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Noites que Nunca Têm Fim

Ouro, Cachos e o Silêncio Entre Nós

O ano de 1993 trouxe consigo uma calmaria que eu nunca imaginei ser possível para quem vivia no epicentro do furacão da Pussy Posse. Nova Iorque ainda pulsava lá fora, mas o ritmo agora era outro. Eu já não era mais a menina de cabelos indomáveis até a cintura; em um impulso de liberdade e renovação, cortei os fios na altura dos ombros, um corte reto e moderno que parecia emoldurar melhor o rosto e dar destaque aos meus olhos mel-esverdeados. Patrick, por sua vez, deixou os cachos crescerem. Agora, as ondas castanho-claras caíam em caracóis leves sobre seus ombros, dando a ele um ar de poeta romântico misturado com o perigo de um astro do rock.

Ele não era mais apenas "o amigo do Leo". Patrick Ledger agora era um nome que as pessoas sussurravam com reverência nos corredores dos estúdios. Sua notoriedade em Hollywood explodiu, mas, estranhamente, isso nos aproximou em vez de nos afastar. Meus pais, para minha surpresa absoluta, tornaram-se seus maiores fãs. Papai já não via o casaco de couro como um sinal de vadiagem, mas como o uniforme de um homem de sucesso, e mamãe vivia enviando tortas de maçã de Ohio para o nosso novo endereço.

Sim, nós morávamos juntos agora. Um apartamento espaçoso no Village, com janelas enormes que deixavam o sol entrar e iluminar as telas de pintura que Patrick insistia em manter espalhadas. A vida era boa. Era sólida.

As noites de farra desenfreada haviam cessado um pouco. Leo estava imerso nas gravações de um novo épico e Johnny passava meses fora em sets de filmagem sombrios. No entanto, o vínculo permanecia inquebrável. Recentemente, abri uma edição da *Rolling Stone* e quase derrubei meu café ao ler uma entrevista do Leo.

— "Mariana Watts é a nossa bússola" — li em voz alta, sentindo o rosto esquentar. — "Sem ela, provavelmente estaríamos todos presos ou perdidos em algum deserto. Ela não é uma namorada de grupo, ela é o sangue que corre nas nossas veias."

Patrick, que estava sentado no chão tentando afinar um violão, soltou uma risada rouca e olhou para mim por cima dos cachos.

— Ele não mentiu, honey. Você é a única pessoa que o Johnny ouve quando ele está em um daqueles dias de querer sumir do mapa. Você é parte da matilha. A imprensa finalmente entendeu que você não é um acessório. Você é o centro.

Eu me juntei a ele no chão, sentindo o cheiro familiar de tinta a óleo e o perfume masculino que agora era o cheiro da minha casa.

— É estranho ver meu nome em revistas sem ser acompanhado de termos como "intrusa" ou "garota misteriosa".

— Você nunca foi nenhuma dessas coisas para nós — ele disse, largando o violão e puxando-me para perto. — Você sempre foi a dona da porra toda. Só demorou para o mundo perceber.

Mas, apesar de toda a glória, da convivência doméstica e do amor que transbordava em cada olhar, havia um território que ainda não havíamos explorado. Um silêncio que pairava entre nós quando as luzes se apagavam e o mundo lá fora se calava. Eu ainda era virgem.

Era um tópico novo, uma barreira invisível que eu mesma havia construído, não por medo de Patrick, mas por uma espécie de reverência ao que sentíamos. Ele, com toda a sua energia de "rei do lugar" e sua maturidade desafiadora, era surpreendentemente paciente. Ele nunca pressionava. Ele parecia entender que a fera dentro de mim, tão audaz nas pistas de dança e tão respondona nos jantares de gala, ainda tinha um lado doce e intocado que precisava de tempo.

Naquela noite, o silêncio parecia mais denso. Estávamos deitados na cama, a luz da lua filtrando-se pelas cortinas de linho. O som de um saxofone distante vinha da rua, misturando-se com a respiração tranquila de Patrick. Ele estava com a cabeça apoiada no braço, observando-me com aqueles olhos verdes intensos que pareciam ler minha alma.

