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Stay Still

Soberania de Papel e Algodão-Doce

O teto do dormitório do Stray Kids era, em dias normais, apenas uma superfície branca com algumas manchas de umidade que Changbin prometia limpar e nunca limpava. Mas, para Choi Jiah, em certas tardes de terça-feira, aquele teto era a cúpula de cristal do Grande Salão de Audiências.

Jiah estava sentada no meio do tapete da sala, cercada por uma coleção eclética de almofadas que formavam um trono improvisado. Ela não usava o vestido de grife da última campanha da Chanel, nem a maquiagem carregada que usara na gravação do dorama naquela manhã. Ela usava um pijama de flanela com estampas de estrelas e uma manta de seda rosa jogada sobre os ombros como um manto real.

Seus olhos, que costumavam carregar o peso de mil expectativas industriais, estavam brilhantes e focados em um ponto invisível no horizonte do corredor.

— Vossa Alteza, a corte está em sessão — anunciou ela, a voz saindo com uma solenidade infantil, mas absolutamente séria.

Do outro lado do corredor, um barulho de passos apressados e o som de algo metálico batendo — provavelmente uma colher de arroz em uma panela — indicaram que o chamado fora ouvido.

Hyunjin surgiu na entrada da sala. Ele não estava apenas caminhando; ele estava desfilando. Ele havia enrolado um lençol dourado ao redor do corpo como uma toga e, sobre a cabeça, ostentava uma coroa de papelão que Felix o ajudara a recortar no dia anterior. Em suas mãos, ele segurava o Jiniret, que agora vestia um pequeno colete de veludo azul com botões de pérola falsa.

— Minha estimada Princesa Jiah — disse Hyunjin, fazendo uma reverência tão profunda que sua franja quase tocou o chão. — O Reino de Stay-dom aguardava ansiosamente por sua presença. O que diz a agenda real para esta tarde de glória?

Jiah apontou para o espaço vazio ao seu lado no tapete.

— O Duque Jiniret parece tenso, Príncipe Hyunjin. Ele precisa de um banquete de biscoitos de chocolate e uma consulta sobre as leis da gravidade. Por que os biscoitos caem sempre com o lado do chocolate para baixo? Isso é traição contra a coroa.

Hyunjin sentou-se com elegância aristocrática ao lado dela, colocando o Jiniret em seu colo.

— Uma questão de estado gravíssima! — exclamou ele, gesticulando dramaticamente. — Suspeito que o Conde Gravidade esteja conspirando com os rebeldes da Dieta. Mas não tema, o conselho real já foi convocado.

Nesse momento, o "conselho" começou a aparecer. Han entrou na sala saltitando, segurando o Quokka, que usava um pequeno chapéu de bobo da corte feito de papel alumínio.

— O Bobo da Corte chegou para animar a sessão! — Han anunciou, fazendo uma careta engraçada. — Sabiam que o rei dos pães foi para o hospital porque estava com "miolo" mole?

Jiah soltou uma risadinha, cobrando a boca com a mãozinha, entrando completamente no espírito da brincadeira.

— O Bobo Han está perdoado por sua piada terrível apenas porque o Quokka parece muito brilhante hoje — decretou ela.

O que começara meses atrás como uma forma de Hyunjin distrair Jiah durante uma crise de choro pós-ensaio, havia se transformado em um ritual afetivo complexo. Hyunjin percebera, com sua sensibilidade artística apurada, que Jiah nem sempre regredia por tristeza. Às vezes, o cérebro dela, exausto de ser uma máquina de produtividade, só queria o direito de brincar. De ser lúdica. De criar mundos onde as únicas regras eram as que eles inventavam.

E Hyunjin, sendo o mestre do drama e da estética, era o parceiro perfeito para isso.

— Precisamos de música para a cerimônia do chá — disse Hyunjin, olhando para a cozinha. — Onde está o Grande Maestro e seu ajudante musculoso?

Chan e Changbin apareceram. Chan segurava o Wolf Chan, que tinha uma pequena gravata borboleta amarrada no pescoço. Changbin, apesar de tentar manter sua imagem de "dark rapper", segurava o Dwaekki, que agora usava uma pequena capa de super-herói.

— O chá está sendo preparado com as águas das fontes sagradas da chaleira elétrica — disse Chan, entrando no personagem com um sorriso caloroso. — Eu, o Maestro Wolf, componho uma sinfonia de borbulhas em homenagem à Princesa.

— E eu — interrompeu Changbin, fazendo o Dwaekki "voar" pelo ar — sou o General da Guarda. Se qualquer dragão ou crítico de música tentar entrar neste castelo, eles terão que passar por mim. E pelo meu porco-coelho.

Jiah olhou para eles, sentindo uma onda de calor que nada tinha a ver com a manta em seus ombros. Era ridículo. Ela sabia, em algum lugar profundo de sua mente adulta, que eram ídolos globais brincando de castelo em um dormitório em Seul. Mas, para a Jiah que estava ali agora, aquilo era mais real e importante do que qualquer prêmio no MAMA.

— General Changbin — disse Jiah, estendendo a mão para que ele a beijasse (ou melhor, para que o Dwaekki desse um "beijo" de pelúcia). — Sua lealdade é notada. Por favor, sente-se. O conselho está discutindo coisas sérias.

— Como o quê? — perguntou Lee Know, entrando na sala com uma bandeja de sucos e o Leebit equilibrado no ombro. O Leebit usava um pequeno tapa-olho. — O Leebit diz que a maior ameaça ao reino agora é o fato de o Seungmin ter escondido o controle remoto da TV real.

