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Project HUNT

Cinzas, Adrenalina e a Promessa do Fim

O silêncio dentro da cabana era denso, interrompido apenas pelo estalar da madeira velha e pela respiração pesada de Jason. Mizi estava encolhida sob a cama, o coração martelando contra as costelas como um animal enjaulado. O sangue de sua mão ferida escorria, quente e pegajoso, criando uma pequena poça escura na poeira. Acima dela, o estrado da cama rangia sob o peso colossal do assassino.

Jason virou-se de costas, seus olhos ocultos pela máscara de hóquei focados em um canto escuro do alojamento. Ele parecia confuso com o sumiço repentino de sua presa. Mizi viu a oportunidade. Com um movimento que ignorou cada fibra de dor em sua perna e mão, ela rolou para fora da cama, o corpo deslizando pelo chão frio.

Ela se levantou em um salto instável. Jason começou a girar o corpo, mas Mizi foi mais rápida. Com a última migalha de esperança que restava em sua alma, ela ergueu a pistola.

— Surpresa, seu desgraçado — sussurrou ela.

*BANG!*

A sorte, aquela entidade caprichosa que a abandonara tantas vezes, decidiu sorrir. A bala não emperrou. O projétil cortou o ar e atingiu o ombro esquerdo de Jason, rasgando o tecido grosso e a carne. O gigante recuou um passo, um grunhido abafado saindo de trás da máscara.

Mizi não esperou para ver o dano. Ela disparou pelos corredores da cabana, o sangue latejando em sua cabeça. Jason vinha logo atrás, o som de suas botas pesadas contra o assoalho sendo o único aviso de que a morte ainda estava em seu encalço. Ela irrompeu na cozinha do acampamento, um lugar cheirando a mofo e metal velho.

Sua mente trabalhava a mil por hora. Ela sabia que, com aquela máscara grossa, os sentidos de Jason estavam parcialmente embotados. Ela precisava de algo drástico. Com movimentos frenéticos, Mizi ligou todas as trempes do fogão industrial e girou a válvula do botijão de gás no máximo. O chiado do gás escapando preencheu o recinto rapidamente.

Ela se escondeu atrás de um armário de metal pesado, prendendo a respiração. Jason entrou na cozinha segundos depois, movendo o machado de um lado para o outro. Ele parou no centro do cômodo, a cabeça inclinada. Ele sentira o cheiro, mas era tarde demais.

O relógio no pulso de Mizi vibrou. *Recarga completa.*

Ela saiu de trás do armário com uma agilidade que desafiava seus ferimentos. Antes que Jason pudesse reagir, ela correu até a janela lateral e a abriu com um solavanco. Jason avançou, o machado erguido, mas Mizi usou o impulso do próprio corpo para empurrá-lo com os pés, jogando-o para o centro da cozinha saturada de gás.

Ela pulou pela janela, caindo na grama úmida do lado de fora. Sem olhar para trás, ela rezou. Mirou no botijão de gás através da abertura da janela e puxou o gatilho pela segunda vez naquela noite.

A arma disparou.

A explosão foi ensurdecedora. Uma onda de choque e calor arremessou Mizi para longe, jogando-a contra o tronco de uma árvore. Por um momento, o mundo ficou em silêncio, substituído por um zumbido agudo em seus ouvidos. Quando ela conseguiu abrir os olhos, a cabana era uma pira de chamas laranjas e vermelhas que subiam em direção ao céu noturno, iluminando o acampamento inteiro.

Mizi levantou-se, os sentidos abalados, a visão turva. No meio das chamas, ela viu uma silhueta impossível. Jason estava em pé, envolto em fogo, debatendo-se como um demônio saindo do inferno. Ele ainda segurava o machado, embora o cabo estivesse começando a queimar.

Com um grito de raiva que veio do fundo de sua alma, Mizi correu até ele. Ela não tinha mais balas, mas tinha ódio. Ela aproveitou um momento de vacilo do gigante, arrancou o machado de suas mãos queimadas e, com um movimento descendente, cravou a lâmina profundamente nas costas do assassino.

— Queime no inferno, Jason! — gritou ela, desferindo um chute poderoso que empurrou o gigante de volta para o epicentro das chamas, onde o teto da cabana desabou sobre ele.

***

No alto do prédio comercial, o grupo observava o horizonte em choque. A explosão no acampamento fora tão grande que iluminou as janelas do escritório onde estavam refugiados.

— Mizi... — Sua caiu de joelhos novamente, as mãos cobrindo a boca. — Aquela era a cabana onde ela entrou.

— Não tem como sobreviver a isso — murmurou Till, a voz carregada de uma derrota que ele tentava esconder. — Ela tacou fogo no lugar com ela lá dentro...

Ninguém teve tempo para o luto. O radar de Luka apitou violentamente. O Cavaleiro, o assassino de armadura pesada, havia encontrado o prédio e subira as escadas com uma rapidez silenciosa e aterradora. Ele irrompeu na sala, a espada de duas mãos brilhando sob a luz distante do incêndio.

Ivan, agindo por puro reflexo de sobrevivência, avançou. Ele tentou um chute lateral para desarmar o gigante, mas o Cavaleiro era um mestre do combate. Com um movimento ágil, o assassino soltou uma das mãos da espada e sacou um canivete tático de um suporte na armadura.

