoje, Pat. Não posso ir ao barco.

— Tudo bem. Eu te busco na porta da faculdade às seis. E Mariana?

— Oi?

— Eu te amo. E não é uma daquelas juras de alvorecer que a gente esquece quando a pizza acaba. É real.

Desliguei o telefone sentindo o coração martelar. O "eu te amo" de Patrick Ledger era pesado, denso como a fumaça de um clube de jazz.

A faculdade foi um borrão de olhares atravessados. Algumas garotas no corredor cochichavam, apontando para o jornal debaixo do braço. Eu me sentia uma infiltrada, uma criatura da noite tentando se passar por um ser humano funcional sob as lâmpadas fluorescentes da biblioteca. Minhas notas estavam despencando, e a sensação de que eu estava vivendo um tempo emprestado me perseguia.

Às seis em ponto, o Cadillac preto de Leo estacionou na frente do campus, subindo metade do pneu na calçada. Patrick estava no banco do passageiro, com seus óculos 90s e um sorriso que desafiava qualquer autoridade acadêmica.

— Entra aí, Ingrid! — gritou Leo, usando o nome falso da nossa última incursão. — O Johnny comprou umas telas novas e disse que só começa a pintar se você escolher as cores.

Eu entrei no carro, deixando para trás o mundo dos livros e das responsabilidades. O cheiro de couro e futurismo me acolheu instantaneamente. Johnny estava no banco de trás, com um chapéu de feltro e um olhar melancólico.

— Como foi a tortura intelectual, pequena? — perguntou Johnny, estendendo-me um copo de papel que, eu sabia, não continha apenas café.

— Eu acho que escrevi "Rhythm of the Night" em vez da fórmula da oferta e demanda — respondi, encostando a cabeça no ombro de Patrick.

— É uma resposta muito mais válida para a vida — filosofou Johnny, dando um trago em seu cigarro. — A economia é uma ilusão. A batida do coração na pista de dança é a única moeda que importa.

Fomos para o loft de Johnny naquela noite. Diferente das festas caóticas no Leo, ali o clima era de uma fraternidade silenciosa e leal. Johnny estava passando por um momento difícil, a pressão da fama batendo à porta, e ele confiava em nós para sermos seu porto seguro.

— As pessoas acham que somos deuses, Mariana — disse Johnny, enquanto misturava tintas em uma paleta improvisada. — Mas somos apenas caras tentando não ser esmagados pela própria sombra. Você é a nossa âncora. Você não quer nada de nós a não ser a nossa companhia.

— Eu só quero que vocês não morram de overdose de pizza e decisões sagazes — brinquei, mas havia verdade no que eu dizia.

Leo, que geralmente era o centro da energia, estava sentado no chão, desenhando aviõezinhos em notas de vinte dólares, mas seu olhar estava distante.

— Se os tabloides continuarem enchendo o saco, eu vou me mudar para uma ilha — comentou Leo. — Mariana, você vem com a gente. Podemos fundar uma sociedade baseada em discotecas e falta de bom senso.

— Eu seria a única a saber como pagar os impostos da ilha, Leo — retruquei, fazendo todos rirem.

Patrick me puxou para um canto, longe da conversa. Ele pegou minha mão e olhou para a estrela que havia desenhado no meu pulso dias atrás. A tinta estava falhando, mas ele pegou uma caneta permanente e a reforçou, traçando o contorno com uma precisão cirúrgica.

— Eu andei pensando — começou ele, a voz baixa. — Eu recebi uma proposta para um filme em Londres. Dois meses de filmagem.

Meu coração falhou uma batida. O medo da realidade batendo à porta de novo.

— E você vai, claro. É a sua carreira, Pat.

— Eu só vou se você prometer que vai me esperar. E que, quando eu voltar, a gente vai encontrar um lugar só nosso. Longe do Leo, longe do Johnny, longe de Nova Iorque se precisar.

— Você está falando sério?

— Mariana, eu sou um ator, eu minto para viver. Mas com você... eu não consigo nem fingir que não sou louco por ti. Eu quero o café da manhã, eu quero a conta de luz, eu quero as suas crises existenciais às três da manhã. Eu quero a Mariana Watts, não a leopardo.

Eu o beijei, e o gosto era de eternidade. Era um amor fortificado pelo caos, uma aliança selada entre telas de tinta barata e o barulho incessante de Manhattan.

— Eu vou te esperar — prometi. — Mas você tem que me prometer que vai trazer um daqueles casacos ingleses ridículos para eu usar nas minhas provas.

Ele riu, aquele riso de Patrick Verona que iluminava a sala inteira.

— Fechado.

Naquela noite, não fomos para nenhuma boate polêmica. Ficamos no loft, ouvindo Cocteau Twins e vendo Johnny pintar uma tela que parecia um sonho febril em azul e prata. Leo acabou dormindo no colo de Johnny, e eu fiquei aninhada nos braços de Patrick, vendo as estrelas reais lutarem contra a poluição luminosa de Nova Iorque.

Eu sabia que as notas na faculdade seriam um problema no dia seguinte. Sabia que a "loira misteriosa" continuaria sendo alvo dos paparazzi por um tempo. Mas, enquanto eu sentia o calor da mão de Patrick na minha cintura e o tilintar suave das minhas pulseiras — *tin-tin-tin* — contra o braço dele, eu entendi que a fera dentro de mim não precisava mais apenas da noite para ser feliz. Ela tinha encontrado sua alcateia.

Éramos indestrutíveis, não porque éramos famosos ou jovens, mas porque éramos leais. Éramos uma família de feras disfarçadas, prontos para enfrentar o amanhecer, um cigarro e uma promessa de cada vez. As noites de 1992 podiam ser traiçoeiras, mas, pela primeira vez, eu não tinha medo de acordar.