Rintama high 2
O Gosto de Sangue, Morango e Redenção
O intervalo na Escola Secundária Anaktos sempre fora um campo de batalha simbólico, mas naquele dia, a atmosfera era de uma estática eletrizante. O sol de meio-dia entrava pelas janelas altas do refeitório, iluminando as mesas onde as hierarquias se reorganizavam silenciosamente. No centro de tudo, o grupo de sempre ocupava a mesa de costume, mas o vazio deixado pela ausência de Mizi nos últimos meses parecia ter se tornado um buraco negro que sugava toda a conversa.
Sua estava sentada na ponta, a postura rígida, os olhos fixos em um prato de comida que ela mal tocara. O beijo no banheiro ainda queimava em seus lábios como uma ferida aberta. Ela sentia o peso do olhar de Ivan, a curiosidade de Hyuna e o silêncio desconfortável de Till e Luka. Ninguém ousava perguntar o que tinha acontecido nos dez minutos em que ela e Mizi sumiram, mas as marcas de dedos no colarinho de Sua e o batom levemente borrado de Mizi quando saiu do banheiro falavam por si.
Foi então que a porta do refeitório se abriu e Mizi entrou.
Ela não estava mais com a jaqueta de couro; a blusa branca do uniforme estava com os dois primeiros botões abertos, revelando a pele pálida e a pulsação acelerada no pescoço. Ela caminhava com uma arrogância que parecia ter sido recalibrada após o encontro no banheiro. No meio do caminho, Elena, a garota popular que agora ostentava um visual ainda mais sofisticado e magnético, interceptou-a.
Elena tocou o braço de Mizi, um sorriso confiante desenhado nos lábios perfeitamente pintados.
— Mizi, que bom que te encontrei — disse Elena, a voz projetada para que os ouvidos curiosos pudessem captar. — O pessoal está se reunindo no pátio dos fundos. Por que você não vem ficar com a gente hoje? Senti sua falta no fim de semana.
Na mesa, o grupo observava a cena como se assistisse a um filme de suspense.
— Lá vai ela — resmungou Till, cruzando os braços. — Vai voltar para os braços da loira e fingir que nada aconteceu.
Sua sentiu um aperto no peito, uma náusea que subia pela garganta. Ela esperava que Mizi aceitasse. Seria mais fácil assim. O gelo voltaria a cobrir tudo e ela poderia continuar se odiando em paz.
Mizi olhou para a mão de Elena em seu braço. Seus olhos dourados, no entanto, desviaram-se por um milésimo de segundo para a mesa do grupo, encontrando o olhar devastado de Sua. O desespero que vira no banheiro, o choro convulsivo e a forma como Sua se entregara ao beijo... aquilo tinha mudado a frequência do rádio na cabeça de Mizi. O ruído branco da vingança tinha sido substituído por uma melodia muito mais complexa e dolorosa.
— Valeu pelo convite, Elena — disse Mizi, afastando o braço com uma delicadeza que beirava o desprezo —, mas eu já tenho planos. Vou ficar com alguém hoje.
Elena piscou, surpresa.
— Alguém? Quem? Os caras da Mukuro estão na outra ala.
— É, eu sei — respondeu Mizi, já começando a caminhar. — Até mais.
Elena ficou parada no meio do corredor, a expressão de choque sendo rapidamente substituída por uma máscara de humilhação enquanto via Mizi se afastar.
— Ué? — Hyuna franziu a testa. — Ela deu um fora na Elena? Ela já fez amigos novos em dois dias?
— Deve ser o pessoal da Mukuro — sugeriu Luka. — Ela provavelmente vai retomar o trono.
Mas Mizi não foi para a mesa da Mukuro. Ela continuou caminhando em linha reta, atravessando o refeitório sob os olhares de centenas de alunos, até parar exatamente na frente da mesa do grupo. Sem pedir licença e sem dizer uma palavra, ela puxou a cadeira ao lado de Sua e sentou-se.
O silêncio na mesa foi absoluto. Till quase derrubou o refrigerante. Ivan parou de mastigar o pirulito, a sobrancelha arqueada até o limite. Até Sua, que tentava manter a máscara de indiferença, virou o rosto para Mizi, os olhos roxos arregalados de incompreensão.
