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Rintama high 2

O Eco do Vidro e o Gosto Amargo da Cereja

A segunda-feira na Escola Secundária Anaktos costumava ser cinzenta, mas aquela manhã parecia ter sido mergulhada em chumbo. No corredor principal, o grupo de amigos estava reunido perto dos armários, mas a energia vibrante de outrora fora substituída por um velório silencioso.

Sua chegou por último. Ela caminhava como se cada passo pesasse uma tonelada. O cabelo preto, agora mais longo, escondia metade de seu rosto, mas não conseguia ocultar as olheiras profundas e os olhos roxos inchados. Ela parecia um espectro, uma versão desbotada da garota intocável que costumava ser.

— Meu Deus, Sua... — Hyuna sussurrou, aproximando-se com cautela. — Você dormiu?

Sua não respondeu. Ela apenas encostou a testa no metal frio de seu armário, fechando os olhos.

— Ela não dormiu nada — Ivan disse, a voz desprovida de qualquer filtro, enquanto desembalava um pirulito com movimentos mecânicos. — Passou a noite inteira chorando. Dava para ouvir do meu quarto. Acho que ela soluçou até as cinco da manhã.

— Ivan! — Luka o repreendeu, ajustando os óculos com desconforto. — Não precisa expor a garota assim.

— Por que não? — Ivan deu de ombros, olhando para a irmã com uma mistura de pena e irritação. — A Mizi voltou e ela quebrou. Todo mundo está vendo.

Till chutou o chão, visivelmente incomodado.

— Ela voltou diferente, Ivan. Aquilo ontem... não era a Mizi. Era uma estranha com a cara dela.

Nesse exato momento, o corredor pareceu esfriar. O som de botas pesadas e um perfume de morango sintético anunciou a chegada da pessoa que ocupava todos os pensamentos do grupo. Mizi caminhava com uma indiferença que beirava a crueldade. Ela usava a jaqueta de couro sobre os ombros, as mãos nos bolsos e um pirulito de cereja entre os lábios.

Ao passar pelo grupo, ela ouviu a última frase de Ivan sobre o choro de Sua. Mizi não parou. Ela nem sequer desacelerou o passo. Apenas inclinou levemente a cabeça, um sorriso de canto, frio e vazio, surgindo por um milésimo de segundo antes de desaparecer. Ela "cagou" solenemente para a dor de Sua, tratando-a como um ruído de fundo sem importância.

Mizi estava quase chegando à sala de aula quando uma figura corpulenta bloqueou seu caminho. Era Krow. Ele não tinha mudado nada no quarto ano; continuava sendo o mesmo brutamontes oportunista que achava que o sumiço de Mizi lhe dava algum direito sobre o território dela.

— Olha só quem resolveu dar as caras — Krow disse, cruzando os braços e bloqueando a passagem. — A rainha fugitiva. Soube que você voltou com uma marra de elite, Mizi. Mas para mim, você continua sendo a mesma garotinha que fugiu quando o jogo ficou pesado.

Mizi parou. Ela tirou o pirulito da boca e olhou para Krow com uma expressão de puro tédio, como se estivesse olhando para uma mancha de graxa no asfalto.

— Krow — ela disse, a voz aveludada e desdenhosa. — Eu adoraria ouvir seu monólogo sobre masculinidade frágil, mas eu tenho uma aula de literatura e meu nível de paciência para idiotas já atingiu a cota diária só de olhar para a sua cara. Sai da frente.

Krow trincou os dentes, a veia em sua testa saltando.

— Você se acha muito, não é? Acha que esse cabelo novo e essa cara de quem não liga para nada assustam alguém?

Mizi deu um passo à frente, diminuindo a distância. Ela deu um sorriso de idiota, inclinando a cabeça e piscando os olhos como se fosse uma criança confusa.

— Assustar? Eu? Imagina, Krow. Eu sou apenas uma estudante dedicada. Você que parece estar tendo um derrame. Quer um pirulito? Ajuda a acalmar os nervos.

— Sua vadia! — Krow rugiu, perdendo a estribeira.

Ele avançou, levantando a mão para desferir um soco pesado. Mizi não se moveu até o último segundo. Com um reflexo que parecia coreografado, ela apenas inclinou o corpo para o lado. O punho de Krow passou direto por onde a cabeça dela estava e atingiu a parede de concreto com toda a força do seu peso.

O som do osso quebrando foi audível em metade do corredor.

— Argh! Maldição! — Krow gritou, caindo de joelhos e segurando a mão direita, onde o dedo anelar estava visivelmente deslocado e quebrado.

Mizi nem sequer olhou para trás. Ela apenas mostrou o dedo do meio por cima do ombro, colocou o pirulito de volta na boca e continuou caminhando em direção ao banheiro, como se tivesse acabado de desviar de uma poça de água.

Sua, que assistira a tudo de longe, sentiu um impulso súbito. Ignorando os chamados de Hyuna e os olhares confusos de Ivan, ela começou a correr.

Mizi entrou no banheiro feminino e caminhou em direção a uma das cabines do fundo. Ela precisava de um minuto. O gelo que ostentava era uma armadura pesada, e a visão de Sua "acabada" no corredor tinha cutucado feridas que ela jurou que estavam mortas.

A porta do banheiro escancarou.

Mizi estava prestes a entrar na cabine quando sentiu um vulto atrás dela. Antes que pudesse reagir, Sua a empurrou para dentro do cubículo estreito. A porta foi fechada com um estrondo e a tranca girou com um clique definitivo.

— O que você pensa que está fazendo? — Mizi sibilou, as costas contra a parede fria, os olhos dourados faiscando de uma irritação real pela primeira vez.

