Noites que Nunca Têm Fim
O Sorriso de Marfim e a Sombra do Olimpo
O verão de 1993 em Nova Iorque tinha um peso diferente. Não era mais a urgência desesperada de 1992, quando cada noite parecia a última chance de existir. Agora, havia uma espécie de luxo relaxado em nossas vidas. Patrick estava consolidado, os cachos castanhos agora mais longos, frequentemente presos em um coque improvisado que o deixava com um ar de intelectual rebelde. Eu, com meu corte bob loiro dourado e a segurança de quem não precisava mais de identidades falsas, sentia que a cidade finalmente tinha baixado a guarda para mim.
Estávamos no auge do calor de julho. Leo, em um de seus surtos de generosidade e tédio, decidiu que a "Pussy Posse" precisava de uma noite de gala, mas do nosso jeito. Nada de ternos apertados; apenas o melhor do nosso estilo "grunge-chic" e as chaves de uma área VIP que pouquíssimos mortais tinham o privilégio de conhecer.
— Hoje à noite não é sobre negócios, não é sobre roteiros e, pelo amor de Deus, não é sobre Direito Constitucional — declarou Leo, jogado no banco de trás da limusine, enquanto abríamos uma garrafa de cristal que brilhava tanto quanto seus olhos azuis.
— Para mim, toda noite é sobre não ser esmagado pela sua energia, Leo — brincou Patrick, passando o braço pelos meus ombros. O cheiro dele era uma mistura inebriante de tabaco caro, brisa do mar e aquele perfume futurista que se tornara minha droga favorita.
— Deixa ele, Pat — eu disse, sentindo o tilintar das minhas pulseiras — *tin-tin-tin* — enquanto ajeitava meu vestido de seda cor de champanhe. — Ele só quer ter certeza de que ainda somos os donos da cidade.
Chegamos ao *Tatou*, um clube que misturava a decadência de um teatro de ópera com a exclusividade de um jantar clandestino. O ar estava saturado de poder. Johnny já estava lá, escondido atrás de óculos escuros em um canto escuro, parecendo um xamã moderno. Mas o que mudou a temperatura da sala não foi a nossa chegada. Foi a presença de um homem no centro do salão, cercado por uma aura que parecia repelir a gravidade.
Tom Cruise.
Ele não era apenas um ator; ele era o Sol em torno do qual Hollywood orbitava na época. O sorriso era tão branco que parecia emitir luz própria, um contraste perfeito com o cabelo impecável e o terno que provavelmente custava mais do que o meu apartamento no Village.
— Vejam só — murmurou Patrick, sua voz descendo um oitavo, aquele tom de desafio que ele usava quando encontrava outro predador no território. — O Rei do Top Gun resolveu descer do porta-aviões.
Leo deu um sorriso travesso.
— Ele é amigo do meu agente. Vamos lá, Mari, vamos ver se o brilho dele é real ou apenas pós-produção.
Fomos conduzidos até a mesa central. A transição foi fluida, como se fizéssemos parte daquela coreografia de elite desde sempre. Tom se levantou, a energia dele sendo algo quase físico, uma intensidade que fazia Patrick parecer um poeta sombrio e Leo um adolescente hiperativo.
— Leo! Johnny! — A voz de Tom era projetada, clara, treinada para comandar. Ele cumprimentou os rapazes com tapinhas nos ombros, mas seus olhos, azuis e focados como lasers, logo pousaram em mim.
— E esta deve ser a famosa Mariana — disse ele, pegando minha mão. Ele não a beijou; ele a segurou por um segundo a mais do que o necessário, um gesto de domínio disfarçado de cortesia. — Ouvi dizer que você é a alma desse grupo indomável.
— Eles gostam de exagerar, Sr. Cruise — respondi, mantendo o tom Alaska Young: doce, mas com um espinho escondido. — Eu sou apenas a pessoa que lembra a eles de beber água entre uma dose de tequila e outra.
Tom soltou uma risada que soou perfeitamente ensaiada.
— Por favor, me chame de Tom. E eu duvido que seja "apenas" isso. Há algo nos seus olhos... uma sagacidade que não se encontra em qualquer lugar.
Patrick se aproximou, sua presença física tornando-se uma barreira sutil entre mim e o brilho de Tom. Ele colocou a mão na minha cintura, os dedos longos espalhando-se sobre a seda do meu vestido.
— Ela é o nosso segredo mais bem guardado, Tom — disse Patrick, com um sorriso que não chegava aos olhos verdes. — E, como todo segredo, é melhor não ser muito analisado.