O movimento foi rápido demais para ser evitado. A lâmina curta e afiada penetrou profundamente na barriga de Ivan.

Um engasgo de sangue saiu da boca de Ivan. Ele recuou, segurando a faca cravada em seu abdômen, o rosto ficando ainda mais pálido do que o normal.

— Ivan! — Till gritou, mas o Cavaleiro já estava se voltando para Sua.

O gigante ergueu a espada colossal, pronto para partir a garota ao meio. Sua, em um surto de desespero, agarrou um extintor de incêndio que estava preso à parede ao seu lado. Ela acionou o gatilho, liberando uma nuvem densa de pó químico diretamente no visor do capacete do Cavaleiro.

O assassino recuou, tossindo e tentando limpar a visão. Quando a fumaça começou a baixar, ele se viu sozinho. O grupo havia se movido para o outro lado da sala. O Cavaleiro caminhou até a janela quebrada, olhando para o incêndio lá embaixo, confuso por um breve segundo.

Foi quando Till apareceu correndo por trás dele. Com um grito de guerra, ele usou todo o seu peso para colidir contra as costas da armadura. O vidro temperado da janela, já fragilizado, não resistiu. O Cavaleiro foi arremessado para o vazio, caindo dezenas de metros até o asfalto.

Sua correu até Ivan, que estava caído no chão.

— Não se mexa! — ordenou ela, rasgando a própria blusa para criar ataduras. — Eu vou tirar isso... no três. Um, dois... três!

Ela removeu o canivete com um puxão firme e começou a enfaixar o abdômen de Ivan com uma velocidade frenética. O sangue não parava de sair.

Luka, vendo que Ivan estava perdendo a consciência, correu até a mochila do rapaz. Ele encontrou o estojo de seringas.

— Ele está morrendo, Luka! — Sua gritava, as mãos cobertas de sangue.

Luka não hesitou. Ele pegou uma das duas seringas de adrenalina, removeu a tampa e a cravou diretamente na coxa de Ivan, injetando todo o conteúdo.

O efeito foi quase instantâneo. Os olhos de Ivan se arregalaram, suas pupilas dilataram e ele soltou uma lufada de ar profunda, o corpo tremendo sob o efeito da droga. A dor não sumira, mas seu sistema fora forçado a continuar funcionando.

***

Longe dali, no acampamento que ainda ardia, Mizi caminhava como um fantasma entre as cinzas. Sua mão ferida doía tanto que ela mal conseguia sentir os dedos, e sua perna estava em carne viva. Ela se lembrava do que Luka dissera: havia dois geradores naquela área. Eles haviam ligado um, mas o outro ainda estava oculto.

Ela não podia voltar para os outros sem terminar o trabalho. A culpa pelo sacrifício de Hyuna a impulsionava.

Mizi entrou na parte mais densa da floresta, nos fundos do acampamento. O radar de Luka não havia detectado nada ali, mas ela sentia que algo estava faltando. Após alguns minutos de busca agonizante, ela o encontrou: um pequeno abrigo de concreto, quase camuflado pela vegetação. Dentro, o motor de ferro fundido de um gerador esperava.

Sua mão estava trêmula e o ferimento da faca de Wraith tornava impossível usar as ferramentas com precisão. Mizi rasgou um pedaço da própria calça, enrolando-o apertado em volta da palma da mão para estancar o sangue e dar alguma firmeza aos dedos.

— Vamos lá... — sussurrou ela, as lágrimas de dor misturando-se à fuligem em seu rosto. — Só mais este. Por todos nós.

Ela começou a ligar os fios, seguindo o manual parcial. Cada movimento era uma tortura. Ela precisava descascar os cabos e conectá-los manualmente, sentindo a eletricidade estática arrepiar seus cabelos.

***

No prédio comercial, eram 02:39 da manhã. Till estava sentado junto à janela, vigiando enquanto os outros tentavam dormir um sono inquieto e carregado de pesadelos. Ivan estava estável, mas respirava com dificuldade. Luka e Sua estavam abraçados em um canto, exaustos.

De repente, o silêncio foi quebrado por um bipe agudo que ecoou por toda a sala.

Todos acordaram em um sobressalto. Eles olharam para seus relógios metálicos simultaneamente.

A barra de progresso subira. De 4/6 para 5/6.

— Alguém ligou outro... — murmurou Luka, os olhos arregalados de surpresa.

— Mas quem? — Sua perguntou, a esperança lutando contra o medo em seu peito. — Será que... será que a Mizi está viva?

Till olhou para o incêndio distante no acampamento, onde as chamas começavam a baixar, deixando apenas brasas e fumaça negra.

— Não — disse ele, a voz amarga. — O Luka disse que havia 25 participantes no começo. Deve haver algum outro sobrevivente que ainda não encontramos. Alguém que está fazendo o trabalho sujo no meio daquele inferno.

Eles não podiam acreditar que Mizi sobrevivera àquela explosão. Para eles, o 5/6 era o sinal de um estranho, um fantasma no sistema. Mal sabiam que, no fundo da floresta, uma garota de cabelos rosa e pontas azuis estava caída ao lado de um gerador roncante, sorrindo para o escuro enquanto sua consciência começava a desaparecer, sabendo que faltava apenas um passo para o fim daquele pesadelo.