Rintama high 2
O Labirinto de Sombras e a Geometria do Afeto
A semana na Escola Secundária Anaktos havia passado como um borrão de cores desbotadas e sussurros abafados. Mizi, a fênix de algodão-doce que retornara das cinzas, mantinha-se como um enigma insolúvel. Ela estava fisicamente presente, sentava-se à mesa com o grupo e trocava palavras triviais sobre as matérias ou sobre o quão intragável era a comida da cantina, mas a barreira invisível que ela erguera ao redor de si mesma continuava lá, sólida e fria.
Para Sua, cada interação era um exercício de tortura lenta. Mizi não a evitava mais, porém, tratava-a com uma civilidade distante que doía muito mais do que o desprezo aberto. Era como se o beijo no banheiro e o momento de vulnerabilidade no refeitório tivessem sido alucinações coletivas. Ivan observava tudo com seu pirulito habitual, captando as tensões que os outros fingiam ignorar.
De vez em quando, Kael, o braço direito da antiga Mukuro, aparecia nos corredores, tentando puxar Mizi para um canto. Ele falava baixo, gesticulava com urgência, tentando convencê-la de que a gangue precisava dela, que o vácuo de poder estava sendo preenchido por idiotas. Mizi apenas o olhava com aqueles olhos dourados agora mais profundos e respondia sempre com a mesma brevidade cortante:
— Não, Kael. Eu já disse. Procura outro hobby. A Mukuro morreu quando eu saí por aquele portão no ano passado.
No domingo, o céu de Anaktos estava tingido de um cinza melancólico, e o tédio do quarto ano parecia pesar mais do que o normal. Hyuna, decidida a quebrar o clima de funeral que se instalara no grupo, resolveu convidar todos para sua casa. Era uma mansão moderna, cheia de cantos confortáveis e luzes quentes, o oposto da frieza da escola.
Todos já estavam lá, espalhados pela sala de estar ampla. Hyuna e Luka dividiam um puff, Till batucava impacientemente no braço de uma poltrona, e Sua estava sentada no canto do sofá, fingindo ler um livro, embora seus olhos roxos estivessem fixos na porta.
— Ela não vem — resmungou Till, olhando para o relógio. — A Mizi agora é uma estrela de elite, esqueceu?
— Ela vem — disse Ivan, pegando o celular. — Eu fui o sorteado da vez para ser o mensageiro. Se ela me der um bolo, eu mesmo vou buscar aquela maluca pelos cabelos.
O grupo todo se inclinou para frente enquanto Ivan digitava. O silêncio na sala era tão denso que o som das teclas do celular parecia uma percussão.
— "Mizi, estamos na Hyuna. Vem logo ou o Till vai ter um colapso nervoso e o Luka vai começar a recitar leis da física" — leu Ivan em voz alta.
Segundos depois, o celular vibrou.
— "Chego em vinte minutos. Preparem o estoque de açúcar" — Ivan anunciou, guardando o aparelho com um sorriso de canto.
Vinte minutos depois, o som de uma moto potente ecoou na rua, seguido pelo toque da campainha. Quando Mizi entrou, o clima na sala, que já era tenso, tornou-se pesadíssimo. Ela usava uma calça cargo preta e uma regata branca justa, o cabelo rosa e azul preso em um coque desleixado. Ela exalava aquela confiança perigosa que agora era sua marca registrada.
— E aí, bando de desocupados — disse Mizi, jogando as chaves da moto na mesa de centro e sentando-se no chão, encostando as costas em um travesseiro que estava contra o sofá, bem perto de onde Sua estava.
— Demorou, hein? — comentou Hyuna, tentando soar casual.
— O trânsito estava uma bosta. E eu tive que despachar o Kael de novo. Aquele cara não entende o conceito de "aposentadoria" — Mizi respondeu, pegando um punhado de amendoins da mesa.
O silêncio voltou a reinar, desconfortável e espesso. Ivan, percebendo que se ninguém fizesse nada eles passariam a noite inteira se encarando como estranhos, levantou-se abruptamente.
— Chega dessa energia de velório — declarou Ivan. — Vamos jogar Verdade ou Desafio. É um clássico, é idiota e é exatamente o que a gente precisa para parar de agir como se estivéssemos em um funeral.
— Eu topo — disse Till, animado com a chance de ver alguém se ferrar.
O jogo começou de forma morna. Hyuna desafiou Luka a dançar uma música pop ridícula, Till escolheu verdade e admitiu que ainda tinha medo do escuro, e Luka desafiou Hyuna a ligar para um professor e fingir que era uma entrega de pizza. As risadas começaram a surgir, derretendo as primeiras camadas de gelo.
Até que a garrafa girou e parou apontando de Ivan para Mizi.
