Rintama high 2
O Banquete dos Pecadores e o Despertar da Poetisa
A luz do sol de domingo entrou pela janela da cozinha de Hyuna com uma audácia que ninguém naquela casa parecia pronto para enfrentar. O cheiro de café fresco e torradas tentava disfarçar a tensão elétrica que ainda pairava no ar, resquício de uma noite onde as paredes da mansão haviam testemunhado mais do que apenas segredos sussurrados.
Ivan e Mizi foram os primeiros a surgir. Ivan, com sua habitual calma irritante, já estava devorando uma tigela de cereal, vestindo apenas a calça do pijama e exibindo marcas de arranhões no ombro que ele fazia questão de não esconder. Mizi, por outro lado, parecia ter sido atingida por um raio de energia pura; ela usava a regata preta do pijama e a calça larga, o cabelo rosa e azul espetado para todos os lados, mas com um brilho vitorioso nos olhos dourados que dizia tudo.
Logo, os outros começaram a se arrastar para a cozinha. Till foi o primeiro a entrar, evitando o olhar de todos, com as orelhas tão vermelhas que pareciam prestes a entrar em combustão. Luka vinha logo atrás, ajustando os óculos com uma frequência maníaca, enquanto Hyuna exibia um sorriso satisfeito, embora mantivesse uma postura mais contida que o normal.
O silêncio na mesa era tão denso que poderia ser cortado com uma faca de manteiga.
— Bom dia, flores do dia! — Mizi exclamou, batendo as mãos na mesa e fazendo Till pular de susto. — Dormiram bem? Ou o exercício noturno deixou todo mundo com sono?
Till engasgou com o próprio gole de suco, tossindo violentamente.
— Mizi, pelo amor de Deus, cala a boca — resmungou Till, sem olhar para cima.
— Por que, Till? — Ivan interveio, apoiando o queixo na mão e olhando fixamente para o garoto de cabelo cinza. — Você parecia ter muito a dizer ontem à noite. Ou a gritar. Eu pessoalmente achei a acústica daquele quarto de hóspedes fascinante.
— Ivan! — Luka protestou, o rosto agora da cor de um tomate maduro. — Há limites para a convivência social.
— Limites? — Mizi deu uma gargalhada alta, servindo-se de café. — Luka, meu querido, depois do que eu ouvi vindo do quarto da Hyuna, acho que a palavra "limite" foi riscada do dicionário desta casa. Eu não sabia que você tinha tanto fôlego para... fórmulas matemáticas complexas.
Hyuna apenas riu, dando de ombros.
— Inveja é uma coisa feia, Mizi.
— Inveja? Eu? — Mizi piscou, maliciosa. — Ah, não. Eu e a Sua estávamos muito ocupadas com a nossa própria "leitura técnica".
Nesse momento, Sua entrou na cozinha. Ela estava impecável, como sempre, vestindo o pijama de alça branca, mas havia uma suavidade em seus traços que não estava lá no dia anterior. Ela sentou-se ao lado de Mizi, pegando uma xícara de chá e fingindo que a conversa não a envolvia.
Ivan, no entanto, não estava disposto a deixá-la escapar.
— Sabe, Sua — disse Ivan, com um brilho cruel e divertido nos olhos —, eu sempre achei que você fosse a pessoa mais silenciosa da família. Mas ontem... — Ele fez uma pausa dramática, imitando um gemido agudo e arrastado, pendendo a cabeça para trás. — "Ah... Mizi... mais... por favor...".
O som da xícara de Sua batendo no pires ecoou pela cozinha. Ela não disse nada, mas suas bochechas ficaram instantaneamente escarlates. Ela fixou os olhos no chá como se pudesse desaparecer dentro da porcelana.
Mizi, em vez de defender a namorada, soltou uma gargalhada e se jogou sobre Sua no banco da cozinha, abraçando-a pelo pescoço e apertando as bochechas da garota.
— Ficou igualzinho, Ivan! — Mizi exclamou, começando a imitar Sua também, fazendo uma voz fina e manhosa. — "Mizi, você é uma idiota... ahhh... não para!".
— Parem com isso agora — murmurou Sua, a voz quase sumindo, embora ela não fizesse nenhum esforço real para afastar Mizi.
— Ah, qual é, poetisa! — Mizi deu um beijo estalado na bochecha dela. — Todo mundo aqui é pecador, ninguém pode julgar ninguém. Especialmente o Till, que parecia estar sendo exorcizado pelo Ivan.
— Eu vou te matar, Mizi! Eu juro que te mato! — Till levantou-se, apontando uma colher para ela, mas o efeito foi arruinado quando Ivan puxou a ponta da bermuda de Till, fazendo-o sentar de volta e dando um beijo rápido e sonoro em sua bochecha na frente de todos.
— Relaxa, Till. A Mizi só está com inveja porque a Sua é mais contida que você — disse Ivan, voltando ao cereal como se nada tivesse acontecido.
A manhã seguiu nesse ritmo de provocações e vergonha alheia. Após o café, o grupo decidiu que passaria mais um dia ali, aproveitando o domingo antes de voltarem para a realidade da Anaktos na segunda de manhã.
A tarde passou entre banhos revezados e momentos de preguiça. Quando a noite caiu, todos já estavam novamente em seus trajes de dormir, espalhados pela sala de estar. O clima era de uma calmaria pós-tempestade.
