Stay Still
O Eco do Uivo Silencioso
O silêncio do camarim da YG era espesso, carregado com o cheiro de laquê, maquiagem cara e o resíduo metálico de uma exaustão que não podia mais ser ignorada. Choi Jiah estava sentada diante do espelho, mas não via a estrela internacional que o mundo idolatrava. Ela via apenas borrões. As luzes ao redor do espelho, que antes pareciam estrelas guiando seu sucesso, agora eram agulhas de luz perfurando sua enxaqueca.
Seus dedos, trêmulos, tentaram desabotoar o espartilho pesado do figurino, mas a coordenação motora parecia ter abandonado seu corpo. O pânico, um velho conhecido, começou a subir pela garganta, mas não era um pânico explosivo. Era algo denso, infantil e desesperador. Jiah sentiu o mundo encolher. As paredes pareciam altas demais, as responsabilidades grandes demais, e a persona de "performer absurda" pesava como uma armadura de chumbo sobre os ombros de uma criança que só queria se esconder.
Foi a primeira vez que aconteceu de forma tão nítida. O desejo de não ser Choi Jiah, a solista, mas apenas... pequena.
Ela se encolheu na cadeira, puxando os joelhos contra o peito. A respiração ficou curta, e um som escapou de seus lábios — não um grito, não uma fala, mas um pequeno ganido, um uivo baixinho e trêmulo que ecoou nas paredes frias.
A porta do camarim se abriu suavemente. Não era um funcionário da empresa. Ninguém na YG entrava sem bater, a menos que fosse alguém que tivesse a chave do seu coração, e não apenas do seu cronograma.
Bang Chan parou na soleira. Ele não precisou de explicações. Ele viu a forma como ela estava encolhida, viu o olhar vago e a vulnerabilidade crua que ela passava vinte e quatro horas por dia tentando esconder sob camadas de perfeccionismo. Ele sabia que, naquele momento, a Jiah que discutia produção musical e escalas vocais não estava presente.
— Jiah? — chamou ele, a voz tão suave quanto o toque de uma pluma.
Ela não respondeu com palavras. Ela apenas inclinou a cabeça, os olhos brilhando com lágrimas que ela não conseguia mais conter, e soltou o uivo novamente. Era um chamado. Um pedido de socorro que transcendia a lógica adulta.
Chan fechou a porta e trancou-a. Ele se aproximou lentamente, sentando-se no chão ao lado da cadeira dela. Ele não tentou forçá-la a "voltar ao normal". Em vez disso, ele mergulhou no mundo dela.
— Eu ouvi você — sussurrou Chan. — O Wolf Chan ouviu.
Ele esticou a mão e, do bolso do seu casaco largo, tirou o pequeno boneco de pelúcia do Wolf Chan. Ele o posicionou de forma que Jiah pudesse ver.
— Auuuuu — Chan fez um uivo suave, imitando o som do seu mascote, respondendo ao chamado dela.
O efeito foi imediato. Os ombros de Jiah relaxaram. Ela desceu da cadeira e sentou-se no chão, engatinhando para mais perto dele até que pudesse esconder o rosto no ombro de Chan. Ele a envolveu em um abraço protetor, permitindo que ela fosse pequena, que ela regredisse para um estado onde a única obrigação era ser cuidada.
— Está tudo bem, pequena loba — murmurou ele, acariciando o cabelo dela. — A matilha está aqui. Você não precisa ser perfeita agora.
A partir daquele dia, o "ritual do uivo" tornou-se o código secreto entre eles. Os meninos do Stray Kids, que já a amavam de forma incondicional, adaptaram-se à nova realidade de Jiah. Eles entenderam que a pressão da fama, a rejeição passada e a busca obsessiva por excelência criaram nela uma necessidade de escape emocional. As regressões eram o seu mecanismo de defesa, e os SKZOOs tornaram-se as pontes para esse refúgio.