Mizi não olhou para ninguém. Ela tirou o celular do bolso, colocou os pés sobre a travessa da cadeira à frente e começou a digitar algo com uma indiferença ensaiada.
— O que... o que você está fazendo aqui? — perguntou Till, sendo o primeiro a recuperar a fala.
Mizi nem levantou os olhos da tela.
— Sentada. É para isso que servem as cadeiras, não é, Till? Ou o quarto ano fritou seus neurônios restantes?
— Mas você disse que a gente era passado! — Hyuna exclamou, inclinando-se para a frente. — Você agiu como uma completa estranha ontem e hoje cedo!
— As pessoas mudam de ideia, Hyuna — disse Mizi, bloqueando o celular e jogando-o sobre a mesa. — E a comida da Mukuro hoje está com cheiro de testosterona e suor. Prefiro o cheiro de... melancolia daqui.
— Mizi, fala sério — Ivan interveio, a voz séria. — O que aconteceu no banheiro?
Sua sentiu o rosto queimar. Mizi, no entanto, deu um sorriso de canto, aquele sorriso de idiota que ela usava para desarmar as pessoas.
— Nada demais, Ivan. Sua só precisava desabafar sobre como a poesia moderna é decadente. Eu fui um ombro amigo. Muito amigo.
— Você é uma mentirosa compulsiva — murmurou Sua, a voz trêmula, mas sem a frieza de antes.
— E você adora isso — Mizi rebateu, finalmente olhando para ela.
Antes que o grupo pudesse começar a bateria de perguntas que estava engatilhada, a atmosfera do refeitório mudou bruscamente. O som de uma bandeja sendo jogada no chão ecoou, seguido por passos pesados.
Drake, o líder da gangue "Presas de Ferro", que vinha tentando ocupar o vácuo de poder deixado por Mizi, aproximou-se da mesa. Ele estava furioso. Ver Mizi retornar e agir como se ainda fosse a dona do lugar, ignorando as novas regras que ele tentara impor, era um insulto pessoal.
Sem aviso, Drake esticou a mão e agarrou o cabelo rosa de Mizi por trás, puxando sua cabeça para trás com violência.
— Sua vadia arrogante! — Drake rugiu. — Você acha que pode simplesmente voltar, ignorar todo mundo e sentar aqui como se nada tivesse mudado? Eu mandei um recado pra você ontem e você nem respondeu!
Mizi soltou um gemido de dor, mas não gritou. O grupo se levantou instantaneamente. Till fechou os punhos, Ivan deu um passo à frente com um olhar assassino, e Sua sentiu o sangue ferver de uma forma que nunca experimentara.
— Solta ela, Drake! — Ivan sibilou.
— Fica na sua, esquisito! — Drake gritou, puxando o cabelo de Mizi com mais força, forçando-a a se levantar da cadeira. — Eu vou te ensinar a ter respeito, Mizi. Você fugiu como uma covarde e agora volta querendo sentar na mesa dos "bonzinhos"?
Mizi, surpreendentemente, não revidou. Ela não tentou socá-lo, não usou as técnicas de luta que todos sabiam que ela possuía. Ela apenas mantinha o corpo relaxado, os olhos dourados fixos no teto, com uma expressão de tédio quase surreal.
— Drake — Mizi disse, a voz calma apesar da dor —, seu hálito de café barato está estragando meu apetite. Por que você não vai brincar com seus cachorrinhos e me deixa em paz?
Enfurecido pela falta de medo dela, Drake levantou o punho livre para desferir um soco no rosto de Mizi. Ela apenas fechou os olhos, esperando o impacto. No último segundo, ela inclinou a cabeça, fazendo o soco de Drake passar raspando por sua orelha e atingir em cheio o ombro de um membro da gangue "Corvos de Prata" que estava passando logo atrás com uma bandeja.
— Ei! O que é isso, porra?! — gritou o membro dos Corvos, cambaleando para o lado.
— Sai da frente, seu merda! — Drake gritou, tentando agarrar Mizi novamente.
Mas o estrago estava feito. Os Corvos de Prata, que já odiavam os Presas de Ferro por disputas de território no pátio, não aceitaram a agressão "acidental".
— Você bateu no meu irmão, Drake! — gritou outro Corvo, avançando com um soco.