— Compreendo perfeitamente, Patrick — Tom respondeu, a voz mantendo uma suavidade perigosa. — Mas talento e inteligência devem ser celebrados. Mariana, eu adoraria ouvir sua opinião sobre um projeto que estou desenvolvendo. Algo sobre a juventude de Nova Iorque. Você parece ter a perspectiva autêntica que falta nos roteiros de hoje.
— Ela está um pouco ocupada com a faculdade de Direito, Tom — interveio Leo, percebendo a tensão que começava a faiscar entre Patrick e o astro veterano. — Ela vai ser a advogada que vai nos tirar da cadeia quando a gente finalmente passar dos limites.
— Direito? Impressionante — Tom continuou, ignorando Leo e mantendo o foco em mim. — Uma mente brilhante em um ambiente tão... vibrante. Gostaria de convidá-la para um jantar na próxima semana. Apenas para conversarmos sobre ideias. Sem pressões, apenas "amigos" trocando visões de mundo.
O silêncio que se seguiu foi pesado. Johnny, que até então parecia uma estátua, levantou o olhar por cima dos óculos. Patrick tensionou o maxilar, o tipo de reação que ele tinha quando alguém tentava reescrever suas falas.
— Eu agradeço o convite, Tom — eu disse, sentindo o peso do olhar de Patrick sobre mim —, mas minha agenda de "cúmplice" e estudante está um pouco lotada. E, para ser sincera, eu prefiro as noites onde nada é planejado. Onde as ideias surgem entre uma caixa de pizza e uma tela de tinta barata.
Tom não pareceu ofendido. Pelo contrário, o desafio pareceu alimentá-lo.
— Gosto disso. Espontaneidade é uma virtude rara. Mas o convite fica de pé. Às vezes, Mariana, é bom ver o mundo de uma perspectiva um pouco mais... elevada.
Ele me entregou um cartão pequeno, com um brasão discreto. Patrick quase rosnou ao meu lado.
— Vamos dançar, Mari — disse Patrick, não sendo um pedido, mas uma necessidade de me tirar daquele campo gravitacional.
Fomos para a pista de dança. A música era um remix de algo etéreo, mas o clima entre nós era elétrico. Patrick me puxou para perto, seus cachos roçando minha testa.
— O que foi aquilo? — perguntou ele, a voz rouca de ciúmes e proteção. — O cara age como se fosse o dono do sol e da lua.
— Ele é o Tom Cruise, Pat. Ele está acostumado a ter todo mundo orbitando ao redor dele — respondi, passando os braços pelo pescoço dele, sentindo o calor da sua pele. — Mas ele esqueceu que eu já tenho o meu próprio universo.
— Ele não quer ser seu "amigo", Mariana. Ele quer colecionar você. Ele quer colocar essa sua energia de fera noturna em uma redoma de vidro e chamar de inspiração.
— Ele pode tentar — eu sorri, puxando-o para um beijo que tinha gosto de desafio. — Mas ele não sabe que eu mordo.
Dançamos por horas, tentando ignorar a presença magnética de Tom no camarote superior. Johnny e Leo se juntaram a nós, formando nosso círculo habitual, a matilha protegendo seu território. Mas, ao longo da noite, eu sentia o olhar de Tom. Não era um olhar de luxúria comum; era o olhar de um caçador que encontrou uma espécie que ele ainda não tinha em sua vitrine.
Por volta das três da manhã, quando o álcool e a música começavam a soldar nossos pensamentos em uma massa de euforia, fomos para a varanda do clube para respirar o ar úmido de Nova Iorque. Tom estava lá, sozinho, observando as luzes da cidade.
— Nova Iorque nunca dorme, não é? — disse ele, sem se virar. — Mas ela cobra um preço alto de quem tenta dominá-la.
— Nós não tentamos dominá-la, Tom — eu disse, aproximando-me do parapeito, com Patrick logo atrás de mim, como uma sombra vigilante. — Nós apenas vivemos nela. Há uma diferença.
Tom se virou, o sorriso de marfim agora substituído por algo mais contemplativo e, de certa forma, mais predatório.
— Vocês são jovens. Sentem-se indestrutíveis. Eu já estive nesse lugar. Mas a indústria, Mariana... ela consome a autenticidade como combustível. Patrick tem um brilho raro, mas ele é volátil. Você, por outro lado, tem uma solidez que é perigosa.
— O que você quer, Tom? — Patrick perguntou, direto, sem paciência para metáforas de Hollywood.