Ivan deu um sorriso que fez Sua estremecer no sofá. Era o olhar de quem estava prestes a detonar uma bomba.
— Verdade ou desafio, Mizi? — perguntou Ivan, girando o pirulito na boca.
Mizi arqueou uma sobrancelha, os olhos dourados brilhando com um desafio silencioso. Ela sabia que Ivan não pegaria leve, mas seu orgulho não permitia que ela escolhesse "verdade" e se expusesse.
— Desafio — respondeu ela, a voz firme. — Não quero mostrar que tenho medo das suas ideias tortas, Ivan.
Ivan levantou-se lentamente, um brilho de gênio incompreendido nos olhos pretos.
— Ótimo. Luka, vai na cozinha fazer pipoca e traz refrigerante. Muito refrigerante. Till, escolhe um filme de terror. Mas um bom, daqueles que fazem o coração parar.
— O que isso tem a ver com o meu desafio? — perguntou Mizi, desconfiada.
Ivan apontou para ela e depois para Sua, que estava logo atrás, no sofá.
— O seu desafio, Mizi, é passar o filme inteiro "de casal" com a minha irmã. E quando eu digo de casal, eu quero dizer contato físico total. Sem gelo, sem distância.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Hyuna arregalou os olhos, Luka parou no meio do caminho para a cozinha, e Till soltou um assobio baixo. "Ivan é um idiota, ele vai estragar tudo", foi o pensamento coletivo. A tensão entre Mizi e Sua era uma ferida aberta, e Ivan acabara de jogar sal grosso em cima.
Mizi olhou para Ivan, depois para Sua. Sua estava pálida, os olhos roxos fixos no irmão com uma mistura de fúria e pânico.
— Tudo bem — disse Mizi, surpreendendo a todos. A voz dela estava calma, quase indiferente, mas havia uma determinação nova ali.
Mizi se acomodou melhor no chão, encostando as costas no travesseiro que estava prensado contra a base do sofá. Ela olhou para cima, encontrando o olhar de Sua.
— Vem aqui, poetisa — disse Mizi, a voz aveludada, estendendo a mão. — Desafio é desafio.
Sua hesitou por um segundo eterno, mas a pressão dos olhares dos amigos e a própria necessidade latente de estar perto de Mizi a fizeram ceder. Ela escorregou do sofá para o chão.
Mizi não perdeu tempo. Assim que Sua se aproximou, Mizi abriu as pernas, puxando a garota de cabelos pretos para sentar-se entre elas. Ela envolveu a cintura de Sua com um braço, trazendo-a para perto até que as costas de Sua estivessem coladas ao seu peito. Com a outra mão, Mizi começou a fazer um carinho lento e ritmado no cabelo longo de Sua, enquanto deitava a cabeça no ombro da garota.
— E aí? — Mizi perguntou, como se aquela posição fosse a coisa mais natural do mundo, olhando para os outros que ainda estavam paralisados. — Cadê a pipoca, o refri e o filme? Ou o desafio era ficarmos aqui passando fome?
O grupo reagiu instantaneamente, saindo do transe. Luka e Hyuna correram para a cozinha, Till começou a vasculhar os serviços de streaming e Ivan sentou-se no sofá com um sorriso vitorioso.
Dez minutos depois, a sala estava na penumbra. Luka e Hyuna estavam em um puff grande, dividindo uma coberta. Ivan e Till estavam no sofá principal, com uma bacia gigante de pipoca entre eles. E no chão, no centro de tudo, Mizi e Sua formavam uma unidade silenciosa.
O filme era um terror psicológico pesado, cheio de silêncios perturbadores e sustos súbitos.
Sua estava aterrorizada. Ela nunca fora fã de filmes de terror, e a tensão da proximidade com Mizi só piorava tudo. A cada som estranho na tela, ela se encolhia, sentindo o abraço de Mizi se apertar ao redor de sua cintura. Mizi, por outro lado, parecia estar se divertindo genuinamente. Ela não sentia medo; ela sentia o tremor no corpo de Sua, sentia o perfume de sabonete caro que emanava da pele da garota e a maciez de seus cabelos entre os dedos.
— Está com medo, Sua? — sussurrou Mizi perto do ouvido dela, a respiração quente causando arrepios que não tinham nada a ver com o filme.
— Cala a boca, Mizi — murmurou Sua, embora tivesse se enterrado ainda mais no abraço da outra quando um vulto apareceu na tela.
No sofá, Till estava em um estado de pânico cômico. A cada susto, ele pulava e acabava esbarrando em Ivan, que ria e o provocava.
— É só um filme, Till. O monstro não vai sair da TV para roubar sua jaqueta — zombava Ivan, embora ele mesmo desse um sobressalto ocasional quando o som aumentava bruscamente.
