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Noites que Nunca Têm Fim

Entre o Giz, o Álcool e a Saudade

A partida de Patrick para Londres deixou um vácuo no ar de Nova Iorque que nem mesmo o escapamento dos táxis amarelos ou o vapor dos bueiros conseguia preencher. Ele se foi em uma manhã nublada de julho, deixando um rastro de cheiro de couro e uma promessa selada com um beijo que durou o tempo de uma vida inteira no terminal da Pan Am. Agora, o silêncio do meu estúdio era interrompido apenas pelo tique-taque do relógio e pelo tilintar solitário das minhas pulseiras — *tin-tin-tin* — enquanto eu tentava, desesperadamente, focar nas leis de sucessão e nos gráficos de macroeconomia.

Os dois meses seguintes foram um teste de resistência. De dia, eu era a estudante exemplar, escondendo as olheiras com corretivo barato e tentando ignorar os sussurros nos corredores da NYU. De noite, eu era a protegida da Pussy Posse. Sem Patrick, Leo e Johnny pareciam ter dobrado a guarda sobre mim, como se eu fosse um amuleto sagrado que precisasse ser preservado até o retorno do dono.

— Você está com cara de quem quer morder alguém, Mariana — disse Leo, jogando-se no sofá do meu pequeno apartamento em uma noite de quinta-feira. Ele trouxe três caixas de pizza e um Johnny Depp visivelmente sonolento a tiracolo.

— Eu tenho uma prova de Direito Constitucional amanhã e meu cérebro parece uma gelatina de melancia — respondi, fechando o livro com um estrondo. — Por que vocês estão aqui? Não deveriam estar em algum lugar exclusivo sendo fabulosos?

— O "exclusivo" é chato sem você e o Pat — Johnny murmurou, sentando-se no chão e abrindo uma das caixas. — Além disso, o Leo cismou que precisa aprender a cozinhar algo que não seja miojo e decidiu que sua cozinha era o laboratório ideal. Por favor, impeça-o.

— Ei! Eu sou um artista em todas as frentes! — Leo protestou, já mexendo nos meus armários. — Mas hoje viemos para uma missão especial. O Patrick ligou.

Meu coração deu um salto, tropeçando nas costelas.

— Ele ligou para você e não para mim?

— Ele ligou para o fixo do loft — explicou Leo, entregando-me o telefone sem fio que ele carregava no bolso da jaqueta. — Ele disse que o set em Londres é cinza demais e que sente falta do seu perfume de discoteca. Ele quer falar com a "leoparda".

Peguei o telefone com as mãos trêmulas e fui para o pequeno balcão da cozinha. A voz de Patrick atravessou o Atlântico com uma clareza que me fez fechar os olhos.

— Oi, Problema — disse ele, e eu pude sentir o sorriso dele através da linha. — Como estão as garras? Curtas demais por causa dos livros?

— Elas estão afiadas, Pat. Prontas para rasgar esses manuais de Direito — respondi, sentindo uma lágrima idiota de alívio escapar. — Como está Londres?

— Chove. O tempo todo. E as pessoas aqui levam tudo a sério demais. Sinto falta do caos de Nova Iorque. Sinto falta de acordar com cheiro de pizza e de ver você dançando sob o neon. Como estão os rapazes? Eles estão cuidando de você ou eu preciso voltar e chutar alguns traseiros?

— Eles estão sendo babás profissionais — rimos juntos. — O Leo está tentando incendiar minha cozinha neste exato momento e o Johnny está quase dormindo em cima da minha pizza de pepperoni.

— Mantenha-os na linha, Mari. Eu volto em três semanas. E eu tenho uma surpresa. Algo sobre aquele lugar só nosso que conversamos.

Desligamos depois de promessas sussurradas que não caberiam em nenhum roteiro de cinema. Voltei para a sala e encontrei Leo e Johnny me encarando com expressões de expectativa.

— Ele está bem? — perguntou Johnny, entregando-me uma fatia de pizza.

— Está. Só sente falta da bagunça.

— Quem não sente? — Leo suspirou, abrindo uma cerveja. — Mas agora, foco, Mariana. Se você não passar nessa prova, o Patrick me mata. Vamos lá: o que é uma cláusula pétrea?

E assim, entre fatias de pizza e piadas internas, o "astro de Hollywood" e o "pirata do Chelsea" passaram a noite me ajudando a estudar. Era uma cena surreal: Leonardo DiCaprio fazendo mímicas para eu lembrar conceitos jurídicos e Johnny Depp lendo em voz alta passagens de filosofia do Direito com sua voz aveludada, transformando o tédio acadêmico em algo quase poético.

