Rintama high 2
O Eclipse de Morango e a Tensão sob os Lençóis
A segunda-feira na Escola Secundária Anaktos amanheceu com um peso que não vinha apenas das mochilas carregadas. O lugar de Mizi na última fileira do canto esquerdo estava vazio. Para o grupo, aquele vácuo no fundo da sala era um buraco negro que sugava qualquer tentativa de normalidade. Ivan olhou para o celular a cada cinco minutos, mas a última mensagem visualizada ainda era a da noite de domingo, após o filme na casa de Hyuna.
Na terça-feira, o silêncio persistiu. Na quarta, a cadeira de Mizi começou a parecer um monumento ao abandono. Na quinta e na sexta, a atmosfera entre o grupo beirava o colapso nervoso. Sua estava em um estado de letargia funcional; ela respondia aos professores, anotava a matéria, mas seus olhos roxos estavam permanentemente nublados, como se ela esperasse que a porta da sala fosse ser chutada a qualquer momento por uma bota de couro.
— Ela sumiu de novo — resmungou Till, enquanto chutava uma latinha de refrigerante no pátio, na tarde de sexta-feira. — Aquela maluca simplesmente sentiu o gostinho de ser legal com a gente e decidiu que era demais para o ego dela?
— Não faz sentido, Till — rebateu Luka, ajustando os óculos com uma expressão preocupada. — Ela parecia... bem no domingo. A estatística de um desaparecimento voluntário logo após uma reconciliação parcial é baixa, a menos que haja um fator externo.
— O fator externo se chama Mizi — disse Sua, a voz soando mais amarga do que ela pretendia. — Ela faz o que quer. Talvez tenha se cansado de nós novamente.
No sábado, o grupo se reuniu novamente na casa de Hyuna. O clima era radicalmente diferente da semana anterior. Não havia empolgação para jogos ou filmes. Eles estavam espalhados pela sala como sobreviventes de um naufrágio. Hyuna e Luka tentavam, sem muito sucesso, puxar Sua para uma conversa sobre o festival de artes que se aproximava, mas a garota de cabelos pretos apenas encarava o tapete, segurando uma caneca de chá frio.
Ivan estava em pé perto da janela, o brilho da tela do celular refletido em seus olhos escuros. Ele estava digitando com uma fúria contida, enviando a trigésima mensagem da semana.
— Se ela não responder agora, eu vou na casa dos pais dela e crio um incidente diplomático — ameaçou Ivan, a voz rouca.
— Ivan, senta um pouco — pediu Hyuna, suspirando. — Ficar pilhado não vai fazer ela aparecer.
— Eu não entendo! — Till explodiu, levantando-se da poltrona. — A gente estava lá, no chão, ela estava fazendo carinho na Sua, a gente parecia... sei lá, amigos! E agora esse gelo de uma semana? Ela é uma covarde, isso sim!
De repente, o celular de Ivan vibrou na palma de sua mão. O som foi como um tiro na sala silenciosa. Todos congelaram. Ivan olhou para a tela, e suas sobrancelhas subiram tanto que quase desapareceram na franja.
— É ela? — perguntou Sua, a voz saindo em um fio, levantando-se do sofá em um movimento brusco.
— É... — Ivan começou a ler, um meio sorriso incrédulo surgindo em seu rosto. — "Ivan, para de me mandar mensagem, seu maníaco. Eu só sumi porque peguei uma gripe que me derrubou no nível de eu não conseguir nem levantar pra mijar. E pra melhorar, a luz do bairro caiu na segunda à noite e só voltou hoje de tarde. Meu 4G aqui é tão podre que não rodava nem o Facebook, quem dirá o Instagram ou o WhatsApp pra responder vocês. Achei que eu ia morrer de tédio e febre, mas sobrevivi."
Houve um segundo de silêncio absoluto na sala, seguido por um suspiro coletivo de alívio que quase derrubou as cortinas.
— Uma gripe? — Till gritou, entre a risada e a indignação. — Ela sumiu uma semana e deixou todo mundo à beira de um ataque cardíaco por causa de um resfriado e sinal de internet ruim?
— Típico da Mizi — Luka riu, limpando os óculos, visivelmente mais relaxado.
— Ela disse que já está melhor — continuou Ivan, digitando rapidamente. — Estou dizendo pra ela vir pra cá agora. Todo mundo vai dormir aqui hoje mesmo, o quarto de hóspedes da Hyuna é grande.
— Manda ela vir — disse Hyuna, sorrindo para Sua, que finalmente tinha voltado a respirar normalmente. — Eu faço uma sopa ou algo assim.
— Ela disse que quer pizza, não sopa — Ivan atualizou, rindo. — E que chega em meia hora.
A meia hora seguinte foi uma correria para arrumar os colchonetes e pedir a comida. Quando a campainha finalmente tocou, o grupo quase atropelou Ivan para chegar à porta. Mizi estava parada lá, vestindo um casacão pesado e com o nariz levemente avermelhado, mas o brilho dourado nos olhos estava de volta, embora um pouco mais suave pela fadiga da doença.
— Se alguém fizer piada com a minha cara de doente, eu juro que uso meu último resto de força pra dar um soco — avisou Mizi, entrando na casa e deixando o ar frio da noite para trás.
— Você é uma idiota, sabia? — disse Sua, parando na frente dela.
Mizi olhou para a garota de cabelos pretos. O sarcasmo defensivo que ela costumava usar pareceu falhar por um momento.
— É, eu sei, poetisa. Senti sua falta também.
Depois que as pizzas foram devoradas e a adrenalina da chegada baixou, todos decidiram se trocar para os pijamas. A noite estava quente, apesar da brisa lá fora, e o interior da casa de Hyuna estava abafado.