— No que você está pensando? — perguntou ele, a voz um sussurro que vibrava no meu peito.

— No quanto tudo mudou — respondi, passando a mão pelos cachos dele que repousavam no travesseiro. — No quanto eu mudei. Às vezes sinto falta do tilintar das pulseiras na 89 Street, mas gosto daqui. Gosto de ser eu mesma com você, sem a sombra preta nos olhos.

— Eu amo todas as suas versões — ele disse, aproximando-se. — A leopardo, a estudante, a menina de Ohio... e a Mariana que está aqui agora, tentando esconder que está nervosa.

Eu desviei o olhar por um segundo, sentindo o coração acelerar.

— Eu não estou nervosa. Só... é tudo muito novo. Morar com você, essa vida de "adultos".

Patrick segurou meu queixo com delicadeza, forçando-me a olhá-lo.

— Mari, nós passamos por tudo juntos. Enfrentamos o Leo bêbado, os paparazzi, seus pais, Londres... Você sabe que eu não vou a lugar nenhum, não sabe?

— Eu sei.

— Então por que você fica tão tensa quando o assunto é... nós? No sentido mais profundo?

Eu suspirei, sentindo o peso da confissão.

— Eu acho que tenho medo de que, depois que isso acontecer, o encanto de "eternos adolescentes" se quebre. Que a gente se torne real demais. Que a gente perca aquela magia da primeira noite na discoteca.

Patrick soltou uma risada baixa, um som que trouxe um conforto imediato.

— Honey, a magia não está na discoteca. A magia está no jeito que você me desafia. Está no fato de você ser a única pessoa que me faz querer ser um homem melhor e, ao mesmo tempo, o mesmo garoto que te deu um Marlboro Vermelho. O sexo não vai mudar quem somos. Ele só vai... soldar o que já existe.

Ele se inclinou e beijou minha testa, descendo para a ponta do meu nariz.

— Eu esperei por você em Londres, esperei você cortar o cabelo, esperei você passar em Direito. Eu posso esperar o tempo que você precisar. Eu não quero que seja apenas um evento. Quero que seja como a nossa amizade com o Leo e o Johnny: inegociável.

— Você é bom demais para ser verdade, Patrick Ledger — eu sussurrei, sentindo uma onda de gratidão e desejo misturarem-se.

— Eu sou apenas um cara de sorte que encontrou uma leopardo perdida — ele brincou, mas seus olhos mostravam uma seriedade profunda.

Ficamos em silêncio por um longo tempo, apenas sentindo o calor um do outro. Eu pensava em como Patrick Verona, o personagem que ele tanto me lembrava, teria agido. Provavelmente com algum gesto grandioso e sarcástico. Mas o meu Patrick, o Patrick real, era feito de camadas de ternura que o mundo raramente via.

— Patrick? — chamei, quebrando o silêncio.

— Hum?

— Você acha que o Leo e o Johnny desconfiam? Que ainda não... você sabe.

Ele deu um sorriso de lado, aquele sorriso que fazia as sardas em seu nariz se moverem.

— O Leo provavelmente acha que fazemos isso três vezes por dia. O Johnny... o Johnny sabe. Ele sempre sabe de tudo. Ele me disse outro dia que eu deveria cuidar bem de você, porque você é "feita de cristal e dinamite".

— Cristal e dinamite — repeti, sorrindo. — É uma boa definição.

— É a melhor definição.

Eu me aproximei mais, enterrando o rosto no pescoço dele. O cheiro de casa. O cheiro de futuro. Eu sabia que a minha virgindade era um detalhe diante da imensidão do que havíamos construído, mas também sabia que, quando chegasse a hora, não seria por pressão ou por convenção. Seria porque a fera e o rei finalmente decidiram que o mundo era pequeno demais para as suas almas ficarem separadas por qualquer barreira.

— Sabe o que eu sinto falta? — perguntei, mudando de assunto para aliviar a tensão.

