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Stay Still

Ouro, Suor e Vidro Quebrado

O prédio da YG Entertainment não tinha a transparência de vidro da JYP. Ele era uma fortaleza de concreto, metal e uma aura de arrogância artística que dizia, em cada centímetro quadrado: "Aqui, nós não criamos ídolos; nós criamos ícones".

Para Choi Jiah, aquele era o cemitério das suas inseguranças e o berço da sua nova identidade.

Quando ela assinou o contrato como solista, não houve festa. Ela não ligou para os meninos para comemorar com pizza e refrigerante. Ela simplesmente entrou em uma das salas de produção do subsolo e só saiu de lá três dias depois, com as olheiras fundas e a primeira demo de um álbum que prometia ser um soco no estômago da indústria.

— Você é a garota que a JYP deixou passar, não é? — perguntou um dos produtores veteranos, observando-a através do vidro do estúdio enquanto ela ajustava os níveis de compressão em uma faixa de trap melódico.

Jiah não tirou os olhos da tela. Seus dedos voavam pelos comandos do software com uma agilidade que ela não tinha seis meses atrás.

— A JYP buscava coesão — Jiah respondeu, a voz rouca de quem não falava com ninguém há horas. — Eu busco impacto. Eles queriam um quebra-cabeça. Eu sou o incêndio que queima a caixa.

Na YG, Jiah floresceu como uma flor exótica e perigosa. Se antes ela era técnica, agora ela era visceral. Ela aprendeu que a produção musical era a única forma de garantir que ninguém jamais mudaria sua visão novamente. Ela passava noites estudando sintetizadores, aprendendo a distorcer a própria voz até que ela soasse como algo vindo de um sonho febril.

Sua técnica vocal, que já era impecável, atingiu um nível absurdo. Ela não apenas alcançava as notas; ela as possuía. Ela aprendeu a usar o drive, o falsete e o vibrato como armas de manipulação emocional.

Mas o preço daquela evolução era visível.

— Jiah, você precisa comer — disse Felix, aparecendo no lobby da YG com uma sacola de papel pardo e aquele olhar de "Sunshine" que ela costumava achar reconfortante, mas que agora a fazia se sentir exposta.

— Eu comi um energético e uma barra de proteína faz duas horas, Lix — ela respondeu, conferindo o cronograma em seu tablet. — Tenho ensaio de coreografia agora, depois gravação de dublagem para o novo curta da Pixar e, à noite, leitura de roteiro para o dorama da tvN.

Felix suspirou, segurando-a suavemente pelo braço.

— Isso não é comida, é combustível de foguete. Você emagreceu, Jiah. Seus olhos estão... maiores.

— É a maquiagem, Felix. Design de moda, lembra? — Ela forçou um sorriso, mas a mão que segurava o tablet tremia levemente. — Eu estou no topo. É assim que o topo se parece. É barulhento, rápido e não tem pausas para almoço.

A fama de Jiah explodiu como uma supernova. Seu debut solo foi um fenômeno visual. Ela não era apenas uma cantora; ela era uma *performer* cinematográfica. Seus clipes pareciam filmes de terror psicológico de alto orçamento, uma homenagem às suas raízes como atriz mirim.

Logo, ela estava em todos os lugares.

Ela era a vilã carismática no dorama de maior audiência do ano. Era a voz doce e mortal de vilãs em animações internacionais. Era a embaixadora de marcas de luxo que exigiam que ela viajasse para Paris, Milão e Tóquio em intervalos de quarenta e oito horas.

Mas, para os meninos do Stray Kids, a Jiah que eles viam nos outdoors não era a Jiah que eles conheciam.

— Ela não atende mais o telefone — reclamou Han, jogado no sofá do dormitório, girando o celular entre os dedos. — Eu mandei um meme sobre esquilos espaciais há três dias e ela só visualizou às quatro da manhã e não respondeu.

— Ela está trabalhando, Jisung — disse Chan, embora sua expressão estivesse carregada de preocupação. — O cronograma dela é três vezes pior que o nosso. Ela está tentando provar algo para o mundo.

— Ela está tentando provar algo para si mesma — corrigiu Seungmin, sem desviar os olhos do livro que lia. — Ela ainda está ouvindo aquela voz na sala de audição dizendo que ela não era "suficiente para o grupo". Então agora ela decidiu ser o grupo inteiro sozinha.

A exaustão de Jiah tornou-se uma entidade física que a acompanhava. Durante as gravações de um musical de época, ela desmaiou nos bastidores logo após uma nota alta que deixou a plateia de pé.

Ela acordou no camarim, com uma máscara de oxigênio e Lee Know sentado na cadeira à sua frente, limpando uma faca de descascar frutas com uma precisão assustadora.

— Se você disser que está bem, eu vou usar essa faca para cortar todos os figurinos desse teatro — disse Lee Know, a voz baixa e perigosa.

Jiah tentou se sentar, mas o mundo girou. Ela arrancou a máscara, respirando com dificuldade.

— Foi só o calor do palco, Minho. Aquele vestido pesa dez quilos.

— O vestido pesa dez quilos e você pesa quarenta — ele rebateu, levantando-se e entregando a ela um pedaço de maçã. — Coma. Agora.