— Eu não escondi — disse Seungmin, aparecendo logo atrás, segurando o PuppyM, que usava pequenos óculos de leitura idênticos aos dele. — Eu apenas o realoquei para uma dimensão onde a Princesa não possa assistir a doramas tristes que a façam chorar. O PuppyM prescreve apenas desenhos animados de cores vibrantes hoje.

— Uma decisão sábia do Juiz PuppyM — concordou Hyunjin, ajeitando sua coroa de papelão. — Princesa Jiah, o que deseja para o entretenimento da tarde?

Jiah inclinou a cabeça, pensando. Ela olhou para os SKZOOs espalhados pela sala, cada um com sua pequena roupinha customizada. Aqueles bonecos não eram mais apenas mercadorias para os fãs; eram extensões do carinho que aqueles garotos tinham por ela. Se ela era a princesa, eles eram os guardiões de sua sanidade.

— Eu quero — começou Jiah, a voz suave — que o Príncipe Hyunjin conte a história de como o Jiniret salvou a lua de um espirro gigante.

Hyunjin iluminou-se. Ele adorava contar histórias. Ele se sentou no chão, gesticulando com as mãos enquanto os outros membros se acomodavam ao redor do "trono" de almofadas. Felix sentou-se aos pés de Jiah, oferecendo-lhe um prato de morangos cortados em formato de coração.

— Era uma vez — começou Hyunjin, em um tom épico — quando a lua era feita de queijo brie e o céu era um oceano de suco de uva...

Enquanto a voz de Hyunjin preenchia a sala, Jiah sentiu a tensão em seus ombros desaparecer completamente. Ela se permitiu apoiar a cabeça no ombro de Chan, que começou a acariciar seu cabelo distraidamente enquanto ouvia a história.

Para os meninos, entrar naquele universo era uma forma de proteger Jiah. Eles sabiam que ela passava o dia sendo julgada por diretores, estilistas e milhões de pessoas na internet. Ali, naquela sala, a única coisa que importava era se a história do Hyunjin teria um final feliz e se os morangos do Felix estavam doces o suficiente.

— E então — continuou Hyunjin, fazendo o Jiniret dar um salto mortal no ar — o Jiniret usou sua cauda de seda para amarrar o espirro e transformá-lo em uma nuvem de algodão-doce! E foi assim que a lua parou de tremer e o reino voltou a dormir em paz.

— Que história linda, Vossa Alteza — murmurou Jiah, os olhos começando a pesar.

O ambiente lúdico tinha esse efeito nela. Era o único lugar onde ela conseguia relaxar o suficiente para sentir sono. O "universo da realeza" era seu porto seguro, um teatro onde ela podia ser vulnerável sem ser fraca.

— A sessão da corte está encerrada? — perguntou I.N, que estivera observando tudo com um sorriso de raposa, segurando o FoxI.Ny que vestia uma pequena capa de explorador.

— Ainda não — disse Jiah, fazendo um esforço para manter os olhos abertos. — Falta o juramento da matilha real.

Os oito meninos se entreolharam e sorriram. Era o momento favorito dela. Eles se aproximaram, formando um círculo ao redor dela e de suas almofadas. Cada um estendeu seu SKZOO para o centro, tocando os narizes de pelúcia uns nos outros.

— Pela honra da coroa — começou Chan.

— Pela proteção da nossa princesa — continuou Lee Know, surpreendentemente sério.

— Contra dragões, sombras e dietas sem açúcar — acrescentou Changbin.

— No brilho do sol ou no uivo da lua — disse Felix.

— Nós ficaremos — finalizou Hyunjin, olhando diretamente nos olhos de Jiah.

— Nós ficaremos — repetiram todos em coro.

Jiah sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas não era de tristeza. Era o alívio de saber que, mesmo quando ela não era a "performer absurda", mesmo quando ela era apenas uma garota de pijama brincando com bonecos de pelúcia, ela tinha um lugar onde pertencia.

— Eu também fico — sussurrou ela.

Pouco tempo depois, o silêncio se instalou na sala. Jiah havia adormecido no meio de seu trono de almofadas, com o Wolf Chan em um braço e o Jiniret no outro. Hyunjin, ainda usando sua coroa de papelão, cobriu-a com mais uma manta, movendo-se com um cuidado quase sagrado.

— Ela está tão calma — sussurrou Felix, observando o rosto relaxado de Jiah.

— É porque aqui ela não precisa provar nada para ninguém — respondeu Chan, a voz baixa. — Aqui, ela é apenas a nossa Jiah.

— O universo da realeza é meio ridículo, não é? — comentou Han, olhando para seu chapéu de papel alumínio.

— É — concordou Lee Know, ajeitando o tapa-olho do Leebit. — É ridículo, é infantil e é a coisa mais importante que fazemos nesta semana. Olhe para ela. Ela não teve um pesadelo desde que começamos a "sessão da corte".

Hyunjin sentou-se no chão ao lado de Jiah, guardando as roupinhas extras do Jiniret.

— Às vezes — disse Hyunjin —, o mundo real é cruel demais para alguém tão intensa quanto ela. Se a gente puder dar a ela um reino onde o maior problema é um espirro da lua, então eu vou usar essa coroa de papelão todos os dias da minha vida.

Eles ficaram ali por um longo tempo, no silêncio confortável do dormitório, protegendo o sono da princesa que eles mesmos haviam coroado. Não havia câmeras, não havia fãs, não havia tabelas de vendas. Havia apenas uma matilha cuidando de um dos seus, transformando o absurdo em afeto e o teatro em lar.

Porque para Choi Jiah, a corte estava sempre em sessão quando eles estavam por perto. E, naquele reino de papel e algodão-doce, ela finalmente aprendera que não precisava ser perfeita para ser amada; ela só precisava ser ela mesma, com sua coroa invisível e seu coração finalmente em paz.