Ivan e Mizi estavam sentados no chão, concentrados em uma partida acirrada de videogame. Os sons de explosões e tiros digitais preenchiam o ambiente, acompanhados pelos xingamentos de Mizi cada vez que Ivan vencia uma rodada.
— Roubo! Você está usando cheat, Ivan! — Mizi gritava, apertando os botões do controle com uma força desnecessária.
— É talento, Mizi. Aceita que dói menos — respondia Ivan, sem desviar os olhos da tela.
Perto deles, no sofá, Till e Hyuna conversavam em voz baixa sobre música, compartilhando fones de ouvido e ocasionalmente rindo de alguma bobagem. Luka estava sentado em uma poltrona lateral, cercado por livros e cadernos, aproveitando a luz do abajur para revisar física, embora seus olhos frequentemente desviassem para Hyuna.
Sua estava sentada na outra ponta do sofá onde Mizi estava encostada no chão. Ela segurava um livro de romance contemporâneo, mas as páginas não viravam há mais de vinte minutos. Ela olhava para Mizi, observando a tensão nos ombros da garota rosa, o jeito como ela mordia o lábio inferior em concentração e como o pijama preto escorregava levemente pelo ombro.
Sua sentiu uma pontada de carência. Depois da noite anterior, o silêncio e a distância, mesmo que de apenas alguns centímetros, pareciam insuportáveis. Ela queria a atenção de Mizi. Queria o calor que a outra emanava.
Lentamente, Sua fechou o livro e o colocou de lado. Ela escorregou do sofá para o chão, sentando-se logo atrás de Mizi.
Mizi não percebeu de imediato, ocupada demais tentando derrubar o personagem de Ivan.
— Morre, morre, morre! — Mizi rosnava para a tela.
Sua aproximou-se mais. Ela envolveu a cintura de Mizi com os braços, colando o peito nas costas da outra. Mizi deu um sobressalto, errando um comando no controle.
— Opa, Sua... calma aí, estou no meio de uma boss fight — disse Mizi, rindo, mas sem se afastar.
Sua não respondeu. Ela enterrou o rosto no pescoço de Mizi, inalando o cheiro de morango que agora parecia fazer parte da sua própria existência. Ela começou a roçar o nariz na pele macia de Mizi, distribuindo beijos leves e úmidos na curva do ombro dela.
— Ei... — Mizi murmurou, a voz perdendo a força. — Ivan, para de atirar... a Sua está...
Ivan olhou de soslaio, viu a cena e deu um sorriso de canto.
— Problema seu, Mizi. Concentração é tudo.
Sua continuou. Suas mãos subiram por baixo da regata de Mizi, acariciando a pele da barriga e subindo em direção às costelas. Ela começou a se agarrar a Mizi, pressionando o corpo contra o dela com uma insistência que não deixava dúvidas sobre suas intenções.
— Sua... a gente está na sala — Mizi sussurrou, embora estivesse soltando o controle lentamente, a partida de videogame tornando-se irrelevante.
Sua ignorou o aviso. Ela mordeu levemente o lóbulo da orelha de Mizi e passou a perna por cima da coxa da garota rosa, roçando-se nela de forma lenta e deliberada.
Mizi soltou um suspiro pesado, a cabeça pendendo para trás até encontrar o ombro de Sua.
— Ok, Ivan... você venceu por W.O. — Mizi disse, a voz rouca.
Ivan apenas deu de ombros, desligando o console.
— Eu já ia parar mesmo. O Till está com cara de quem quer dormir.
Till e Hyuna olharam para o par no chão. Hyuna sorriu, percebendo a mudança na dinâmica de Sua. A "poetisa" estava finalmente reivindicando o que era dela com a mesma impulsividade que Mizi sempre exibira.
— Acho que é hora de todo mundo ir para os seus cantos — sugeriu Hyuna, levantando-se. — Amanhã a Anaktos nos espera e eu não quero ver ninguém caindo de sono na aula de história.
Luka fechou os livros apressadamente, seguindo Hyuna. Till levantou-se, lançando um olhar rápido para Ivan, que o seguiu logo em seguida.
Mizi e Sua permaneceram no chão da sala por mais alguns instantes. Mizi virou-se nos braços de Sua, ficando de frente para ela. O brilho dourado nos olhos de Mizi estava intenso, carregado de uma mistura de surpresa e desejo.
— Você está muito atrevida hoje, sabia? — Mizi perguntou, passando a mão pelo rosto de Sua.
— Aprendi com a melhor — respondeu Sua, a voz firme. — Agora vamos. Eu não quero ler romance. Eu quero você.
Mizi sorriu, um sorriso largo e genuíno, e puxou Sua para um beijo profundo antes de se levantarem. Elas caminharam em direção ao quarto de hóspedes, as mãos entrelaçadas, deixando para trás a sala silenciosa e as luzes apagadas.
Naquela noite, sob o teto da casa de Hyuna, as sombras da Anaktos foram novamente expulsas pelo calor de corpos que finalmente se entendiam. A segunda-feira chegaria com suas gangues, suas regras de giz e seu tédio opressor, mas para Mizi e Sua, o Quarto Ano tinha deixado de ser um inferno. Era apenas o cenário onde elas continuariam a escrever sua própria poesia, uma provocação e um toque de cada vez. E enquanto estivessem juntas, nenhuma hierarquia de escola ou distância de família poderia silenciar o rugido da rosa ou a vontade da poetisa.