Project HUNT
O Ciclo de Sangue e a Floresta dos Sussurros
O ar noturno estava pesado, carregado com o cheiro de ozônio e o odor metálico de sangue que parecia impregnado na pele de cada um deles. Dentro do galpão de grãos, o silêncio era interrompido apenas pelo som da respiração errática de Mizi e pelos soluços baixos de Sua. Luka, no entanto, não estava descansando. Ele estava com os mapas espalhados sobre uma mesa de madeira carcomida, usando a luz fraca de sua lanterna para traçar linhas imaginárias entre os pontos onde os geradores haviam sido ativados.
— Olhem aqui — chamou Luka, a voz baixa, mas urgente. — Até agora, os três geradores que ligamos formam um arco quase perfeito. Se o complexo foi projetado com uma lógica geométrica, o que é provável, os outros três devem completar um círculo ao redor do mapa.
Till aproximou-se, limpando o sangue da adaga na calça.
— E onde isso nos leva, gênio?
— Se o círculo continuar, o quarto e o quinto geradores devem estar na floresta do Acampamento Beverly, no extremo sul. O último... — Luka hesitou, olhando para o ponto de partida. — O último provavelmente está no cemitério onde você e eu começamos, Till.
— Voltar para aquele lugar? — Till franziu o cenho, a lembrança de Michael Myers ainda fresca.
— É a nossa melhor aposta — interveio Ivan, levantando-se e ajustando a bandagem improvisada no ombro. — Ficar aqui é esperar pela morte. Se o plano do Luka estiver certo, terminamos isso hoje.
Mizi levantou-se com dificuldade, apoiada por Sua. Sua mão atravessada pela faca de Wraith estava inchada e latejava em sincronia com seu coração, mas seus olhos dourados brilhavam com uma determinação fria. A perda de Hyuna havia deixado um buraco nela, um que só seria preenchido pela liberdade ou pela morte.
— Vamos para o acampamento — disse Mizi.
A caminhada até a floresta foi um exercício de paranoia. Cada galho quebrado, cada sombra projetada pela lua parecia um assassino à espreita. O Acampamento Beverly era um lugar lúgubre, composto por cabanas de madeira apodrecida e árvores cujos galhos pareciam dedos esqueléticos tentando alcançar o céu.
— Precisamos nos separar — sugeriu Luka ao chegarem à entrada da trilha principal. — A floresta é vasta. Se ficarmos juntos, vamos demorar horas. Se nos separarmos, cobrimos o terreno em minutos. Se alguém achar algo, grite.
— Separar é uma ideia de merda — resmungou Till —, mas é a única que temos.
Eles se dividiram. Luka seguiu para as profundezas da floresta, onde as árvores eram mais densas. Ivan dirigiu-se à ala masculina do acampamento, um conjunto de cabanas em ruínas. Till foi para a ala feminina. Mizi e Sua, que se recusavam a ficar longe uma da outra, seguiram para o centro da floresta, uma área que o mapa indicava como um descampado.
Luka caminhava silenciosamente, seu radar emitindo bipes curtos e nervosos, mas sem sinalizar proximidade imediata. Ele vasculhou cada arbusto, cada depressão no terreno, mas não encontrou nada além de terra e raízes.
— Nada aqui — murmurou ele para o rádio, que apenas devolveu estática. Decidindo que sua busca ali era infrutífera, ele começou a retornar para o centro da floresta para se reunir com as garotas.
Enquanto isso, na ala masculina, Ivan movia-se com a cautela de um predador. Ele entrou em um dos alojamentos, mas parou subitamente. Um som metálico, pesado e rítmico, vinha do lado de fora. Ele espiou pela fresta da porta e sentiu o sangue gelar.
Um homem gigantesco, vestindo uma armadura metálica completa e um capacete que ocultava qualquer rastro de humanidade, caminhava pelo pátio. Ele carregava uma espada de duas mãos que parecia grande demais para um ser humano normal. Era o Cavaleiro.
— Droga — sibilou Ivan.
Ele sabia que não podia enfrentar aquilo de frente. Ivan saiu pela janela dos fundos e começou a correr entre as cabanas, tentando despistar a figura lenta, mas implacável. O Cavaleiro não corria, mas sua presença era constante, e cada vez que Ivan olhava para trás, o gigante estava lá, derrubando cercas e paredes de madeira com golpes casuais de sua espada. Ivan começou a correr em círculos, usando sua agilidade para manter a distância, mas sentindo o cansaço começar a cobrar seu preço.
Na ala feminina, Till teve mais sorte. Ele encontrou uma pequena cabana de manutenção escondida atrás de um matagal. Ao entrar, deparou-se com o quarto gerador. Sem perder tempo, ele se trancou por dentro e começou a trabalhar nos cabos. Do lado de fora, ele ouvia galhos quebrando e passos pesados circundando a cabana. Ele manteve a respiração presa, o suor escorrendo pelo rosto, focando apenas nos fios coloridos à sua frente.
No centro da floresta, Mizi e Sua chegaram ao descampado. Para sua surpresa, a área era um vazio absoluto. Não havia árvores, nem estruturas, apenas um campo de terra batida sob a luz pálida da lua.
— Não tem nada aqui, Mizi — disse Sua, agarrando o braço da outra. — Vamos voltar.
De repente, o relógio em seus pulsos vibrou. O visor mudou de 3/6 para 4/6. Till conseguira.
— Ele ligou! — comemorou Mizi, mas a alegria morreu em sua garganta.
De uma direção, vinda das sombras das árvores, surgiu Veil. Ela não tinha mais o lançador de arpão, mas empunhava uma faca de combate com uma postura assassina. Mizi puxou Sua para a direção oposta, mas parou bruscamente.