— A gente vai conversar — Sua disse, a voz trêmula, as lágrimas voltando a inundar seus olhos roxos. — Agora.

— Não temos nada para conversar, Sua. Me deixa sair.

— Não! — Sua gritou baixo, a voz embargada. — Você volta depois de meses, age como se eu fosse um nada, ignora tudo o que aconteceu... Você tem noção do que eu senti?

Mizi soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.

— O que você sentiu? Ah, por favor. Você sentiu alívio, não foi? Finalmente o "lixo barulhento" tinha ido embora. Finalmente a "covarde patética" sumiu da sua vista.

— Não foi assim! — Sua deu um passo à frente, as mãos agarrando a gola da jaqueta de Mizi. — Eu não sabia o que fazer! Eu estava com medo, eu estava confusa!

— Medo de quê, Sua? — Mizi perguntou, a voz subitamente caindo para um tom de tristeza profunda e quadrada. — Pela primeira vez na minha vida... pela primeira vez, eu tinha gostado de alguém de verdade. Eu tentei de tudo. Eu quebrei as regras, eu lutei as suas lutas, eu tentei arrumar cada pedaço quebrado entre nós. E o que você fez?

Mizi deu um passo à frente, forçando Sua contra a porta da cabine.

— Nada. Você não fez nada. Você só me deu gelo. Você me tratou como se eu fosse um erro biológico no seu mundo perfeito de poesias e silêncio. Você pouco se fodeu quando eu fui arrastada para fora dessa escola pelos meus pais porque eles descobriram sobre nós.

Sua explodiu em soluços, escondendo o rosto no peito de Mizi.

— Me desculpa... me desculpa, Mizi! Eu não sei por que eu fui assim! Talvez fosse medo de me perder, talvez vergonha de como eu me sentia... eu não conseguia parar! Mas eu sentia... eu sinto... aqui dentro...

Sua bateu no próprio peito, o choro tornando suas palavras quase ininteligíveis. Mizi sentiu o coração fraquejar, mas a mágoa era um muro alto demais para ser derrubado por um único pedido de desculpas.

— É tarde demais, Sua — Mizi disse, tentando se desvencilhar. — Eu mudei. Eu tive que mudar para não morrer por dentro.

Mizi tentou abrir a tranca, mas Sua foi mais rápida. Ela empurrou Mizi para trás, fazendo-a sentar bruscamente sobre a tampa do vaso sanitário fechada. Antes que Mizi pudesse protestar, Sua se inclinou sobre ela, as mãos segurando o rosto da garota rosa com uma urgência desesperada.

E a beijou.

Foi um beijo faminto, desajeitado e carregado de meses de repressão. Sua se inclinou tanto que sua saia subiu, revelando as coxas, mas a cabine era estreita e Mizi estava bem na sua frente, bloqueando qualquer visão externa. Ninguém veria, ninguém saberia. Naquele cubículo de dois metros quadrados, o mundo exterior deixou de existir.

Mizi tentou se soltar no início, as mãos empurrando os ombros de Sua, a mente gritando que aquilo era um erro, que ela não podia ceder. Mas o gosto de Sua, o calor de seu corpo e o desespero naquele toque foram demais. Mizi parou de lutar. Suas mãos subiram para a cintura de Sua, apertando o tecido do uniforme, e ela retribuiu o beijo com a mesma intensidade dolorosa.

O tempo pareceu derreter. O som da respiração ofegante das duas era a única coisa que preenchia o banheiro.

Quando se separaram, os lábios de ambas estavam vermelhos e inchados. Mizi olhou para Sua, e por um momento, a máscara de gelo caiu totalmente, revelando a garota ferida que ainda a amava.

No entanto, o momento de vulnerabilidade durou pouco. Mizi respirou fundo, a expressão endurecendo novamente. Ela se levantou, ajeitou a jaqueta e abriu a tranca da cabine sem dizer uma única palavra.

Ela saiu do banheiro a passos largos, deixando Sua sozinha no cubículo, ainda tentando recuperar o fôlego e o equilíbrio.

Minutos depois, Sua entrou na sala de aula. Ela caminhou até sua mesa, o rosto ainda levemente avermelhado, mas a expressão era de alguém que tinha acabado de passar por uma tempestade.

O grupo — Ivan, Till, Hyuna e Luka — a cercou imediatamente.

— O que aconteceu? — perguntou Hyuna, em um sussurro urgente. — A gente viu a Mizi sair do banheiro como se tivesse visto um fantasma.

— Você falou com ela? — Till perguntou, os olhos verdes curiosos. — Ela te bateu? O que foi?

Sua abriu seu livro de literatura, as mãos ainda tremendo levemente. Ela olhou para o fundo da sala, onde Mizi estava sentada, com a cabeça baixa e os fones de ouvido colocados, ignorando o mundo inteiro.

— Nada — disse Sua, a voz soando mais firme do que ela esperava. — Não aconteceu nada.

Ivan estreitou os olhos, observando o lábio inferior da irmã e o jeito como ela evitava olhar para qualquer um. Ele sabia que "nada" era a maior mentira que Sua já tinha contado, mas conhecendo a irmã, ele sabia que não arrancaria mais nenhuma palavra dela.

A aula começou, e o silêncio entre as duas fileiras da Anaktos tornou-se ainda mais denso. O beijo no banheiro não tinha resolvido a mágoa, nem trazido Mizi de volta, mas tinha deixado uma marca invisível que queimava na pele de ambas. O quarto ano continuava, mas agora, o gelo tinha rachaduras profundas, e ninguém sabia quanto tempo a estrutura aguentaria antes de desabar completamente.