Project HUNT
O Som do Metal e a Dança das Cicatrizes
O estrondo da primeira machadada contra a porta de madeira maciça do banheiro fez o grupo saltar. O impacto foi tão violento que as dobradiças gemeram, e uma lasca de madeira voou, atingindo o espelho acima das pias, que terminou de se estilhaçar. Jason estava lá fora. E ele não estava sozinho; o radar no pulso de Luka apitava freneticamente, indicando que a morte havia cercado o perímetro.
— Eles vão entrar! — gritou Sua, encolhendo-se contra as cabines.
— Não se não sairmos primeiro! — Hyuna apontou para uma pequena janela basculante, no alto da parede dos fundos, que dava para um pátio interno gramado. — É o primeiro andar, a queda é curta. Vamos!
Jason desferiu o segundo golpe. A porta começou a ceder, revelando a máscara de hóquei branca e inexpressiva através da fenda. Atrás dele, Jeff e Wraith aguardavam como abutres, prontos para o massacre assim que a barreira caísse.
— Hyuna, Till, vão primeiro! — comandou Luka, ajudando-os a subir nas pias para alcançar a abertura.
Hyuna impulsionou-se com agilidade, passando pela janela e desaparecendo na escuridão lá fora. Till, mesmo com o braço latejando, seguiu logo atrás, caindo de forma desajeitada na grama úmida. Sua foi a próxima, sendo içada pelas mãos fortes de Ivan.
— Vai, Sua! — Mizi deu um empurrão encorajador na amiga.
A porta do banheiro finalmente cedeu. O armário de metal que servia de barricada foi arremessado para o lado como se fosse feito de papelão. Jason entrou, o machado erguido. Ivan e Luka pularam pela janela quase simultaneamente, restando apenas Mizi.
Ela se agarrou ao batente da janela, mas sentiu uma mão enluvada e fria agarrar seu tornozelo com a força de um torno. Jason a puxou de volta. No mesmo instante, Wraith, que havia se esgueirado pelo lado, desferiu um golpe rápido.
— AH! — O grito de Mizi cortou o ar quando a lâmina da faca de Wraith perfurou sua coxa.
O sangue quente ensopou sua calça instantaneamente. O pânico tentou dominá-la, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Sem olhar para trás, ela usou a outra perna para desferir um chute violento e cego, atingindo o peito de Jason. O gigante vacilou por um milésimo de segundo, o suficiente para que ela soltasse a perna e se jogasse pela janela.
Ela caiu na grama, rolando de dor. A faca de Wraith ainda estava cravada em sua carne.
— Mizi! — Sua correu até ela, as mãos trêmulas indo em direção ao ferimento.
— Não para! — Mizi rangeu os dentes e, em um movimento brusco e agonizante, arrancou a faca da própria perna. — Temos que correr!
Ela mal teve tempo de se apoiar em Hyuna quando Jeff surgiu contornando o prédio. Ele vira Luka pular e antecipara o movimento do grupo. O assassino corria em uma velocidade assustadora, a faca brilhando sob a luz da lua.
— Ele não desiste! — Till rosnou, desembainhando sua adaga.
Quando Jeff saltou para o ataque, Till interceptou o golpe. O som do metal colidindo ecoou. Till conseguiu acertar a lâmina da adaga no ombro de Jeff, atordoando o assassino por alguns segundos preciosos conforme as regras do relógio.
— Agora! Sumam daqui! — gritou Till.
O grupo disparou pela rua deserta, mas o destino parecia determinado a esmagá-los. Ao dobrarem a esquina, pararam bruscamente. Parado no meio do asfalto, bloqueando o caminho, estava Michael Myers. Ele não corria. Ele apenas observava, a faca de cozinha pendendo ao lado do corpo.
Michael levou a mão a um rádio em seu cinto. Instantes depois, Veil emergiu de um beco à esquerda, e Jeff, já recuperado do atordoamento, surgiu à direita. Eles estavam encurralados em um triângulo de morte.
— Eles estão coordenando... — sussurrou Luka, o radar apitando sem parar.
Jeff, bufando de ódio, avançou diretamente contra Mizi, vendo-a como o elo mais fraco por estar ferida. Ela se abaixou no último segundo, sentindo o vento da faca passar sobre sua cabeça, e desferiu um soco certeiro no queixo de Jeff. A força do impacto fez o assassino soltar a faca.
Ivan, que observava tudo com uma calma predatória, agiu como um raio. Ele se lançou ao chão, pegou a faca de Jeff e, com um movimento preciso e cruel, cravou-a na testa do assassino. O corpo de Jeff tombou pesado, finalmente imóvel.
— Um a menos — murmurou Ivan, mas não houve tempo para comemorar.
Um som de disparo metálico cortou o ar. Veil lançara seu arpão. A ponta de aço cravou-se profundamente no ombro de Ivan, arremessando-o para trás.
— IVAN! — Till gritou, tentando avançar, mas Veil começou a recolher o cabo de aço, puxando Ivan em sua direção como se ele fosse um peixe fisgado.
