Project HUNT
O Sacrifício na Alvura do Hospital
No andar de cima do hospital, o ar cheirava a éter e morte iminente. Hyuna, Sua e Till estavam espremidos contra a porta de aço da sala de vacinação. O som metálico do equipamento de Veil do lado de fora era como um metrônomo do desespero. Cada passo daquela mulher mascarada fazia o coração de Sua falhar uma batida.
— A gente tem que vazar daqui agora — sussurrou Till, apertando o cabo da adaga. — Se aquela desgraçada resolver arrombar essa porta, a gente tá frito.
— Pensa, Hyuna, pensa... — Hyuna murmurava para si mesma, ignorando a dor do ferimento de Jason. — Ela tá patrulhando o corredor. Se a gente sair correndo, o arpão dela pega um de nós antes de darmos três passos.
De repente, um estrondo colossal ecoou do saguão principal, seguido pelo som de vidro se estilhaçando e metal retorcendo.
No andar de baixo, Ivan e Luka haviam chegado ao limite do silêncio. Michael Myers estava a poucos metros do balcão da recepção, sua sombra longa se projetando sobre o mármore frio. Ivan olhou para Luka e levantou três dedos.
Um. Dois. Três.
— Agora, porra! — Ivan rugiu.
Eles saltaram de trás do balcão. Luka, usando toda a força de suas pernas, investiu contra as costas de Michael, empurrando-o com o peso do corpo. O assassino vacilou. Ivan não perdeu tempo; ele arrancou um telefone fixo da base com um puxão violento e desferiu um golpe brutal no rosto mascarado de Michael. O som do plástico batendo contra a máscara branca foi seco.
— Empurra ele! — gritou Ivan.
Luka deu um chute lateral no peito do assassino, jogando-o contra uma máquina de refrigerantes. O impacto foi tão forte que a máquina tombou para frente, caindo sobre Michael com um estrondo metálico que fez o chão vibrar.
O barulho serviu como a distração que o grupo de cima precisava. Veil, ouvindo a confusão, abandonou a porta da sala de vacinação e disparou em direção às escadas.
— Ela saiu! — Hyuna abriu a porta. — Vamos, rápido!
Eles desceram as escadas correndo, mas ao chegarem ao saguão, a cena era um pesadelo. Ivan e Luka estavam encurralados. Michael Myers já estava se levantando, empurrando a máquina de refrigerantes como se fosse um brinquedo, e Veil acabara de entrar no salão, apontando seu lançador de arpão.
— Cadê a Mizi? — Sua perguntou, a voz subindo uma oitava. — Onde ela tá?!
Ninguém respondeu. O silêncio que se seguiu foi quebrado pelo som de passos pesados vindos da entrada principal. Jason apareceu. Ele caminhava com uma calma aterrorizante, e seu enorme machado estava ensopado de sangue fresco que pingava no chão branco.
O estômago de Sua revirou. Ao ver o sangue no machado e perceber que Mizi não estava com o grupo, a conclusão foi imediata e devastadora.
— Não... não, não, não! — Sua caiu de joelhos, as lágrimas transbordando. — Ela não... ela não pode ter morrido! Mizi!
— Porra, não dá pra desistir agora, Sua! — Till gritou, mas sua voz também tremia.
Ivan levantou o telefone fixo novamente, os olhos pretos injetados de adrenalina.
— Vem, seu merda! — ele desafiou Michael. — Eu vou te moer na pancada!
Luka estava paralisado. Seus cálculos haviam falhado. Eles estavam cercados por três assassinos, sem rota de fuga e sem sua melhor combatente. Hyuna tentava procurar uma saída, mas Jason bloqueava a única porta larga.
— Acabou... — sussurrou Sua, soluçando. Ela fechou os olhos, esperando o machado ou o arpão.
De repente, o silêncio do hospital foi cortado por um bipe estridente e uníssono. Todos os relógios vibraram violentamente. O visor de todos marcou: 2/6.
Os assassinos pararam por um segundo, confusos com o sinal. Foi nesse momento que um estrondo veio das portas de serviço atrás de Jason.
— SENTIRAM MINHA FALTA, SEUS FILHOS DA PUTA? — O grito de Mizi ecoou pelo saguão.
Ela surgiu dos fundos, mancando pesadamente, mas com uma expressão de fúria absoluta. Ela não estava apenas fugindo; ela estava atacando. Antes que Veil pudesse reagir, Mizi saltou sobre as costas da mulher mascarada, enrolando um fio de cobre grosso que trouxera do porão em volta do pescoço dela.
— Morre, desgraçada! — Mizi puxava o fio com toda a força, enforcando Veil.
Jason, vendo sua aliada ser atacada, rugiu e investiu contra Mizi. Com um movimento desesperado, Mizi usou o impulso para lançar Veil contra uma janela de vidro temperado. O corpo da assassina atravessou o vidro, caindo no pátio externo.
Mizi sacou a pistola e apontou para o peito de Jason.
— Agora você vai ver! — Ela puxou o gatilho.
*Click.*
A arma emperrou. De novo.
— Ah, você tá de brincadeira comigo! — Mizi praguejou, os olhos arregalados.