— Eu tenho outra cena em dez minutos...

— Não, você não tem. O Chan ligou para o diretor. Ele disse que, se você pisar naquele palco de novo hoje, o Stray Kids inteiro vai fazer um protesto na porta do teatro e arruinar a reputação da peça.

Jiah riu, um som seco e sem vida.

— Vocês são ridículos.

— Nós somos a sua família — Lee Know sentou-se na beira da cama improvisada. — Jiah, olhe para mim. Você ganhou. Você é famosa. Você é rica. Você é a "performer absurda" que todos temem. Quando é que vai ser o suficiente? Quando você parar de respirar?

Jiah desviou o olhar para o espelho, onde sua imagem refletia uma rainha de porcelana, perfeita e prestes a estilhaçar.

— Se eu parar, Minho... se eu descansar... o silêncio volta. E no silêncio, eu ainda sou aquela garota que não foi escolhida. Eu sinto que, se eu fechar os olhos por muito tempo, todo esse império vai sumir e eu vou acordar naquela sala de audição de novo, sendo dita que eu não sou necessária.

— Você sempre foi necessária para a gente — disse uma voz na porta.

Era Hyunjin. Ele entrou silenciosamente, carregando uma sacola com roupas confortáveis e um par de pantufas de coelho que ele sabia que Jiah odiaria usar em público.

— Vossa Alteza — Hyunjin disse, fazendo uma reverência exagerada que, por um segundo, quebrou a tensão no quarto —, a corte decidiu que a rainha está em recesso. O reino pode esperar.

Jiah sentiu um nó na garganta.

— Hyunjin, eu não posso...

— Você pode — ele insistiu, aproximando-se e colocando as pantufas no chão. — Você se tornou essa performer incrível, Jiah. Nós estamos orgulhosos. Sério. Cada vez que vemos você na TV, o Changbin grita como se tivesse ganhado na loteria. Mas a gente sente falta da garota que discutia sobre café ruim e usava óculos de descanso.

— Aquela garota era fraca — Jiah murmurou.

— Aquela garota era real — corrigiu Lee Know. — Essa daqui é uma estátua de ouro. Estátuas são bonitas, mas elas não sentem calor. Elas não riem. E elas acabam rachando com o tempo.

Naquela noite, eles a levaram para o dormitório do Stray Kids, escondida sob bonés e máscaras. Não houve câmeras, não houve scripts, não houve diretores gritando "ação".

Chan estava na cozinha, preparando um caldo que tinha cheiro de infância e cuidado. Changbin estava tentando (e falhando) ganhar de Jeongin em um jogo de luta, enquanto Han narrava a partida como se fosse a final de uma Copa do Mundo.

Jiah sentou-se no sofá, cercada por eles, e sentiu o peso do mundo começar a escorregar de seus ombros.

— Jiah — chamou I.N, sentando-se ao lado dela e oferecendo um controle de videogame. — A gremlin acadêmica ainda sabe como perder para mim ou a fama atrofiou seus polegares?

— Eu vou acabar com você, raposinha — ela respondeu, a chama competitiva brilhando nos olhos pela primeira vez em meses sem a pressão de ser perfeita.

Pela primeira vez em anos, Jiah não pensou no próximo dorama, na próxima técnica vocal ou na produção do próximo single. Ela apenas existiu.

Mas, enquanto olhava para os meninos rindo, ela percebeu que a YG tinha lhe dado o palco, mas o Stray Kids era o único lugar onde ela podia, finalmente, tirar a maquiagem e descansar a alma. O problema era que o mundo lá fora continuava gritando seu nome, e a fome de perfeição que ela alimentara por tanto tempo ainda roía suas entranhas.

Ela estava no topo, sim. Mas a vista lá de cima era fria, e ela percebeu que só conseguia suportar a altitude porque sabia que, em algum lugar lá embaixo, havia oito garotos uivando para que ela não se esquecesse de voltar para casa.

— Você está distraída de novo — disse Seungmin, sentando-se no chão aos pés dela. — Está pensando no trabalho?

— Estou pensando — Jiah disse, fechando os olhos e encostando a cabeça no encosto do sofá — que eu esqueci como é bom não ser ninguém importante por algumas horas.

— Para a gente, você nunca foi importante pela sua fama, Jiah — Chan disse, vindo da cozinha com as tigelas de caldo. — Você é importante porque é a nossa Jiah. E se você esquecer disso de novo, eu vou pessoalmente na YG e te sequestro de volta para o ensino médio.

Jiah riu, e desta vez, o som foi real. Foi curto, cansado e um pouco quebrado, mas foi dela.

Ela ainda treinaria até a exaustão no dia seguinte. Ela ainda seria a performer absurda que o mundo exigia. Mas, naquela noite, entre o cheiro de caldo e o barulho de videogames, Choi Jiah finalmente dormiu sem precisar de remédios.

Ela só não sabia que as "regressões" estavam prestes a se tornar sua única fuga de um mundo que se recusava a deixá-la ser apenas uma garota. E que o ritual do uivo, que começaria como uma brincadeira de Chan, seria a única coisa que a impediria de se perder completamente no brilho ofuscante da sua própria fama.