Alguns dias depois, o grupo estava reunido na sala de ensaio da JYP, um dos poucos lugares onde Jiah se sentia segura o suficiente para baixar a guarda. Ela estava sentada em um canto, abraçada ao seu próprio boneco, observando os meninos treinarem. A música estava alta, os movimentos eram precisos, mas Jiah começou a se sentir sobrecarregada pelo estímulo sensorial.
Hyunjin percebeu a mudança no olhar dela — aquela névoa que indicava que ela estava se afastando da realidade adulta.
— Vossa Alteza — disse Hyunjin, parando a dança e caminhando até ela com uma elegância teatral. Ele pegou o boneco do Jiniret e o colocou sobre a cabeça como se fosse uma coroa improvisada. — A corte está em sessão, e parece que a nossa princesa esqueceu sua coroa.
Jiah olhou para ele, um pequeno sorriso surgindo.
— O reino está em perigo? — perguntou ela, a voz subindo um oitavo, tornando-se mais fina e infantil.
— Jamais sob minha guarda — Hyunjin estendeu a mão para ela, ajudando-a a se levantar. — Vamos, o baile real vai começar, e o Jiniret exige que dancemos apenas com passos de algodão-doce.
Ele começou a girar com ela pela sala, transformando o ensaio exaustivo em uma brincadeira de realeza. Os outros membros, sem hesitar, entraram no teatro.
— Eu serei o cavaleiro de guarda! — exclamou Changbin, pegando o Dwaekki e fazendo poses de fisiculturismo exageradas. — Ninguém toca na princesa sem passar pelos meus músculos de pelúcia!
— E eu sou o bardo da corte — Han anunciou, usando o Quokka para fazer batidas de beatbox enquanto inventava uma música sobre uma princesa que odiava brócolis mas amava estrelas.
Jiah ria, uma risada borbulhante e leve que nunca aparecia em suas entrevistas na TV. Naqueles momentos, o peso da YG, das críticas e da solidão do estrelato solo desaparecia.
No entanto, nem todas as regressões eram alegres. Algumas eram silenciosas e carregadas de uma melancolia que partia o coração dos meninos.
Em uma noite chuvosa, Felix encontrou Jiah sentada no chão da cozinha do dormitório deles, encarando o nada. Ela estava em um estado de regressão profunda, incapaz de falar, apenas segurando o BbokAri contra o peito como se fosse um escudo.
Felix não fez piadas. Ele não tentou animá-la com barulho. Ele apenas foi até o armário, pegou uma manta felpuda e a envolveu.
— Está frio aqui fora, não está? — disse Felix, sentando-se ao lado dela. — O BbokAri acha que um chocolate quente com muitos marshmallows resolveria o problema do mundo. Você concorda?
Jiah apenas assentiu levemente, encostando a cabeça no ombro de Felix. Ele começou a cantarolar uma canção de ninar australiana, a voz grave e doce vibrando contra o peito dela, proporcionando o tipo de conforto que ela nunca teve quando era uma criança prodígio trabalhando em sets de terror.
— Você é amada, Jiah — sussurrou Felix, beijando o topo da cabeça dela. — Mesmo quando você não consegue falar. Mesmo quando você só quer ser pequena.
Do outro lado da sala, Seungmin observava a cena. Ele era o mestre do sarcasmo, aquele que sempre tinha uma resposta afiada para a Jiah adulta. Mas, com a Jiah regredida, ele tinha um papel diferente. Ele era o mestre das distrações lógicas.
— Sabe, Jiah — disse Seungmin, aproximando-se com o PuppyM na mão —, o PuppyM me disse que é matematicamente impossível ficar triste enquanto se tenta equilibrar cinco biscoitos no nariz. Você quer testar a ciência dele?
Jiah olhou para ele, os olhos curiosos. Ela pegou um biscoito e tentou equilibrá-lo, falhando miseravelmente e rindo quando o biscoito caiu no colo de Felix.
— Viu só? — Seungmin deu um sorriso raro e genuíno. — A ciência nunca falha.