— Quero ver até onde essa lealdade de vocês vai — respondeu Tom, dando um passo em nossa direção. — O mundo está mudando. A diversão inconsequente dos anos 90 vai dar lugar a algo mais controlado. Eu estou oferecendo a Mariana uma chance de estar à frente disso.
— Eu prefiro ficar aqui atrás, com os meus amigos, cometendo meus erros sagazes — eu disse, guardando o cartão dele no bolso apenas para depois jogá-lo no primeiro bueiro que encontrasse. — Minha lealdade não é um contrato, Tom. É a minha natureza.
Tom assentiu, um reconhecimento silencioso de que ele tinha encontrado uma resistência que não podia comprar com um sorriso ou um papel principal.
— Uma pena. Seríamos uma equipe formidável. Mas aproveitem a noite. Ela é curta, mesmo para os eternos.
Ele saiu, deixando para trás o cheiro de um perfume caro e a sensação de que tínhamos acabado de escapar de uma armadilha muito bem montada.
— Puta merda — suspirou Patrick, encostando a cabeça no meu ombro. — Aquele cara me dá calafrios. É como conversar com um comercial de TV que sabe onde você mora.
Eu ri, sentindo a tensão deixar meus ombros.
— Ele é apenas um homem que esqueceu como é ter cheiro de pizza de 99 centavos, Pat. Ele vive no Olimpo. Nós vivemos no asfalto. E o asfalto é muito mais divertido.
Leo apareceu na porta da varanda, com duas garrafas de cerveja e um olhar de quem tinha acabado de descobrir um segredo de Estado.
— O que o Top Gun queria? Ele tentou recrutar vocês para alguma seita ou algo assim?
— Ele tentou recrutar a Mariana para ser a "musa" dele — Patrick respondeu, pegando uma das cervejas. — Mas ele descobriu que a nossa leopardo não gosta de coleiras, nem mesmo as de ouro.
— Boa garota! — Leo brindou. — Vamos sair daqui. O Johnny disse que sabe de um lugar no Queens que serve café da manhã para vampiros e atores desempregados.
Entramos no Cadillac de Leo, a cidade começando a ganhar tons de azul-acinzentado. Patrick segurou minha mão com força, os cachos caindo sobre os olhos enquanto ele observava o amanhecer.
— Você está bem? — perguntou ele, a voz suave.
— Estou ótima. Só estava pensando no que ele disse... sobre a noite ser curta.
— Para ele, talvez — Patrick disse, beijando meus dedos, exatamente sobre a tatuagem da estrela. — Mas enquanto a gente tiver esse caos, enquanto a gente tiver o tilintar das suas pulseiras e a loucura do Leo, o tempo não tem poder sobre nós.
Chegamos ao Queens quando o sol começava a arder. Sentamos em uma lanchonete de fórmica descascada, cercados por trabalhadores que começavam o dia e por nós, que nos recusávamos a terminá-lo. Patrick desenhou um rascunho rápido no guardanapo: eu, encarando Tom Cruise com um olhar de quem estava prestes a morder sua mão.
— Para a sua coleção de "momentos em que eu fui incrível" — brincou ele.
— Eu vou guardar junto com as juras de amor ao alvorecer — respondi.
A noite de 1993 continuava a nos soldar. Tom Cruise era apenas uma sombra gigante que tínhamos atravessado. Ele representava o futuro, a perfeição plástica, o controle. Nós representávamos o agora, a tinta borrada, a lealdade irracional.
— Sabe de uma coisa? — eu disse, olhando para Leo, Johnny e Patrick. — Ele estava certo sobre uma coisa. Nós somos perigosos. Mas não porque somos brilhantes. Somos perigosos porque não precisamos de ninguém além de nós mesmos.
Patrick sorriu, aquele sorriso de pássaro que trazia boas notícias, e me puxou para um abraço que cheirava a sobrevivência e vitória.
— What’s your name, honey? — perguntou ele, revivendo nossa piada eterna.
— Meu nome é Aquela que o Tom Cruise não conseguiu comprar — respondi, fazendo todos na lanchonete olharem para a nossa mesa enquanto explodíamos em gargalhadas.
Éramos feras, éramos indestrutíveis, e Nova Iorque, com todos os seus sorrisos de marfim e suas promessas de Olimpo, ainda era o nosso quintal sujo e maravilhoso. A luz das estrelas estava se apagando, mas a fera dentro de mim nunca estivera tão acordada. E Patrick, com seus cachos ao vento e seus olhos verdes intensos, era o único rei que eu aceitaria seguir, em qualquer discoteca ou amanhecer que o destino decidisse nos dar.