Rintama high 2
O Sussurro das Paredes e a Geometria do Desejo
O ar na sala de Hyuna parecia ter se tornado subitamente denso, carregado por uma eletricidade que ia muito além das provocações habituais do grupo. A luz da TV, agora silenciada, projetava sombras longas que dançavam sobre os colchonetes espalhados. O que começou como uma noite de alívio pelo retorno de Mizi estava se transformando em algo visceral e incontrolável.
Ivan e Till estavam sentados lado a lado no sofá principal, a tensão entre eles acumulada por anos de insultos, socos e olhares atravessados. O sarcasmo de Ivan, geralmente sua armadura impenetrável, parecia ter derretido sob o calor daquela proximidade forçada. Till, com o peito subindo e descendo rapidamente, não aguentava mais o jeito que Ivan o encarava — aquele olhar profundo, escuro, que parecia ler cada uma de suas inseguranças.
— Você fala demais, Ivan — rosnou Till, a voz falhando.
— E você pensa de menos, Till — rebateu Ivan, mas não havia veneno em suas palavras.
Antes que Till pudesse responder com outro insulto, Ivan avançou. Não foi um movimento calculado; foi um bote. Ele agarrou a nuca de Till e o puxou para um beijo que interrompeu qualquer pensamento coerente. Till congelou por um milésimo de segundo antes de retribuir com uma fúria desesperada, suas mãos enterrando-se nos cabelos pretos de Ivan. O som dos dentes batendo e da respiração entrecortada preencheu a sala.
Sem dizer uma única palavra, Ivan se levantou, puxando Till pela mão com uma urgência que não admitia recusas. Eles tropeçaram em direção ao corredor, entrando no primeiro quarto de hóspedes. A porta bateu com um estrondo seco, e o clique da tranca ecoou como um veredito. Segundos depois, os primeiros sons começaram a atravessar a parede: o baque de corpos contra o colchão, gemidos abafados e o ritmo inconfundível de uma entrega total.
Hyuna, observando a cena com um sorriso de canto, olhou para Luka. O garoto nerd, geralmente tão contido em suas fórmulas e cálculos, estava com as bochechas coradas, mas seus olhos não desviavam dos dela.
— Acho que a gente também deveria procurar um lugar mais privativo, não acha? — sugeriu Hyuna, a voz aveludada.
Luka engoliu em seco, ajustando os óculos.
— A probabilidade de eu negar esse convite é estatisticamente nula — respondeu ele, tentando manter a pose, embora sua mão tremesse levemente ao tocar a de Hyuna.
Hyuna riu, uma risada clara e vibrante, e o puxou em direção à escadaria que levava ao seu quarto no andar de cima. Luka, apesar da aparência tímida, movia-se com uma determinação que surpreendeu até a própria Hyuna. Assim que a porta do quarto dela se fechou, novos sons começaram a se misturar à sinfonia da casa: risadas que logo se transformaram em suspiros profundos e o barulho da cabeceira da cama batendo contra a parede.
No andar de baixo, na sala agora vasta e silenciosa, Mizi e Sua permaneceram imóveis no colchonete. O desconforto era quase físico. Mizi ainda sentia o calor de Sua em seu colo, mas os sons vindos dos quartos vizinhos tornavam a atmosfera insuportável. Era como se a casa inteira estivesse pulsando com um desejo que elas ainda não tinham coragem de nomear abertamente.
— Isso é... constrangedor — murmurou Mizi, o rosto enterrado no ombro de Sua para esconder a vermelhidão nas bochechas.
— É — concordou Sua, a voz pequena. — Eles não têm o menor senso de discrição.
Mizi tateou o chão em busca de algo e encontrou seu estojo de fones de ouvido sem fio.
— Aqui. Pega um — disse ela, entregando o fone esquerdo para Sua. — Vamos assistir a alguma stream no meu celular. Qualquer coisa que abafe o barulho desses idiotas.
Elas se acomodaram, dividindo o par de fones. Mizi abriu um aplicativo de streaming e encontrou um jogador de RPG que falava sem parar sobre estratégias de combate. Elas fixaram os olhos na tela pequena do celular, tentando ignorar os gemidos de Till que atravessavam a parede e os suspiros de Hyuna que vinham do teto.
A estratégia funcionou por um tempo. Mizi mantinha o braço ao redor da cintura de Sua, e Sua apoiava a cabeça no ombro de Mizi. Elas estavam focadas na voz do streamer, mas a consciência da pele uma da outra era constante. Cada vez que Mizi respirava, Sua sentia o peito dela contra suas costas. Cada vez que Sua se mexia, Mizi sentia o roçar do pijama de seda.
Eventualmente, a stream terminou com um agradecimento efusivo do jogador. Quase ao mesmo tempo, um sinal sonoro agudo ecoou nos ouvidos de ambas: a bateria dos fones tinha acabado.
O silêncio que se seguiu foi devastador. Sem o som digital para protegê-las, a realidade da casa voltou com força total. O barulho vindo do quarto de hóspedes onde Ivan e Till estavam tinha se tornado mais rítmico, mais intenso.
Mizi engoliu em seco, sentindo o coração martelar contra as costelas. Ela olhou para Sua, esperando ver o habitual gelo ou o desconforto que as afastava.
Mas Sua estava diferente. Seus olhos roxos estavam escuros, dilatados, e ela encarava Mizi com uma coragem que nunca exibira antes. Com um movimento lento e deliberado, Sua pegou a mão de Mizi. Seus dedos eram pequenos e frios, mas o aperto era firme.
— Mizi — sussurrou Sua, levantando-se e puxando a garota rosa consigo.