Lee Know, por sua vez, mantinha sua fachada de "não me importo", mas suas ações diziam o contrário. Ele era quem garantia que, durante as regressões, Jiah estivesse sempre alimentada e limpa.
— Pare de se mexer — resmungou Lee Know, enquanto usava um lenço umedecido para limpar uma mancha de chocolate do rosto dela. — Você é uma bagunça, garota. O Leebit está muito desapontado com sua falta de modos à mesa.
Jiah fez um biquinho, olhando para o boneco de coelho que Lee Know segurava.
— O Leebit está bravo? — perguntou ela, com os olhos marejados.
— Não — Lee Know suspirou, suavizando a expressão e dando um tapinha leve na bochecha dela. — Ele só quer que você cresça saudável para que possa continuar me irritando quando voltar ao normal. Agora coma o resto do seu lanche.
I.N, o maknae que a conhecia desde os tempos de escola, era quem mais se sentia confortável apenas "estando" ali. Ele não precisava de rituais ou teatros. Ele sentava-se ao lado dela com o FoxI.Ny e jogava jogos simples no celular, deixando que ela assistisse ou participasse quando quisesse.
— Lembra daquela vez na escola, noona? — perguntou I.N, mesmo sabendo que ela talvez não respondesse de forma adulta. — Quando a gente se escondeu atrás da biblioteca para não ir à aula de educação física? O FoxI.Ny diz que você ainda é a melhor parceira de fuga que ele já teve.
Jiah sorriu, segurando a mão de I.N. Com ele, ela sentia que o passado e o presente se fundiam em algo seguro.
Com o tempo, o ritual do uivo e o uso dos SKZOOs tornaram-se parte da rotina da "matilha". Não era algo que eles discutiam com estranhos ou com a empresa. Era o segredo sagrado deles.
Mas a pressão externa nunca parava. Em uma tarde particularmente difícil na YG, após uma sessão de fotos de doze horas, Jiah sentiu o colapso chegando. Ela estava no banco de trás da van, voltando para o seu apartamento, quando o pânico começou a fechar sua garganta. Ela estava sozinha. Não havia Chan, não havia Hyunjin.
Ela tateou sua bolsa e encontrou o pequeno chaveiro do Wolf Chan que Bang Chan lhe dera. Ela o apertou com força e, baixinho, soltou o uivo.
— Auuuu... — sua voz falhou, embargada pelo choro.
Seu celular vibrou quase instantaneamente. Era uma mensagem de áudio no grupo da "matilha". Ela deu o play, e a voz de Chan preencheu o silêncio da van.
— Auuuuuuu! — O uivo dele era forte, claro e cheio de uma promessa de retorno. — O Wolf Chan disse que está chegando em casa com pizza. Agente se vê em dez minutos, pequena loba.
Jiah respirou fundo, as lágrimas finalmente caindo, mas desta vez de alívio. Ela encostou a cabeça na janela e fechou os olhos.
Ela sabia que, no dia seguinte, teria que acordar e ser a Choi Jiah que o mundo esperava. Teria que ser a performer fria, a atriz impecável, a voz que alcançava notas impossíveis. Teria que enfrentar a solidão do palco e o peso dos holofotes.
Mas agora, ela não tinha mais medo do escuro ou do silêncio. Porque ela sabia que, sempre que o mundo ficasse grande demais para suportar, ela poderia soltar aquele uivo baixinho e, em algum lugar, oito vozes responderiam, lembrando-a de que ela nunca mais precisaria caminhar sozinha.
A matilha estava completa. E Jiah, pela primeira vez em sua vida de perfeição fingida, descobriu que ser "quebrada" de vez em quando era o que a tornava, finalmente, inteira.
— Eu estou em casa — sussurrou ela para o chaveiro do Wolf Chan, enquanto a van dobrava a esquina do dormitório.
E, lá em cima, na janela do terceiro andar, ela viu a silhueta de oito garotos esperando por ela, prontos para transformar o mundo em um reino de pelúcia, coroas de papel e uivos de amor.