Luka tentava manter a pose de intelectual para Hyuna, explicando a técnica de filmagem e o uso das sombras, mas sempre que a trilha sonora ficava tensa, ele se agarrava ao braço dela como se sua vida dependesse disso. Hyuna apenas ria, achando a situação toda adorável, e retribuía o carinho, sentindo-se feliz por ver o grupo reunido, mesmo que sob circunstâncias tão estranhas.
No chão, a dinâmica era diferente. Mizi não estava apenas cumprindo um desafio; ela estava reivindicando um território que sempre fora dela. O carinho no cabelo de Sua tornou-se mais suave, mais íntimo. Em certo ponto do filme, quando o suspense atingiu o ápice, Sua agarrou o braço de Mizi que estava em sua cintura, cravando as unhas levemente na pele da líder da Mukuro.
Mizi não reclamou. Ela apenas virou um pouco o rosto e beijou o ombro de Sua, um toque leve, quase imperceptível para os outros, mas que fez o coração de Sua disparar.
— Eu estou aqui — Mizi murmurou, tão baixo que apenas Sua pôde ouvir.
Aquelas três palavras quebraram a última resistência de Sua. Ela relaxou o corpo contra o de Mizi, deixando a cabeça pender para trás até encontrar o pescoço da garota rosa. O medo do filme tornou-se um ruído de fundo. O que importava era o calor, a segurança e a sensação de que, apesar de todos os meses de silêncio e mágoa, a conexão entre elas ainda era uma força da natureza.
Quando o filme finalmente terminou e as luzes da sala foram acesas, o clima era de uma exaustão leve e satisfeita.
— Caralho, que filme tenso — disse Till, limpando o suor da testa. — Nunca mais deixo o Ivan escolher nada.
— Ah, para de reclamar, você adorou o susto no final — rebateu Ivan, levantando-se e se espreguiçando.
Luka e Hyuna levantaram-se do puff, ambos um pouco corados, mas sorridentes.
No chão, Mizi e Sua demoraram a se mover. Mizi finalmente soltou o abraço, mas manteve a mão no ombro de Sua enquanto se levantavam. O olhar que trocaram não era mais de indiferença ou de mágoa pura; era algo novo, um reconhecimento de que o gelo tinha, de fato, começado a derreter sob a pressão daquela proximidade forçada.
— Desafio cumprido, Ivan — disse Mizi, recuperando sua postura sarcástica, embora seus olhos dourados estivessem mais suaves. — Agora, cadê o resto daquela pipoca? Eu estou com fome.
Sua ajeitou a saia e o cabelo, tentando recuperar a compostura, mas o brilho em seus olhos roxos era inegável. Ela olhou para Mizi e, pela primeira vez em meses, deu um sorriso pequeno e genuíno.
— Você é uma péssima companhia para filmes, Mizi. Você não parou de mexer no meu cabelo.
— Reclama, mas não pediu para parar — Mizi piscou para ela, pegando a bacia de pipoca das mãos de Till.
O restante da noite na casa de Hyuna foi preenchido por conversas mais leves e risadas sinceras. A tensão não desaparecera completamente — as cicatrizes dos últimos nove meses ainda estavam lá, profundas e marcadas —, mas o "Quarto Ano" parecia, naquele domingo à noite, um pouco menos parecido com um inferno.
Enquanto o grupo se preparava para ir embora, Ivan observou Mizi e Sua conversando perto da porta. Elas não estavam de mãos dadas, não havia promessas de amor eterno, mas a forma como Mizi se inclinava na direção de Sua e o jeito como Sua não recuava diziam tudo o que ele precisava saber.
— Às vezes — murmurou Ivan para si mesmo, colocando um novo pirulito na boca —, minhas ideias idiotas são as melhores.
— O que você disse? — perguntou Till, aproximando-se.
— Nada, Till. Só que o quarto ano vai ser muito interessante.
Mizi subiu em sua moto, colocou o capacete e olhou para Sua uma última vez antes de dar a partida.
— Vejo você amanhã na escola, poetisa. Tenta não sonhar com monstros.
— Vou tentar, Mizi.
O rugido do motor ecoou pela rua silenciosa enquanto Mizi se afastava. Sua ficou parada na calçada, observando a luz traseira da moto desaparecer na escuridão. O labirinto de sombras da Anaktos ainda estava lá, e a reconciliação completa ainda era um caminho longo e tortuoso, mas naquela noite, entre pipocas e sustos de cinema, elas tinham encontrado a saída da primeira galeria escura. E para Sua, o gosto amargo da cereja do pirulito de Mizi nunca parecera tão doce.