Jason emergiu da escuridão, o machado pendurado no ombro, a máscara de hóquei manchada com o sangue de Hyuna.
— Por aqui! — gritou Mizi, mudando de rota novamente, mas o destino parecia selado.
Bloqueando a última saída estava Michael Myers. O trio de assassinos as cercara no descampado, fechando o triângulo de forma lenta e coordenada.
— Sua, fica atrás de mim! — Mizi gritou, sacando sua pistola e apontando para Jason.
Nesse momento, Till e Ivan surgiram da mata, correndo em direção ao centro. Ivan ainda era perseguido pelo Cavaleiro, que agora estava perigosamente perto. Ao verem a cena no descampado, o horror tomou conta deles.
Sua, em um estado de pânico absoluto, começou a gritar desesperadamente, sem perceber que Michael Myers estava a centímetros dela, erguendo sua faca de cozinha para um golpe mortal no pescoço.
— SUA, CUIDADO! — berrou Luka, que acabara de chegar pela lateral.
Luka não pensou. Ele pegou uma pedra pesada do chão e a arremessou com toda a sua força. A pedra atingiu a têmpora de Michael, fazendo o assassino cambalear e cair, desmaiado ou atordoado.
Simultaneamente, Jason investiu contra Mizi. Ele a derrubou no chão, usando seu peso esmagador para prendê-la. Mizi lutava, tentando apontar a pistola para o rosto dele, enquanto Jason forçava o cano da arma contra a própria testa dela, um jogo macabro de força.
— Morre... morre! — Mizi ganiu, apertando o gatilho.
*Click.*
A arma emperrou. O silêncio do clique foi o som mais aterrorizante que ela já ouvira. Jason soltou uma risada abafada e soltou a arma, buscando o machado ao seu lado para esmagar o crânio de Mizi.
Nesse instante, Veil, vendo a oportunidade de eliminar Mizi, disparou um novo arpão que havia recuperado. Mizi, vendo o projétil vindo pelo canto do olho, reuniu cada grama de força que lhe restava e girou o corpo de Jason sobre o dela.
O arpão atingiu o braço de Jason com um som de carne sendo rasgada. O gigante urrou de dor, soltando Mizi por um instante. Ela se arrastou para longe, levantando-se com dificuldade.
Till e Ivan chegaram ao centro do conflito. Till, vendo Michael Myers caído, não hesitou. Ele pegou a faca que o assassino deixara cair e, com um movimento cheio de ódio, rasgou a garganta de Michael. O sangue jorrou, escuro e denso, selando o destino de um dos caçadores.
— Mizi, corre! — gritou Ivan, vendo o Cavaleiro se aproximar com sua espada colossal.
Veil, percebendo que a situação havia se tornado caótica e que estava sem munição de arpão, recuou para o mato, desaparecendo na escuridão.
— Para as cabanas! — Luka ordenou, agarrando Sua, que estava em estado de choque.
Mizi, cambaleando e com a mão voltando a sangrar profusamente pelo esforço, correu em direção ao alojamento feminino. Jason, furioso e com o arpão ainda cravado no braço, ignorou os outros e focou toda a sua fúria nela.
— Vão! Eu encontro vocês! — Mizi gritou por cima do ombro, desaparecendo dentro de uma das cabanas.
O grupo tentou ir atrás dela, mas o Cavaleiro chegou ao descampado, desferindo um golpe horizontal com sua espada que cortou um poste de madeira ao meio. Eles foram obrigados a recuar.
— Temos que sair daqui! — Luka puxou Sua, que tentava lutar para voltar até Mizi. — Se ficarmos, ele mata todos nós!
Eles correram para fora da floresta, deixando Mizi para trás. Encontraram refúgio em um prédio comercial de vários andares na borda da zona industrial. Subiram até o último andar, onde as janelas de vidro ofereciam uma visão panorâmica do acampamento e da floresta.
Luka sentou-se perto da janela, o radar no pulso apitando intermitentemente. Sua desabou em um canto, chorando sem parar, sendo amparada por Ivan, que a segurava para evitar que ela tentasse uma fuga suicida de volta para a floresta.
Till estava parado junto à janela, os olhos fixos nas luzes distantes do acampamento. Seu rosto estava endurecido, a mandíbula travada. Ele não dizia nada, mas todos sabiam o que ele estava pensando: Mizi provavelmente não sobreviveria a Jason naquela condição.
Enquanto isso, no Acampamento Beverly, o silêncio era absoluto dentro da cabana feminina, exceto pelo som pesado de passos sobre as tábuas do chão.
Mizi estava escondida debaixo de uma das camas de beliche, encolhida no menor espaço possível. Ela pressionava a mão ferida contra o peito, tentando abafar o som do sangue que pingava no chão. A bandagem estava encharcada e a dor era uma névoa vermelha em sua visão.
Acima dela, ela podia ver as botas pesadas de Jason. Ele se movia lentamente, chutando móveis, derrubando beliches. O gigante era uma força da natureza, e ela era apenas uma garota ferida e exausta.
— Por favor... — ela sussurrou para o escuro, as lágrimas finalmente escorrendo por seu rosto. — Só mais um pouco.
Ela olhou para o relógio. O tempo de recarga da pistola estava correndo. Ela precisava de um milagre, ou de uma última bala que não falhasse. Do lado de fora, o vento uivava entre as árvores, parecendo carregar os gritos daqueles que já haviam caído, enquanto Mizi esperava, prendendo a respiração, na fronteira entre a sobrevivência e o abismo.