Mizi, ignorando a dor lancinante na perna, pegou a faca que acabara de retirar de sua própria coxa e correu até o cabo esticado. Com um golpe desesperado, ela cortou o fio de aço.
— Vão! Vão agora! — Mizi puxou Ivan pelo braço bom, e o grupo saiu em disparada, mancando e sangrando, pela rua escura.
Eles avistaram a fachada de um supermercado abandonado e mergulharam para dentro, escondendo-se entre as prateleiras de cereais e produtos de limpeza. O silêncio voltou, mas era um silêncio carregado de agonia. Michael Myers e Veil perderam o rastro na escuridão das gôndolas.
— Precisamos tirar isso... — disse Ivan, a voz rouca enquanto se encostava em um freezer desligado. O arpão ainda estava alojado em seu ombro.
— Eu faço — disse Luka, aproximando-se com o olhar firme. — Sua, prepare as bandagens.
Ivan cerrou os dentes, o suor escorrendo por seu rosto pálido. Luka segurou a haste de metal e, com um movimento rápido, a removeu. Ivan soltou um gemido abafado, quase um rosnado, enquanto Sua rapidamente envolvia o ferimento com gaze, estancando o fluxo de sangue.
Eles passaram a noite ali, dividindo latas de conserva frias encontradas nas prateleiras. Mizi cuidou de sua perna, enquanto Sua tentava confortar a todos com sua presença gentil. O cansaço finalmente os venceu, e eles dormiram em turnos, protegidos pelas sombras do mercado.
O amanhecer, porém, não trouxe paz.
Um grito gutural vindo da seção de carnes acordou o grupo.
— TILL! — Hyuna reconheceu a voz imediatamente.
Eles correram para os fundos do mercado. Till estava caído sobre o balcão de inox, e Jason estava sobre ele. O gigante usava uma das mãos para prensar o peito de Till contra o metal, enquanto a outra levantava o machado para um golpe final. Till tentava resistir, mas seu braço ferido cedia sob o peso esmagador do assassino.
— Ei, sua aberração! — Luka gritou, pegando um enorme bife congelado de um freezer aberto e arremessando-o com toda a força na máscara de Jason.
O pedaço de carne atingiu o alvo com um barulho seco. Jason parou. Lentamente, ele virou a cabeça para Luka. O gesto não o feriu, apenas o deixou profundamente irritado. Jason soltou Till, arremessando-o no chão como se fosse lixo, e avançou contra Luka com o machado erguido.
— Luka, sai daí! — berrou Mizi.
Till, aproveitando a distração, rastejou e cravou sua adaga na panturrilha de Jason. O gigante rugiu de dor e cambaleou.
— Corram para fora! — ordenou Hyuna.
Eles irromperam pelas portas automáticas do supermercado, mas o asfalto lá fora já tinha dono. Veil estava esperando, o lançador de arpão recarregado e apontado.
— ABAIXEM! — Hyuna gritou.
Todos se jogaram ao chão, exceto Sua, cujos reflexos foram lentos pelo medo. O arpão passou zunindo, rasgando a manga de sua blusa e deixando um sulco ensanguentado em seu braço pálido.
— Ela está recarregando! — Luka percebeu. — O hospital! Entrem no hospital!
O complexo hospitalar ficava logo à frente. Eles entraram em pânico, correndo pelos corredores brancos e estéreis. No caos da fuga, o grupo se dispersou.
Sua, Hyuna e Till entraram em uma sala de vacinação, trancando a porta de aço por dentro e empurrando macas contra a entrada. Eles podiam ouvir os passos de Veil passando pelo corredor, o som metálico de seu equipamento ecoando nas paredes.
Luka e Ivan conseguiram se esconder atrás do balcão de mármore da recepção principal, mantendo-se imóveis enquanto Michael Myers passava lentamente pelo saguão, a faca de cozinha arrastando-se pelo corrimão.
Mizi, separada de todos e mancando pesadamente, desceu uma escadaria de serviço que levava ao porão. O ar ali era úmido e cheirava a mofo. Ela entrou em uma sala de manutenção cheia de caldeiras e trancou a porta.
Seus olhos dourados se arregalaram. Ali, no centro da sala, cercado por tubulações de vapor, estava um gerador.
— Achei você... — ela sussurrou, a voz trêmula.
Ignorando a dor latejante na perna e o cansaço que ameaçava desmaiá-la, Mizi arrastou-se até a máquina. Ela abriu o painel lateral e olhou para o emaranhado de cabos.
— Certo, Mizi... pensa rápido — ela disse a si mesma, as mãos sujas de sangue e graxa começando a trabalhar nos circuitos. — Se eu ligar isso, a gente tem uma chance. Só mais um pouco.
Lá em cima, o hospital tornou-se um labirinto de silêncio e morte, enquanto os sobreviventes esperavam, cada um em seu esconderijo, pelo som do próximo bipe em seus pulsos. O jogo continuava, e a cidade murada não mostrava piedade.