Project HUNT
O Peso da Sobrevivência e o Gosto do Ferro
O galpão de armazenamento de grãos parecia uma tumba empoeirada, mas o silêncio durou pouco. Enquanto o grupo tentava recuperar o fôlego, Luka, cujos olhos estavam sempre atentos ao ambiente, percebeu algo nos fundos da estrutura. Entre pilhas de sacos de estopa e maquinário agrícola antigo, um brilho metálico familiar refletia a luz fraca que entrava pelas frestas do telhado.
— Olhem ali — sussurrou Luka, apontando. — Outro gerador.
A sorte parecia ter finalmente sorrido para eles, mas o sorriso foi curto e amargo. Antes que pudessem comemorar, uma sombra se desprendeu das vigas do teto. Wraith, o assassino mais furtivo do complexo, desceu silenciosamente, bloqueando o caminho entre os sobreviventes e a máquina. A faixa em seu olho e as roupas cinzas o faziam parecer parte da própria poeira do galpão.
— Droga, ele nos seguiu — rosnou Till, já preparando a adaga.
Mizi deu um passo à frente, sentindo a perna latejar violentamente. Ela olhou para o gerador e depois para os amigos.
— Luka, Sua, vão para o gerador. Agora! — ordenou ela, a voz firme apesar do tremor nas mãos.
— Mizi, você está ferida, não pode enfrentar ele sozinha! — Sua gritou, as lágrimas voltando a inundar seus olhos roxos.
Mizi virou-se brevemente, dando um sorriso triste, mas determinado.
— Eu dou a minha palavra que vou ficar viva. Eu juro. Mas se não ligarmos esse gerador, ninguém sai daqui.
Till tentou avançar para ficar ao lado dela, mas foi impedido por um braço forte. Ivan o agarrou pelo colarinho e o empurrou em direção à sala de máquinas onde ficava o gerador.
— Entra logo, Till! — Ivan rugiu, arrastando o garoto de cabelo cinza.
— Me solta, Ivan! Ela vai morrer! — Till lutava contra o aperto, mas Ivan era implacável.
Ivan o jogou para dentro da sala junto com Luka e Sua, batendo a porta de metal e trancando-a por dentro. Ele se virou para Till, os olhos pretos brilhando com uma seriedade gélida.
— Escuta aqui, seu idiota — disse Ivan, segurando Till contra a parede —, a Mizi fez a escolha dela. Se você sair agora, só vai atrapalhar e morrer junto. O trabalho de vocês é ligar essa merda de gerador. O meu é garantir que ninguém entre aqui. Segura a porta caso ele tente arrombar.
Do lado de fora, Mizi encarava Wraith. O assassino não esperou. Ele avançou com a faca longa, movendo-se com uma precisão cirúrgica. Mizi, apesar da perna inflamada, usou sua agilidade natural para girar e se esquivar. Ela deu um "olé" em Wraith, passando por baixo de um golpe e chutando uma pilha de paletes de madeira no caminho dele.
Wraith não parou; ele saltou sobre os obstáculos com uma facilidade assustadora. Mizi corria entre as máquinas de beneficiamento de grãos, sentindo o ar queimar em seus pulmões. Ela derrubou um grande armário de ferramentas no meio do corredor, jurando que aquilo o atrasaria, mas o assassino apenas usou o móvel como trampolim, ganhando velocidade.
— Por favor... funciona uma última vez — Mizi sussurrou, sacando a pistola.
Ela parou, firmou os pés no chão e mirou. Ela não buscou a cabeça; buscou a mobilidade.
*BANG!*
Desta vez, a bala encontrou o alvo. O disparo atingiu o joelho de Wraith. O assassino soltou um grunhido seco e caiu de um lado, mas seu treinamento era superior à dor. Antes que Mizi pudesse comemorar, ele se impulsionou com a perna sã e desferiu uma facada desesperada.
Mizi não teve tempo de desviar. Por puro instinto, ela enfiou a mão na frente do rosto. A lâmina atravessou a palma de sua mão, saindo do outro lado.
— AHHH! — O grito de Mizi ecoou pelo galpão, fazendo Sua chorar ainda mais alto do outro lado da porta trancada.
Wraith arrancou a faca da mão dela com brutalidade, preparando-se para o golpe final no pescoço. Mizi, em um surto de adrenalina pura, deu uma cabeçada violenta contra a máscara do assassino. O impacto a deixou tonta, mas deu a ela os segundos necessários para se arrastar em direção a um balcão nos fundos.
Ali, instalado na bancada de descarte, havia um triturador industrial de resíduos orgânicos, usado para moer sobras de grãos e cascas. Mizi alcançou o botão de ligar com a mão sã. A máquina rugiu, suas lâminas de aço girando em uma velocidade ensurdecedora.
Wraith veio atrás dela, mancando, mas ainda letal. Quando ele levantou a faca para desferir o golpe de misericórdia, Mizi usou toda a força que restava em seu corpo para chutar a perna ferida do assassino. O equilíbrio de Wraith falhou, e a faca voou para longe, perdendo-se entre as engrenagens de outra máquina.
— Isso é pela Hyuna! — Mizi gritou.
Ela agarrou Wraith pelo pescoço e pelo ombro, usando o próprio peso para empurrá-lo contra o balcão. Com um esforço sobre-humano, ela forçou a cabeça do assassino para baixo, em direção à boca do triturador. Wraith lutava, suas mãos agarrando os braços de Mizi e enterrando as unhas em sua carne, mas ela não cedeu. Ela afundou a cabeça dele no mecanismo.
O som foi horrível. Um ruído de algo sólido sendo mastigado por metal, seguido por um jorro de sangue e carne moída que espirrou para todos os lados, sujando o rosto de Mizi e as paredes do galpão. O corpo de Wraith teve um último espasmo violento antes de ficar completamente inerte.
Mizi soltou o cadáver e caiu para trás, respirando de forma entrecortada. O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo zumbido contínuo do triturador.
Lentamente, a porta da sala do gerador se abriu apenas uma fresta. Ivan espiou para fora, cauteloso. Ao ver a cena, ele abriu a porta completamente. Luka e Sua saíram logo atrás, com o bipe do relógio confirmando que o terceiro gerador (3/6) havia sido ligado com sucesso.
Os quatro pararam, paralisados pela visão. O que restava de Wraith estava pendurado no balcão, e Mizi estava sentada ao lado, coberta de sangue, com a palma da mão aberta em um ferimento terrível e os olhos dourados fixos no vazio.
— Mizi! — Sua correu até ela, caindo de joelhos e abraçando-a com cuidado para não machucá-la mais. — Você está viva... você conseguiu...
Mizi não disse nada por um longo tempo. Ela apenas deixou que Sua enfaixasse sua mão com as últimas bandagens limpas que restavam. O choque estava começando a passar, dando lugar a uma exaustão que pesava toneladas.
— Chega de sangue por hoje — murmurou Luka, olhando para o resto do assassino com óbvio desgosto. — Precisamos sair deste galpão. O cheiro vai atrair os outros.
Ivan ajudou Mizi a se levantar. Ele não disse "obrigado", mas seu olhar para ela tinha um novo nível de respeito.
— Você mandou bem, garota — disse ele, brevemente.
Eles saíram do galpão para a rua cinzenta. O grupo agora caminhava com uma determinação sombria. Três geradores ligados, três restantes. Eles atravessaram a zona industrial, mantendo-se nas sombras, procurando por qualquer sinal de um lugar seguro ou da próxima máquina que os levaria um passo mais perto da liberdade. A cidade murada ainda os cercava, mas agora, eles sabiam que os monstros também podiam morrer.