Em questão de segundos, o refeitório transformou-se em um cenário de guerra. Membros das duas gangues começaram a se atracar, bandejas voavam, mesas eram viradas e o som de socos e gritos preenchia o ar. Drake, perdido no meio da confusão que ele mesmo iniciara, foi cercado por três Corvos e começou a apanhar feio, sendo arrastado para longe da mesa do grupo.
Mizi, livre do aperto, apenas ajeitou o cabelo e a blusa. Ela não ficou para assistir à briga, nem se envolveu para "limpar o chão" com Drake, como faria antigamente. Ela simplesmente deu as costas ao caos, sentou-se novamente na cadeira e suspirou.
— Que desperdício de energia — comentou Mizi, olhando para as próprias mãos que tremiam levemente, não de medo, mas de uma exaustão emocional profunda.
O grupo permaneceu em pé, em choque, observando a batalha campal a poucos metros dali.
— Você... você nem bateu nele — disse Till, incrédulo. — Você só deixou o caos acontecer.
— Eu estou cansada de bater nas pessoas, Till — disse Mizi, a voz soando subitamente pequena. — No fim do dia, a mão dói e nada muda.
Ela olhou para Sua, que ainda estava parada, a respiração ofegante, olhando para Mizi como se estivesse vendo-a pela primeira vez. Mizi deu um sorriso fraco, um sorriso que pedia desculpas sem usar palavras.
— Eu estou com um sono absurdo — murmurou Mizi.
Sem esperar por uma resposta ou permissão, Mizi inclinou o corpo para o lado e deitou a cabeça no colo de Sua. Ela encolheu as pernas na cadeira, fechando os olhos dourados e soltando um suspiro longo e trêmulo.
Sua congelou. Suas mãos ficaram suspensas no ar por alguns segundos, a mente gritando que ela deveria empurrá-la, que deveria manter o gelo, que Mizi não merecia aquele conforto depois de tudo. Mas o calor do corpo de Mizi contra o seu, o cheiro de morango que agora vinha misturado com o cheiro de suor e briga, e a vulnerabilidade daquela garota que sempre fora o pilar da força... tudo isso desmoronou a última barreira de Sua.
Lentamente, com os dedos ainda tremendo, Sua pousou a mão sobre o cabelo rosa de Mizi. Ela começou a acariciar os fios macios, um movimento instintivo e protetor.
Ivan sentou-se lentamente, observando a cena com uma expressão que misturava alívio e uma tristeza profunda. Hyuna e Luka também se sentaram, o silêncio na mesa contrastando violentamente com a briga de gangues que ainda ocorria no fundo do refeitório.
— A gente vai ter problemas por causa disso — sussurrou Luka, olhando para os professores que finalmente entravam no refeitório com guardas de segurança.
— A gente sempre tem problemas — respondeu Hyuna, olhando para Sua e Mizi. — Mas pelo menos, por enquanto, o barulho parou aqui.
Till sentou-se por último, bufando, mas não parecia realmente irritado.
— Ela é uma maluca — murmurou Till, olhando para Mizi dormindo no colo de Sua. — Uma maluca completa.
Ivan pegou um pirulito do bolso, mas não o abriu. Ele apenas ficou olhando para a irmã.
— Ela não dormiu nada, Sua — repetiu Ivan, em voz baixa. — Ela passou a noite no carro, vigiando a nossa casa. Eu vi ela da janela. Ela não queria entrar, mas também não queria ir embora.
Sua sentiu uma lágrima solitária escorrer e cair sobre a bochecha de Mizi. Mizi não acordou, apenas se aconchegou mais no colo da garota, como se finalmente tivesse encontrado o único lugar seguro em todo aquele inferno chamado Anaktos.
A briga foi dispersada, Drake foi levado para a enfermaria sob custódia, e a escola mergulhou naquele silêncio tenso de pós-combate. Mas na mesa do grupo, o tempo parecia ter parado. Sua continuava acariciando o cabelo de Mizi, o livro de poesias esquecido sobre a mesa.
Não havia reconciliação oficial, não havia perdão total, e o quarto ano ainda prometia ser um massacre emocional. Mas ali, naquele momento, o gelo tinha derretido o suficiente para que a fênix de algodão-doce pudesse descansar. E para Sua, o peso de Mizi em seu colo era a única poesia que realmente importava.