Jason ergueu o machado para um golpe descendente que dividiria Mizi ao meio. Ela estava exausta, a perna ferida cedeu e ela fechou os olhos.
— MIZI! — O grito de Hyuna foi a última coisa que ela ouviu antes do impacto.
Mas o impacto não veio para Mizi. Hyuna havia se lançado na frente, empurrando Mizi para longe. O machado de Jason desceu com uma força brutal, atingindo o topo da cabeça de Hyuna.
O som foi algo que nenhum deles jamais esqueceria. O corpo de Hyuna caiu instantaneamente, sem um gemido, o sangue moreno espalhando-se rapidamente pelo piso de mármore.
— HYUNA! — Till berrou, um som de pura agonia.
— Não olha! — Ivan reagiu com uma frieza desesperada. Ele agarrou Luka pelo colarinho. — A gente tem que vazar agora ou o sacrifício dela vai ser pra nada!
Jason tentou puxar o machado, mas ele havia ficado preso por um momento. Mizi, em choque, sentiu as mãos de Sua puxando-a.
— Mizi, levanta! Por favor, levanta! — Sua gritava, a voz rouca de tanto chorar.
Till, cego de raiva, tentou avançar contra Jason com a adaga, mas Luka o segurou pela jaqueta.
— Till, se você for, você morre! VAMOS! — Luka o puxou com uma força que ninguém sabia que ele tinha.
Os cinco sobreviventes dispararam para fora do hospital, deixando para trás o corpo de Hyuna e o gigante que tentava soltar sua arma. Eles correram pelas ruas, virando esquinas sem rumo, guiados apenas pelo pânico e pela necessidade de se esconderem.
Minutos depois, exaustos e cobertos de sangue — tanto deles quanto de Hyuna —, eles encontraram um galpão de armazenamento de grãos nos limites da zona industrial. Entraram e trancaram as portas pesadas de correr, desabando no chão poeirento.
O silêncio no galpão era sufocante.
— Ela... ela morreu por minha causa — Mizi sussurrou, as mãos trêmulas cobrindo o rosto. — Aquele machado era pra mim. Por que aquela idiota fez isso?
— Porque ela era melhor que todos nós juntos, porra! — Till chutou uma lata de metal, fazendo um barulho ensurdecedor. — Caralho! Por que tudo tem que dar errado nessa merda de lugar?
Ivan estava sentado em um canto, limpando o sangue do ombro. Ele olhou para Mizi com um olhar gélido.
— Ela fez uma escolha, Mizi. Agora você tem que viver com isso. Se você começar a se culpar e travar, vai ser a próxima. E eu não vou me jogar na frente de machado nenhum por você.
— Cala a boca, Ivan! — Luka interveio, a voz trêmula. — A gente acabou de perder uma pessoa. Tenha um pouco de decência, caralho.
— Decência não abre portão, Luka — Ivan retrucou, embora seu tom tivesse baixado. — A gente tem dois geradores ligados. Faltam quatro. E agora somos cinco.
Sua estava abraçada a Mizi, chorando silenciosamente. Ela pegou as bandagens e começou a limpar o ferimento na perna de Mizi, que estava feio e inflamado.
— A gente precisa se organizar — disse Luka, tentando retomar o controle racional. — O radar tá limpo por enquanto. Eles provavelmente estão reagrupando. Nós matamos o Jeff e ferimos a Veil. O Jason e o Michael ainda estão inteiros.
— O Jason tá com ódio — Mizi disse, olhando para o nada. — Eu vi nos olhos dele através daquela máscara. Ele não vai parar até matar cada um de nós.
— Que venha — Till disse, sentando-se no chão e afiando a adaga em uma pedra. — Eu vou enfiar essa lâmina no pescoço de cada um deles. Pela Hyuna.
— A gente não pode lutar contra todos eles de frente — Luka lembrou. — O plano continua o mesmo. Achar os geradores, ligar e vazar. Mas agora, a gente faz isso com mais cuidado.
Mizi levantou a cabeça. Suas pontas azuis estavam sujas de graxa e o cabelo rosa desgrenhado. Ela olhou para o relógio. O tempo de recarga da pistola estava quase no fim.
— Eu liguei o gerador do hospital — disse ela, a voz endurecendo. — Eu quase morri naquele porão, mas eu liguei. A Hyuna não morreu pra gente ficar aqui choramingando.
Ela se levantou, ignorando a dor na perna. Sua a ajudou a se equilibrar.
— O próximo que aparecer na minha frente... eu não vou errar o tiro — Mizi afirmou, e pela primeira vez, não havia brincadeira em sua voz. Havia apenas um desejo sombrio de retribuição.
— É assim que se fala, porra — Till murmurou, levantando-se também.
Eles se olharam, um grupo fragmentado, ferido e em luto, mas agora unidos por algo mais forte que o medo: a dívida de sangue que tinham com a garota que ficara para trás. No galpão escuro, o cheiro de poeira e suor misturava-se à promessa de vingança. O complexo ainda era uma prisão, mas os prisioneiros estavam começando a aprender a morder de volta.