As semanas passaram em um borrão. Eu passei nas provas, para a surpresa dos meus professores e alegria da Posse. Mas o verdadeiro desafio surgiu quando recebi um telegrama — sim, meus pais ainda usavam telegramas — dizendo que eles estavam vindo para Nova Iorque. "Queremos ver como nossa menina está se saindo na cidade grande", dizia a mensagem.

O pânico foi instantâneo. Meus pais eram o epítome da classe média conservadora de Ohio. Meu pai, um engenheiro mecânico que achava que qualquer um com cabelo comprido era um viciado, e minha mãe, uma dona de casa que acreditava que Nova Iorque era a versão moderna de Sodoma e Gomorra.

— Eles não podem me ver com vocês — eu disse para Leo, enquanto caminhávamos pelo Central Park disfarçados com óculos escuros e bonés.

— Por que não? Nós somos adoráveis — Leo retrucou, parando para dar um autógrafo rápido para uma fã que o reconheceu.

— Leo, você é o cara que rasga notas de cem dólares. O Johnny parece que acabou de sair de um naufrágio existencial. E o Patrick... bem, o Patrick volta amanhã e ele é um ator! Meus pais acham que atores são pessoas que não querem trabalhar de verdade.

— Ofendido — disse Johnny, embora estivesse sorrindo. — Mas compreendo. O choque cultural pode ser fatal.

O dia da chegada dos meus pais coincidiu com o retorno de Patrick. Eu estava uma pilha de nervos. Combinei de almoçar com eles em um restaurante comportado no Upper East Side, longe de qualquer reduto de artistas ou boates sujas. Eu vestia um suéter de tricô bege e uma saia comportada, escondendo a estrela no pulso com um relógio de couro. Eu era a "menina sem sal" de novo.

— Mariana, querida, você parece pálida — disse minha mãe, analisando-me enquanto comia sua salada. — Tem certeza de que está dormindo o suficiente? Esse curso de Direito é muito puxado.

— Estou ótima, mãe. Só estudando muito — menti, sentindo o tilintar das minhas pulseiras escondidas sob a manga do suéter. — Nova Iorque é... intensa.

— Eu vi umas notícias no jornal — meu pai começou, limpando os óculos. — Coisas sobre uns jovens atores causando confusão na cidade. Espero que você não esteja se misturando com esse tipo de gente, Mariana.

Engasguei com o suco de laranja.

— Imagina, pai. Eu mal tenho tempo de ir ao mercado.

Foi nesse exato momento que o destino resolveu pregar sua peça favorita. A porta do restaurante se abriu e um vulto de jaqueta de couro batido, óculos escuros e cabelos ondulados entrou. Patrick tinha acabado de pousar, e ele não tinha ido para o loft. Ele tinha ido me procurar.

Ele varreu o salão com os olhos verdes e, quando me viu, seu sorriso iluminou o lugar de um jeito que tornava impossível ignorá-lo. Ele caminhou em nossa direção com aquela confiança de quem era o rei do mundo.

— Mari! — exclamou ele, aproximando-se da mesa. — Eu fui ao seu apartamento, mas o Leo disse que você estaria aqui. Londres foi um porre, eu não aguentava mais um minuto sem...

Ele parou abruptamente ao notar as duas figuras estáticas à minha frente. Patrick, sendo o mestre da improvisação, tirou os óculos e assumiu uma postura quase polida, mas o brilho de sarcasmo ainda estava lá.

— Oh. Olá.

— Mãe, pai... — comecei, sentindo que meu rosto estava da cor de um tomate — ...este é o Patrick. Um... um conhecido da faculdade.

Meu pai mediu Patrick de cima a baixo. A jaqueta de couro, as botas sujas de asfalto londrino e a aura de rebeldia não ajudavam.

— Conhecido da faculdade? — meu pai repetiu, a voz carregada de ceticismo. — Você estuda Direito, rapaz?

Patrick olhou para mim, captando o desespero nos meus olhos mel-esverdeados. Ele sorriu, mas desta vez era um sorriso doce, quase tímido.

— Não, senhor. Eu sou ator. Mas eu ajudo a Mariana com os prazos e a organização. Ela é a pessoa mais dedicada que já conheci.

Minha mãe arqueou uma sobrancelha.

— Ator? Você estava naquele jornal, não estava? Com aquele rapaz do filme do navio?

— Mãe! — eu tentei intervir.