Mizi reapareceu na sala vestindo um conjunto de pijama de pano confortável, preto e leve; uma calça solta e uma regata que deixava à mostra as tatuagens temporárias que ela costumava desenhar nos braços. Till estava apenas de bermuda, exibindo o físico magro e definido de quem passava tempo demais brigando, sem camisa para aliviar o calor. Ivan usava uma bermuda escura e uma camiseta cinza básica. Hyuna estava com um pijama curto de seda, e Luka parecia um personagem de desenho animado com seu pijama de nerd em xadrez azul, fechado até o penúltimo botão.
Sua, por sua vez, usava uma blusa de alça fina branca e um short curto combinando, o cabelo preto solto caindo em cascata pelas costas.
Eles se espalharam pelos colchonetes e sofás, a televisão ligada em um volume baixo apenas para servir de ruído de fundo. A conversa fluía fácil, cheia de provocações sobre a "morte iminente" de Mizi pela gripe.
— Eu juro, Ivan — dizia Mizi, sentada no meio de um colchonete grande —, o delírio da febre me fez ver você vestido de empregada francesa pedindo pra eu limpar o quarto. Foi o momento mais aterrorizante da minha vida.
— O seu subconsciente é um lugar muito perturbador, Mizi — rebateu Ivan, jogando uma almofada nela.
Enquanto ria da reclamação de Ivan, Mizi esticou o braço e puxou Sua, que estava sentada ao seu lado, para o seu colo. O movimento foi fluido, sem hesitação. Sua soltou um pequeno exclamação de surpresa, mas não resistiu, acomodando-se entre as pernas de Mizi.
O grupo parou por um segundo, observando. Era a primeira vez que Mizi exibia aquele nível de intimidade física de forma tão aberta e casual na frente de todos, sem o pretexto de um "desafio" ou de uma briga.
Mizi, no entanto, agia como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ela continuou a conversa com Ivan, gesticulando com uma mão enquanto a outra pousava, com uma naturalidade possessiva, sobre a coxa de Sua. Seus dedos começaram a traçar caminhos lentos e distraídos pela pele exposta do short curto da garota.
— E o Kael? — perguntou Hyuna, tentando manter o foco na conversa, embora seus olhos estivessem fixos na mão de Mizi. — Ele parou de te seguir?
— Aquele cara é um carrapato — respondeu Mizi. — Ele tentou ir na minha casa levar canja. Eu tive que trancar a porta e fingir que não tinha ninguém.
Enquanto falava, Mizi inclinou o rosto para frente, enterrando o nariz no ombro de Sua. Ela deu um beijo casto e demorado ali, na curva do pescoço da garota, enquanto seus dedos subiam um pouco mais pela coxa de Sua, apertando a carne macia de leve.
Sua sentiu um arrepio percorrer sua espinha, o rosto esquentando, mas ela não se moveu. Ela apenas se inclinou um pouco mais para trás, apoiando o peso do corpo contra o peito de Mizi, sentindo a vibração da voz da outra contra suas costas.
— Você está muito saidinha para quem estava morrendo ontem, Mizi — comentou Till, arqueando uma sobrancelha, tentando disfarçar o desconforto com sarcasmo.
Mizi levantou o rosto do ombro de Sua, um sorriso de canto nos lábios, os olhos dourados brilhando com um desafio malicioso.
— A febre passou, Till. E eu tenho muito tempo perdido pra recuperar. Não é, poetisa?
Sua apenas murmurou algo ininteligível, escondendo o sorriso atrás da mão, enquanto Mizi voltava a distribuir beijos lentos pelo seu ombro, sem parar de discutir com Ivan sobre qual seria o plano para a aula de segunda-feira.
— A gente vai ter que nivelar a matéria de história — disse Luka, tentando ser a voz da razão. — O professor avisou que o teste vai ser pesado.
— Foda-se a história, Luka — Mizi disse, a voz agora um pouco mais baixa, os dedos ainda brincando na coxa de Sua. — A gente está no quarto ano. O mundo está acabando e a gente está aqui. Isso já é matéria suficiente.
Ivan observava a cena, girando o pirulito na boca. Ele olhou para a irmã, vendo a expressão de paz que ela ostentava, algo que não via há meses. Ele sabia que a reconciliação ainda era um território minado, que a mágoa de nove meses não sumia com uma semana de gripe e um pijama confortável, mas ali, sob a luz suave da sala de Hyuna, as sombras da Anaktos pareciam bem distantes.
— Você é uma péssima influência, Mizi — disse Ivan, mas seu tom era leve.
— Eu sou a melhor influência que vocês já tiveram — Mizi rebateu, dando mais um beijo no ombro de Sua e apertando sua cintura. — Agora, quem vai buscar mais água? Estou com a garganta seca.
— Vai você, doente — resmungou Till, mas ele mesmo se levantou para ir até a cozinha, resmungando sobre como o casal no colchonete estava "exibido demais".
A noite continuou assim, entre risadas e provocações, com Mizi mantendo Sua em seu colo como se fosse a coisa mais preciosa e natural do mundo. O quarto ano da Anaktos ainda era um inferno, as gangues ainda estavam lá fora, e o futuro era incerto, mas naquele momento, entre o perfume de morango e o calor da pele, a fênix de algodão-doce e sua poetisa tinham finalmente encontrado o ritmo certo da música. E para o grupo, ver Mizi conversando naturalmente com Ivan enquanto reivindicava Sua para si era o sinal de que, talvez, as ruínas estivessem finalmente sendo reconstruídas.