— Do quê?

— De ver você dançar. Você está tão sério com esses roteiros novos, tão focado em ser o "ator promissor".

Patrick se levantou da cama em um salto, os cachos balançando. Ele foi até o rádio no canto do quarto e colocou uma fita. Em poucos segundos, as batidas de "Sweet Dreams" do La Bouche começaram a preencher o quarto, mas em um volume baixo, quase íntimo.

— Então dance comigo, Mariana Watts — ele estendeu a mão, o brilho desafiador voltando aos seus olhos. — Mostre para esse apartamento quem é a dona da noite.

Eu me levantei, rindo, e segurei sua mão. Começamos a nos mover lentamente, um contraste com a energia frenética das boates de Nova Iorque. Ali, de pijamas, sem maquiagem, sem pulseiras de metal, éramos apenas nós.

— Você cortou o cabelo, mas ainda dança como se estivesse caçando — ele observou, puxando-me para perto.

— E você deixou o cabelo crescer, mas ainda sorri como se tivesse um segredo que ninguém mais sabe.

— Meu segredo é você — ele sussurrou, parando de dançar e segurando meu rosto.

O beijo que se seguiu foi diferente de todos os outros. Não era o beijo de despedida do aeroporto, nem o beijo de celebração das festas do Leo. Era um beijo de posse, de promessa e de uma descoberta iminente. Senti minhas pernas fraquejarem, não por medo, mas por uma vontade avassaladora de me entregar àquele incêndio florestal que Johnny havia previsto meses atrás.

— Patrick... — eu disse entre os beijos, a respiração curta.

— Eu estou aqui — ele respondeu, a voz carregada de uma intensidade que me fez estremecer. — Eu sempre vou estar aqui.

Naquela noite, sob o som abafado da nossa música favorita e o olhar silencioso das telas de pintura, o tempo parou de novo. Mas não era o tempo parado de 1992, aquele que fugia da realidade. Era um tempo novo, um tempo que abraçava a maturidade, a carreira em ascensão e a aprovação dos meus pais.

Eu percebi que a minha virgindade não era um fardo, mas um presente que eu estava finalmente pronta para desembalar. E não havia ninguém no universo, nem mesmo o DiCaprio em sua melhor fase ou o Depp em seu momento mais poético, que eu preferisse ter ao meu lado.

— Você tem certeza? — ele perguntou, parando por um segundo, os olhos buscando os meus em busca de qualquer sinal de dúvida.

— Eu nunca tive tanta certeza de nada na minha vida, Patrick.

Ele sorriu, o sorriso mais lindo e engraçado que eu já vira, e me carregou de volta para a cama.

A vida era boa. O café da manhã no dia seguinte teria um gosto diferente, e eu sabia que o Leo faria alguma piada infame quando nos visse, porque ele sempre sabia quando algo mudava em nossa aura. Mas, naquele momento, as feras haviam encontrado a paz. E Nova Iorque, com todo o seu barulho e suas luzes, parecia apenas um cenário distante para a nossa própria e eterna discoteca particular.

Patrick Ledger era o meu luar, e eu era sua estrela de tinta barata que agora brilhava com a força de um sol real. Éramos jovens, éramos adultos, éramos donos do mundo — mas, acima de tudo, éramos um do outro. E isso, em qualquer década ou universo, era a única coisa que realmente importava.

Ao amanhecer, quando o sol finalmente venceu a escuridão e iluminou os cachos de Patrick espalhados pelo meu travesseiro, eu olhei para o meu pulso. A tatuagem da estrela parecia brilhar. Eu não era mais apenas a menina que se escondia sob identidades falsas. Eu era Mariana, a mulher que amava um rei, a amiga dos deuses de Hollywood e a dona do seu próprio destino.

— Bom dia, honey — Patrick murmurou, sem abrir os olhos, puxando-me para mais perto.

— Bom dia, rei do lugar — respondi, sorrindo para o teto.

A noite tinha acabado, mas a nossa história estava apenas começando o seu capítulo mais bonito.