— Está tudo bem, Mari — disse Patrick, sentando-se na cadeira vaga sem ser convidado. — Sim, senhora Watts. Eu sou amigo do Leo. Nós somos jovens e, às vezes, um pouco barulhentos. Mas quero que saibam que a filha de vocês é a única coisa que mantém a gente nos trilhos. Ela tem uma luz que Nova Iorque não consegue apagar.

Houve um silêncio tenso. Meu pai encarou Patrick por longos segundos. O ar parecia carregado de eletricidade, como se estivéssemos em uma discoteca prestes a explodir.

— Você parece um baderneiro — disse meu pai, finalmente. — Mas seus olhos são honestos. E você parece gostar dela.

— Eu a adoro, senhor — Patrick respondeu, e a sinceridade na voz dele fez meu coração derreter. — E se me derem licença, eu gostaria de levar a Mariana para comemorar o retorno dela... quer dizer, o meu retorno e o sucesso dela nas provas. Prometo entregá-la intacta às dez da noite.

Minha mãe olhou para o meu pai, que deu um suspiro de derrota.

— Dez da noite, rapaz. Nem um minuto a mais.

Saímos do restaurante quase correndo. Assim que a porta se fechou e o ar frio de Manhattan nos atingiu, Patrick me puxou para um abraço apertado, girando-me no ar.

— Você é louco! — eu gritava, rindo entre as lágrimas de nervosismo. — Meus pais vão me matar!

— Eles me amaram, Problema. Todo mundo me ama — ele brincou, beijando minha testa. — Agora, chega de suéter bege. Eu tenho um presente para você.

Fomos para o loft do Leo, onde uma festa de "boas-vindas" já estava a todo vapor. Johnny estava no canto com um novo conjunto de telas, e Leo estava estourando uma garrafa de champanhe caro que provavelmente custava o aluguel do meu apartamento.

— A Ingrid voltou! — gritou Leo, jogando confete em nós. — E ela sobreviveu aos pais! Isso merece um brinde!

Patrick me levou até o canto onde suas telas estavam guardadas. Ele puxou um pano que cobria algo grande. Era uma pintura minha, mas diferente de todas as outras. Eu não estava na discoteca, nem estudando. Eu estava sentada em uma varanda, olhando para o horizonte, com uma expressão de paz que eu raramente sentia. Ao fundo, o sol nascia.

— Esse é o lugar que eu encontrei — sussurrou ele no meu ouvido. — Uma casa em Connecticut. Perto o suficiente para as audições, longe o suficiente para você estudar em paz. Com uma varanda exatamente assim.

Olhei para ele, chocada.

— Patrick...

— Eu não quero ser eterno apenas na 89 Street Club, Mariana. Eu quero ser eterno no café da manhã com você. Eu quero que as nossas noites sejam escolhas, não fugas.

Naquela noite, voltamos para a discoteca. Ao som de "Sweet Dreams", eu dancei com minhas pulseiras fazendo *tin-tin-tin*, meus olhos carregados de sombra preta e meu espírito de leopardo mais vivo do que nunca. Mas, enquanto eu olhava para Patrick, que brilhava sob as luzes estroboscópicas como se fosse feito de puro neon, eu sabia que a nossa história tinha mudado de capítulo.

Não éramos mais apenas adolescentes brincando de donos do mundo. Estávamos começando a construir o nosso próprio mundo. Um mundo onde Johnny era o tio excêntrico, Leo era o irmão problemático e Patrick era o luar que guiava meus passos.

Ao amanhecer, enquanto caminhávamos pelas ruas vazias de Nova Iorque, com o cheiro de nicotina e amor impregnado em nossas roupas, eu olhei para a estrela no meu pulso. Ela não era mais uma marca de tinta barata. Era uma tatuagem real que eu tinha feito durante a ausência dele, um segredo que eu finalmente revelei.

— Agora é para sempre — eu disse, mostrando o pulso.

Patrick parou, pegou minha mão e a beijou com uma reverência de rei.

— Sempre foi, Mariana. Desde o primeiro "what's your name, honey?".

E ali, entre o fim da noite e o começo da vida, eu entendi que ser indestrutível não era sobre não ter responsabilidades. Era sobre ter alguém por quem valesse a pena enfrentar o sol todos os dias. A fera dentro de mim estava em casa. E a discoteca, bem... a discoteca estaria sempre lá, esperando por nós, toda vez que quiséssemos lembrar como éramos quando o mundo ainda não sabia os nossos nomes.