Mizi a seguiu, hipnotizada. Sua a conduziu pelo corredor até o último quarto de hóspedes, o mais afastado da sala. Elas entraram e Sua fechou a porta, girando a chave. O quarto estava mergulhado em uma penumbra azulada vinda da lua lá fora.
Sem dizer uma palavra, Sua caminhou até Mizi e, com uma agilidade surpreendente, subiu em seu colo, enlaçando a cintura da líder da Mukuro com as pernas. Ela enterrou as mãos nos cabelos rosa e azul de Mizi, puxando-a para um beijo que tinha gosto de urgência e meses de palavras não ditas.
— Mizi... — Sua murmurou contra os lábios dela, a respiração quente e trêmula. — A gente... a gente pode fazer isso também?
Mizi sentiu um choque percorrer seu corpo. O pedido, vindo da garota que sempre fora a fortaleza de gelo, era a faísca que faltava para incendiar tudo.
— Você não tem ideia do quanto eu esperei você pedir isso — respondeu Mizi, a voz rouca de desejo.
Mizi a carregou até a cama de casal, deitando-a sobre os lençóis brancos. Com movimentos rápidos e famintos, Mizi despiu Sua, admirando a pele pálida sob a luz do luar, antes de se livrar da própria roupa. Ela se posicionou sobre a garota, beijando-a novamente, descendo os beijos pelo pescoço até os seios, marcando a pele de Sua com uma possessividade que não deixava dúvidas.
— Mizi... por favor... — Sua gemia, as mãos agarradas aos lençóis, a cabeça pendendo para trás.
Mizi desceu o corpo, posicionando-se entre as pernas de Sua. Ela usou dois dedos, entrando com uma lentidão provocante antes de estabelecer um ritmo firme e profundo. Sua soltou um grito abafado, o corpo arqueando-se contra o colchão. Ela se agarrava aos cabelos de Mizi, puxando as pontas azuis enquanto o prazer a atingia em ondas. Quando o primeiro ápice veio, Sua tremeu violentamente, sussurrando o nome de Mizi como uma prece.
Sem dar tempo para o fôlego voltar, Mizi sentou Sua na cama e posicionou-se atrás dela. Ela puxou Sua para trás, fazendo com que as costas da garota encostassem em seu peito, e abriu as pernas dela novamente. Nessa posição, Mizi deslizou três dedos para dentro, movendo-os com uma destreza que fez Sua perder o controle dos sentidos.
— Ah, Deus... Mizi! — Sua gemia, a cabeça jogada para trás no ombro de Mizi.
Ela agarrou o pulso da mão de Mizi que a penetrava, apertando com as unhas, arranhando a pele da outra enquanto o prazer se acumulava novamente. O ritmo era rápido, implacável, e Sua gozou pela segunda vez, as pernas tremendo e a respiração saindo em soluços curtos.
Mizi não parou. A adrenalina e o desejo acumulado durante todos os meses de separação a tornavam insaciável. Ela adicionou o quarto dedo, bombeando com uma força e velocidade que faziam Sua babar e xingar entre os gemidos. A garota de cabelos pretos estava completamente entregue, as mãos agora agarradas aos lençóis como se fossem sua única âncora no mundo.
— Eu te odeio... eu te odeio tanto... — Sua balbuciava, embora estivesse se pressionando contra a mão de Mizi com desespero.
— Eu sei, poetisa — sussurrou Mizi no ouvido dela, mordendo o lóbulo da orelha. — Eu também te amo.
Quando o terceiro orgasmo atingiu Sua, foi tão intenso que ela sentiu a visão escurecer por um momento. Ela desabou contra o peito de Mizi, o corpo mole e suado, a respiração errática.
Mizi a deitou cuidadosamente, cobrindo ambas com o lençol fino. O silêncio no quarto agora era preenchido apenas pelo som de seus corações desacelerando. Mizi se aconchegou, enfiando o rosto entre os seios nus de Sua, buscando o calor e o perfume que tanto sentira falta.
— Faz carinho? — pediu Mizi, a voz subitamente pequena e manhosa, a rainha da Mukuro dando lugar à garota que só queria ser amada.
Sua soltou um suspiro longo, as mãos ainda trêmulas encontrando o cabelo rosa de Mizi. Ela começou a acariciar a cabeça da outra, os dedos embrenhando-se nos fios coloridos.
— Você é uma idiota, Mizi — murmurou Sua, embora seu tom fosse de puro afeto. — Você me deixou dolorida. Eu mal consigo sentir minhas pernas.
— Mas você gostou — rebateu Mizi, dando um beijo leve na pele macia do seio de Sua.
— Gostei. E é por isso que você é uma idiota.
Mizi riu baixinho, fechando os olhos e deixando-se levar pelo cansaço e pela satisfação. Pela primeira vez em muito tempo, o "Quarto Ano" da Anaktos parecia algo distante e sem importância. As gangues, as brigas, o gelo e a mágoa tinham sido queimados naquela noite.
Enquanto o sono as envolvia, o som vindo dos outros quartos também tinha silenciado, dando lugar a um repouso coletivo. A casa de Hyuna, que começara a noite como um palco de tensões, agora era um refúgio de segredos compartilhados e promessas silenciosas.
Sua continuou o carinho no cabelo de Mizi até que a respiração da garota rosa se tornasse pesada e regular. Ela olhou para o teto, sentindo a dor latejante em seus músculos e o calor de Mizi contra si. O futuro ainda era incerto e a escola ainda era um inferno, mas ali, sob os lençóis de Hyuna, Sua sabia que não precisava mais de livros de poesia para entender a beleza. A poesia estava viva, dormindo em seus braços, e ela não pretendia deixá-la escapar nunca mais.